A Liga Inglesa está bastante diferente do que era há dez anos atrás. Aliás, cada década distingue-se sempre de uma outra em pelo menos uma condição… O sucesso no futebol não é uma ciência, é algo cíclico e sem fórmula exata que garanta o que é pretendido: depende de vitórias, só que as últimas não são uma coisa desencadeada, puramente, segundo um plano prévio. Claro que esse plano existe sempre, porém, não é infalível, e também não é o único aspeto a ter em conta.

Futebol é emoção. Antes dela, é um jogo de egos. Um elemento de uma equipa tem sempre um ego. Tem sempre uma perspetiva própria de como as coisas são. E a fidelidade que o ser humano nutre por “si mesmo” está sempre acima do resto.

O prisma da Premier League está muito distinto de quando, por exemplo, jogávamos FIFA ou PES 2008: equipas, que nessa versão do videojogo, apenas lutavam por um lugarzinho na Europa, outras pela manutenção, outras que nem figuravam no topo dos campeonatos ingleses, hoje possuem expetativas mais elevadas…Mas não só.

O Liverpool, equipa histórica e conhecida pela paixão incutida aos jogadores que vestem a camisola vermelha, há muito, mas muito tempo, que não vence a Liga Inglesa. O Leicester foi campeão. O Tottenham era equipa de meia tabela. O Chelsea tinha “acabado” de ser tomado por um russo “cheio dele”. E o United… Bem, era o grande United! Liderada pelo mítico Alex Ferguson, era sempre um claro candidato, quer à Liga, quer à Champions.

Um período tão grande ao comando de uma só equipa desportiva é obra, e algo muito difícil de superar, ou mesmo de acontecer nos dias que correm.

Era comum ver jogadores menos cotados dar tudo por Mourinho… Terá o Special One perdido esse trunfo?
Fonte: Manchester United

Tudo o que Ferguson foi criando, paulatinamente, no colosso britânico, deu origem a uma identidade muito própria, que não pode ser retomada por qualquer pessoa. No que toca a esse ponto, a ideia seria, no meu entender, que o substituto do escocês fosse escolhido pelo mesmo. Com uma vasta experiência ao leme do Everton, foi então David Moyes o eleito. Também ele escocês, sentiu logo muitas dificuldades e muito cedo se falava em ser demitido! Ou seja, após Ferguson passar 27 anos seguidos a treinar o clube, em menos de um ano já se falava em mudança. E depois veio Van Gaal, e a sua posição também nunca foi unanimemente cómoda.

O rumo dos acontecimentos desencadeou um José Mourinho despedido de um clube onde ganhara um título após meio século de secura. Mesmo tentando fugir a comparações, o que Mourinho conseguiu no Chelsea não é, de forma alguma, equiparável ao que Ferguson construíu no United, mas julgo que o reconhecimento de ambos enquanto grandes técnicos é equivalente.

Mourinho sempre foi bom em ser underdog. Aliás, foi em equipas menos cotadas que teve o maior brilhantismo da carreira. Vejamos, no FC Porto, Chelsea e Inter entrou sempre como não favorito (no Porto e Inter, nas competições europeias) e acabou erguendo títulos absolutamente inéditos para os respetivos clubes. Foi aí que o seu talento para motivar foi executado no seu esplendor, mas também se repare numa coisa: orientou jogadores da velha escola, talvez seja essa a sua lacuna hoje: parece não saber lidar com a nova escola. O que funcionou com uns, não funciona com estes. O próprio Paul Scholes, figura incontornável de Old Trafford, admite que adorava o Mourinho “arrogante”.

O José Mourinho que sabia ler os jornalistas, que sabia como contornar as típicas perguntas “incómodas”. Que tinha como aliado o sucesso desportivo da equipa que orientava. Agora sem esse sucesso, torna-se difícil respeitar o seu estatuto. Numa era em que, como disse, qualquer treinador de futebol é alvo de uma avaliação constante por qualquer pessoa. E hoje em dia qualquer um pode ser voz global. Não estou no lado de ninguém, mas as constantes pressões, num cargo em que o escrutínio é alvo a uma escala global (escrutínio esse com epicentro em Inglaterra, obviamente, se bem que o United está entre os três maiores clubes do planeta); as estratégias dos media; a existência de redes sociais e tudo o que isso acarreta, muda completamente o panorama da sua profissão e das relacionadas.

Na segunda passagem pelo Chelsea, foi campeão no segundo ano, mas no terceiro saiu a meio do ano, deixando a equipa no fundo da tabela classificativa, praticamente…

Desconheço o que torna um treinador de futebol bom ou mau. Mas desconfio. Com a sua forma de jogar (não muito apreciada pela generalidade), postura, com a sua estratégia de liderança, quando tem um balneário recheado de gente nova, num clube tão grande, tão vasto, tão simbólico como o Manchester United, os ideais vão escapando, toda a identidade construída ao longo da sua longa viagem pelo clube, vai-se perdendo.

O grande Liverpool, até ao seu último título de campeão inglês, era tido como um candidato assíduo ao dito. Ninguém imaginava passarem por tanto jejum. Da mesma maneira, qualquer pessoa que tenha prestado atenção à primeira década do milénio, nunca imaginaria o United fora do lote de favoritos. O sucesso no futebol é cíclico, é tão difícil dar nova vida a um clube abastado, mas em crise; como em ser um David “com esteróides” e bater todos os “Golias” que apareçam à frente.

Confio muito na ideia de que Mourinho teria sido despedido caso não vencesse o Newcastle, em casa. Está na terceira temporada ao leme do clube, e apesar de ter ganho títulos como Taça ou Liga Europa, como é óbvio, tal não é suficiente para o universo red devil. Contudo, tudo se tornou diferente após aquela reviravolta…Com a paragem para os jogos das Seleções, o cenário da sua continuidade tornou-se aceitável, aqueles três golos foram um completo oásis num deserto tão árido como o do Atacama… Parece ter reconquistado certos jogadores, parece… Não sei. Frente à poderosa Juventus, não conseguiu ser superior em casa ou mesmo tornar o jogo equilibrado, assumindo-o, porém existem dados muito bons numa confessa fase menos boa da sua carreira. Será que Mourinho está a tentar obter o sucesso que almeja no pós Ferguson, fazendo do enorme United um underdog? Apesar de contar com um De Gea brilhante, mas com um eixo defensivo muito aquém? Com apenas um ponta de lança de referência, que é Lukaku, será suficiente? Uma “concorrênciazinha” de peso não seria boa ideia? O que faltará para levantar este Manchester United tão, mas tão sem esplendor?

Foto de Capa: Manchester United

Artigo revisto por: Jorge Neves

 

Comentários