Cabeçalho Liga InglesaNo jogo do Manchester United encontramos muito facilmente velocidade, criatividade, força, postura. Não se deve a padrões de “know how” para vencer a Liga Inglesa, mas ao pragmatismo do nosso tão bem conhecido Mourinho. Essas valências encontram-se nos jogadores, principalmente nos do ataque. E no ataque, geralmente, existe lugar para três, quatro ou até mesmo cinco em simultâneo. Porém, um clube com poderio financeiro, como é o caso, dá-se ao luxo de injustiçar pessoas que trabalham arduamente para conseguir vaga no último terço do terreno. A época é longa (ainda para mais em Inglaterra), e essa injustiça torna-se justa quando vemos essas mesmas pessoas no onze inicial e a jogar bem. Qualquer futebolista quer estar no onze-tipo da sua equipa em todos os anuários desportivos de previsão de época. Contudo, existem jogadores que mesmo em condições iguais ao injustiçado que descrevi, foram objeto de um abrupto investimento, e como tal “merecem” mais oportunidades. Não é lá muito lógico, hein?

A lei dos números diz-nos que o valor mais elevado é superior. Básico. Os números que contam no negócio tão complexo e extremamente burocrático que é o futebol de hoje, infelizmente, não são os presentes na camisola e calções dos jogadores, não são o número de ovações que os ditos recebem da audiência após uma gracinha, e se forem o número de espetadores envolvidos na partida, assim o é porque eleva o volume de negócios, e não porque alarga o nosso tão rico universo futebolístico.

Após Alex Ferguson, o clube está em crise. Talvez porque alguém que não era presidente, mas com estatuto para tal; não percebia muito de finanças, mas quem tratava das finanças respeitava um Sir que dia após dia ficava mais célebre e mítico se encarregava de manter o United no caminho do sucesso desportivo, sem recorrer a contratações tão abruptas. Bem, esse modelo de gerência do clube mudou, e sem dúvida de que a retirada do escocês foi um marco bem patente. Bem, disse mesmo acima que Sir Alex Ferguson não percebia muito de finanças, mas ao pensar sempre no futebol, para o futebol ia evitando alguma despesa…

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Desde 2013 mudou muita coisa, muita coisa mesmo neste desporto, em quatro anos dá-se mais 100 milhões por um jogador como se fossem “meros” 30, há muitos mais agentes e cargos pouco ou nada úteis, e não sei se Ferguson iria encontrar outro esquadrão como G. Neville, Scholes, Giggs, jogadores de grande qualidade que formavam a espinha dorsal de uma equipa de topo durante uma geração inteira!

Lingard. Lingard, logo aquando do início da sua carreira profissional, não calçava no United, o clube onde se formou. Mas também não tinha mostrado o que mostra neste momento! Andou emprestado, cá e lá, cá e acolá. Nessa altura, talvez fosse visível uma potencialidade genial, porque se não fosse, não via razão de ser na sua situação de empréstimos consecutivos. E há jogadores que não “rebentam” logo.

Curiosamente, acho que o Lingard que daqui a uns anos vamos conhecer ainda está a rebentar. Vejo no inglês um potencial que também vejo em Martial, Rashford, Mkhitaryan, Mata, mas o investimento entre uns e outro não são, de forma alguma, equacionáveis. Imaginemos os quatro em excelente forma, a merecer jogar sempre, como poderíamos ser justos? Não se trata de uma mala de viagem em que queremos pôr tudo e no final até acabamos por pôr…

A vibe entre os jogadores é algo que torna o trabalho de cada um mais fácil. É mesmo bom trabalhar com amigos, palavra! Fonte: Instagram Oficial de Jesse Lingard
A vibe entre os jogadores é algo que torna o trabalho de cada um mais fácil. É mesmo bom trabalhar com amigos, palavra!
Fonte: Instagram Oficial de Jesse Lingard

24 anos é a sua idade (quase a completar 25), e com essa idade tanto já vimos jogadores com muita, assim assim, ou mesmo nenhuma experiência ao mais alto nível. Talvez casos como o de Cristiano Ronaldo (mudou-se aos 24 para Madrid, já com uma autêntica carreira feita); Sergi Roberto; e Jamie Vardy, respetivamente. Lingard é um virtuoso e no futebol isso conta como um elemento extra no currículo de um atleta. Ser virtuoso é ter sempre a mania de estar um passo à frente do oponente, é procurar lances que o coloquem numa posição extremamente favorecida, e que tal seja conseguido através de subtilidade e beleza: foge à lógica de correr mais do que o outro e chegas primeiro, mas enganas o outro e chegas primeiro e marcas! A idade pouco pode importar para um virtuoso, não é Ricardo Quaresma?!

Na virtuosidade os números pouco contam também. O que conta é a efetividade do truque e a repercussão do mesmo. Ninguém se vai lembrar de quantas vezes um intérprete deste tipo enganou o outro, antecedeu o que o outro ia fazer, porque também não sabemos o que vai na cabeça de cada um; mas pelo oposto, sabemos quantos passes fez, quantos golos marcou através dos “Meus Resultados”, por exemplo. Ser virtuoso é não ligar aos números, é ser o expoente máximo da liberdade, e por isso é que deixámos de ver um Cristiano Ronaldo tecnicista, que se adaptou ao que as pessoas neste universo ligam hoje em dia, ao que dão valor, que são às estatísticas. Para ter as estatísticas mais elevadas, o seu perfil não lhe permitiu continuar a ser virtuoso. Desde que Messi venceu aquela Bola de Ouro devido aos 90 e tais golos num ano civil (não intento em tirar o mérito!), acho que Cristiano mudou, e nesse âmbito para melhor…mas num outro âmbito para pior. Certamente todos temos saudades daquelas fintas de pernas sobre a bola que tanto fazia. Mas em troca deu-nos centenas de golos de todo o jeito e feitio, de importância e de sentimento.

Lingard tem a virtuosidade como a sua melhor qualidade. Ronaldo descobriu que mesmo muito habilidoso, a sua melhor era marcar golos e liderar. Messi esconde facilmente a bola entre as suas pernas curtas mas cheias de genica e leva-a até ao fundo das redes. Lingard tem uma estatura que se assemelha mais à do argentino, mas falta-lhe um génio ímpar como o de Messi. Mas nem vale a pena pensar nisso, basta dar tudo e ser o Lingard, não o segundo, terceiro ou quarto Messi. “Be Yourself” é a melhor maneira de conhecermos e dar a conhecer o melhor de nós.

Um jogador tem de promover a sua melhor valência trabalhando-a. Lingard para a trabalhar tem de se assumir como titular e demonstrar que terá a sua vaga no ataque. Fazer com constância o que fez ao Arsenal. Mas entre dois jogadores com índices qualitativos muito iguais, em que um custou 10 e outro 2, com o teu patrão a dar-te na cabeça para arranjares forma de valorizar o predileto, em qual apostavas? Pois… Estão a ver? É que são mesmo estes números que contam… Se estivesse no Twitter e me chamasse Donald Trump, acabaria com um “SAD!”.

 

Foto de Capa: Instagram Oficial de Jesse Lingard