Um perpétuo candidato ao título na Liga Inglesa torna-se num crónico frequentador dos escalões inferiores. É uma história conhecida, que podia ter muitos protagonistas. Mas hoje a atenção vai para o clube que quer adicionar um terceiro ato a esta lenga-lenga: a redenção.

Elland Road, a casa do Leeds United, tem uma vida interessante, foi construído em 1897 e começou por dar lugar ao Leeds City. Este clube viria a tornar-se no Leeds United, em 1919. Já assistiu a meias finais da Liga dos Campeões e jogos de coroação do campeão inglês, mas também já viu partidas da League One (terceira divisão inglesa) a serem disputadas no seu relvado. Desde 2004 que os adeptos do Leeds não veem um a sua equipa num jogo da Premier League. Isto porque, nos últimos 15 anos, os peacocks estiveram sempre no Championship (a segunda divisão inglesa), à exceção dos três anos (2007-2010) em que se encontraram no terceiro escalão.

Elland Road é mais velho que o próprio clube que alberga.
Fonte:Leeds United Football Club (LUFC)

Os nossos leitores mais jovens dificilmente se recordarão do Leeds de 2000, que impunha respeito e medo a qualquer equipa na Europa. Menos ainda serão os que se lembram da última conquista doméstica do emblema do Norte de Inglaterra. Corria o ano de 1992, e a equipa treinada por Howard Wilkinson conquistava aquele que seria o último campeonato Inglês antes de a competição ser renomeada Premier League. Gary Speed, Lee Chapman e um jovem Eric Cantona trouxeram a Elland Road o título de campeão. Uma equipa jovem, entusiasmante e ofensiva. Uma personificação dos valores do futebol inglês.

Em 2000/2001, conhecemos outro Leeds, igualmente fascinante. Rio Ferdinand, Harry Kewell, Robbie Keane, e muitos outros nomes que vieram a ter grande projeção no futebol europeu estavam aqui a dar os primeiros passos das suas carreiras. E esses passos levaram-nos muito, muito perto de conquistar Liga dos Campeões. Deixando para trás clubes como o AC Milan e o FC Barcelona, o Leeds acabou por cair na semi-final do lendário troféu contra o Valencia FC. Mas já enchera o olho de muitos adeptos neutros, que se apaixonaram pela história destes underdogs.

Harry Kewell marcou 45 golos em 181 jogos pelo Leeds United
Fonte: Premier League

Ato II: Vivemos o sonho”

Mas é aqui que a história tem um capítulo mais triste. Três anos depois desta campanha europeia, estavam os portugueses a preparar-se para o Euro 2004. Aliás, a Seleção das Quinas até viria a eliminar o antigo jogador do Leeds, Rio Ferdinand (agora no Manchester United). Mas para os lados de Elland Road estava-se a preparar a primeira de muitas épocas no Championship. Em cerca de 1000 dias, os lilly whites passaram de semifinalistas da Liga dos Campeões a despromovidos. O que se passou? Fraca gestão, pura e simplesmente.

Aquando da eliminação na Champions, a BBC Sport escrevia, no dia 5 de maio de 2001, “Sorte do Leeds acaba em Valência”. Em retrospetiva, este título ganha contornos premonitórios. Isto porque, daqui para a frente, o caminho do Leeds United adquiriu uma rota gradualmente descendente. O seu sucesso no início do século devia-se, em grande parte, à contração de empréstimos que permitiu a chegada de grandes estrelas a Elland Road. Mas os juros tornaram-se insuportáveis: a equipa viu-se obrigada a vender os seus melhores jogadores, o clube ficou à venda e passou de mão em mão, com indivíduos sem cara nem nome a tomarem conta do Leeds, outrora tão grande nas Terras de Sua Majestade e no Velho Continente.

Banidos para as profundezas do futebol inglês, a frase que melhor caracteriza o estado em que o Leeds se encontrava é a que o antigo presidente do Leeds, Peter Ridsdale, disse: “We lived the dream” (“Vivemos o sonho”). Os adeptos não tinham mais nada a que se agarrar que não a nostalgia da glória passada. As terças feira de Champions eram substituídas pelas jornadas a meio da semana do Championship. O futebol outrora ofensivo e vibrante era agora cinzento, descaracterizado. Até a memória do sucesso passado era ao mesmo tempo uma lembrança do que eventualmente causara a queda do clube. O Leeds bateu no fundo em 2007, com a descida à terceira divisão, de onde não sairia até 2010.

O clube viria a ameaçar, nos últimos anos, a chegada aos lugares de promoção direta. Mas a um início de época promissor parecia sempre seguir-se um colapso a meio da temporada e o Leeds continuava, assim, naquele equilíbrio perfeito e indesejado de não ser bom o suficiente para a Premier League nem mau o suficiente para a League One. Uma equipa na corda bamba, sem rumo aparente. Os adeptos, esses, continuavam a entoar cânticos alusivos às suas glórias passadas, aparentemente resignados com a situação do seu clube. A apatia instalava-se em Elland Road, depois de década e meia sem ver uma noite  de futebol inglês de topo.

Para a apatia tipicamente britânica, era necessário uma injeção de garra, de força e até de alguma loucura. E nada melhor para isso que os latinos. Assim, foi-se buscar aquela que é, sem dúvida, uma das figuras mais carismáticas do futebol mundial: Marcelo Bielsa.

Ato III: El Loco

As peripécias de Bielsa justificam facilmente a sua alcunha de “El Loco”
Fonte: LUFC

Quem olhar exclusivamente para o historial de Bielsa não ficará particularmente surpreendido: com passagens pelo Olympique Marseille, pela SS Lazio e pelo Athletic Bilbao, entre outros, Bielsa apenas conquistou títulos quando esteve a cargo de equipas argentinas ou da própria seleção albiceleste (onde, com a ajuda de Lionel Messi, ganhou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2004). É difícil, então, perceber o que é que leva um treinador como Pep Guardiola a dizer que este homem é o “melhor do mundo”. E o que é que levou o Newell’s Old Boys, clube onde deu os primeiros passos como técnico, a dar ao seu estádio o nome “Marcelo Bielsa”?

A verdade é que o fascínio por Bielsa tem origem na sua forma de ser, na sua forma de estar no futebol e na vida, que para ele são a mesma coisa. Acredita no valor do trabalho intenso, doloroso e obsessivo. É um homem que quer preparar minuciosamente cada detalhe do jogo, e nunca leva a sua equipa a campo a não ser que tenha a certeza absoluta de que fez tudo da melhor maneira que podia.

É preciso deixar uma coisa clara: Bielsa não é normal. É talvez o mais distante de normal que podemos encontrar. Ficou famoso em Inglaterra na semana em que a sua equipa ia  defrontar o Derby County, em jogo do Championship, e foi encontrado no campo de treinos adversários um espião do Leeds enviado pelo treinador argentino. Na conferência de imprensa a seguir ao escândalo, Bielsa fez uma apresentação em PowerPoint a detalhar o que aprendera acerca do Derby County, através da análise de 51 (!) jogos. O Leeds viria a vencer o Derby em casa por 2-0. Quando dissemos que o trabalho de Bielsa é obsessivo, estávamos mesmo a falar a sério. É um homem que não gosta de deixar nada ao acaso. Segundo relatos do Mirror, instalou uma cama e cozinha no seu escritório, para poder passar mais tempo a trabalhar.

Nova vida

Apesar de toda esta excentricidade (ou talvez por causa dela), o Leeds United que vemos hoje está transfigurado. Exigindo o máximo dos seus jogadores, Bielsa pôs a equipa a jogar com pressão alta, num futebol intenso que muitos achavam ser impraticável ao longo de uma época com mais de 50 jogos. Mas a verdade é que a sua equipa tem aguentado a carga. Com a vitória desta semana sobre o Milwall (3-2) subiu ao segundo lugar da tabela, que dá acesso direto à Premier League. Isto quando faltam sete partidas para o fim da temporada.

O apoio e a crença à volta da equipa está talvez no nível mais alto da última década, e há razões para tal: com 76 pontos e ainda mais 21 para disputar, o Leeds United está bem encaminhado para bater o seu recorde dos últimos 15 anos no Championship (78). Com mais de 10 jogadores das camadas jovens promovidos à equipa sénior, o sangue novo na equipa tem ajudado a manter o nível exibicional alto e a intensidade constante. Depois de anos nas profundezas de um futebol que outrora dominaram, os adeptos do Leeds podem hoje dizer que é uma boa altura para apoiar o seu clube.

Mar de rosas?

Relativamente ao futuro, nada está certo. Ainda não se sabe as consequências que um fracasso nesta demanda pela promoção poderia ter, nem quanto tempo Bielsa está disposto a passar no norte de Inglaterra. O argentino já provou ser um homem volátil, para quem uma promessa não cumprida ou a falta de apoio da direção é mais que motivo para se ir embora. Em Leeds, é valorizado, e a frase “In Bielsa We Trust” (“em Bielsa confiamos”) já se tornou célebre entre os fãs. Sabem que têm em mãos uma pessoa fora do normal, mas também um treinador como nunca antes vimos, para o melhor e para o pior.

A loucura de Bielsa foi o antídoto perfeito para a apatia de que o Leeds sofria. A uma equipa cinzenta e resignada chegou um homem espalhafatoso, agressivo e obcecado. Parece uma daquelas comédias românticas, mas não é: é a história do Leeds United. Talvez como em “P.S: I Love You”, haverá contratempos e separações. Mas esperemos que o fim da história seja um que nos devolva este histórico clube inglês. Os adeptos locais agradecem, e os neutros também.

P.S: In Bielsa We Trust

Foto de capa: Bola na Rede

Artigo revisto em: Jorge Neves

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