Já não há palavras para elogiar Brendan Rodgers e o Liverpool. Num típico jogo do futebol inglês – com intensidade, emoção e incerteza no resultado até ao fim – os reds venceram em casa o Manchester City por 3-2. Rodgers conseguiu revitalizar o clube, retirando o melhor de cada jogador à sua disposição. Numa primeira parte bastante diferente da segunda, os reds apresentam um futebol fluido, apoiado, com a bola sempre jogada no pé e muitas trocas de posição para dificultar as marcações. O ataque, entregue a Sterling, Sturridge e Suárez, é ágil, fantasista e mortífero como há muito não se via em Anfield. Mas tanto o meio-campo como a defesa se mostraram bastante compactos, não permitindo que o City se apoderasse da bola com facilidade.

O jogo começou praticamente com o golo de Sterling – que, após grande lançamento de Suárez, conseguiu tirar todos os adversários do caminho com duas simulações, numa altura em que já parecia ter perdido tempo e espaço. Os reds conseguiam assim chegar rapidamente ao tão ansiado golo num dos jogos mais importantes do ano, e a verdade é que, ao contrário do City, a equipa entrou tranquila e com uma enorme vontade de ir para cima do adversário. Ao contrário, os forasteiros raramente conseguiram esticar o seu jogo, e o Liverpool controlava as operações sempre em busca de brechas na defesa contrária. A equipa da casa insistiu mais algumas vezes nos passes diagonais em profundidade, e numa dessas ocasiões Sturridge teve nos pés a oportunidade de aumentar a vantagem.

Com um meio-campo bem organizado, ligado ao ataque por Phillipe Coutinho (que nunca deixou de ser rigoroso em termos tácticos) e onde Jordan Henderson continua a corresponder à prova de confiança de Rodgers, foi o capitão Gerrard quem quase chegava ao 2-0, num cabeceamento livre de marcação após um canto. Joe Hart correspondeu com uma boa defesa mas, no novo canto que se seguiu, Martin Skrtel ampliou a vantagem com um remate cruzado de cabeça, aproveitando um centro do capitão. Perante os dois golos e a saída prematura de Yaya Touré, o City tornou-se uma equipa desnorteada e praticamente inofensiva, onde apenas David Silva parecia querer rumar contra a maré. O remate de Fernandinho (boa estirada de Mignolet a defender) e uma bola tirada em cima da linha pela defesa do Liverpool foram as excepções à regra. Dzeko ainda reclamou um penalti, e até podia tê-lo ganho se tivesse sido mais “rato”. Mas a repetição mostra que Sakho não faz falta.

Na segunda parte as coisas foram diferentes. O City tinha de fazer pela vida, e Pellegrini tirou cedo Jesús Navas para colocar James Milner. Após um cruzamento do inglês recém-entrado, Silva ainda conseguiu introduzir a bola na baliza de Mignolet, mas o árbitro anulou (bem) o lance porque a bola já estava fora aquando do centro. No entanto, poucos minutos depois, Milner voltou a assistir e Silva marcou de novo, desta vez a contar. O jogo estava diferente, o City tinha-se conseguido instalar no meio-campo adversário. Numa jogada bem tricotada e com muita sorte à mistura, Silva conseguiu fazer o empate com a ajuda do calcanhar de Glen Johnson. O City marcava dois golos em 5 minutos, e o Liverpool pagava o preço de ter recuado em demasia.

Segurança defensiva, solidez no meio-campo e um ataque mortífero: muito do sucesso do Liverpool deve-se ao trabalho fantástico de Brendan Rodgers Fonte: AFP
Segurança defensiva, solidez no meio-campo e um ataque mortífero: muito do sucesso do Liverpool deve-se ao trabalho fantástico de Brendan Rodgers
Fonte: AFP

Com cerca de meia hora para disputar, o jogo ficou mais vivo e, na resposta, Suárez foi agarrado dentro da área por Kompany. O uruguaio continua a pagar a factura das suas simulações, uma vez que parece ter havido falta mas o árbitro assim não entendeu. Dzeko teve um remate perigoso antes de dar o lugar a Sergio Agüero, na última cartada jogada por Pellegrini. Rodgers, pressentindo uma reviravolta no jogo, tinha trocado Sturridge por Allen minutos antes, numa tentativa de recuperar a supremacia no meio-campo. Mas agora era o City quem dominava. Numa incursão de Agüero pela esquerda, a defensiva da casa foi apanhada em contrapé e por pouco a emenda de Silva não encontrou o alvo certo. Com 15 minutos para jogar, o City mandava no jogo e o Liverpool limitava-se a tentar respirar e sair em contra-ataque. Mas, se o futebol é um desporto apaixonante, a Liga Inglesa é sem dúvida um dos melhores espectáculos de entretenimento que o mundo tem para oferecer. O Liverpool ganhou um lançamento junto à área adversária e, quando nada o fazia prever, Kompany – que nem sequer estava pressionado – fez um corte defeituoso e não conseguiu afastar a bola. Coutinho não hesitou e desferiu um fantástico pontapé rasteiro, de primeira e em arco para o fundo das redes de Hart, inflamando as bancadas de Anfield. Numa altura em que o City começava a justificar a vantagem, era o Liverpool quem a alcançava.

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Os visitantes voltaram à carga e Demichelis quase marcava num canto. A toada mantinha-se, com os reds expectantes e os citizens a carregar. Skrtel mostrava-se seguro no eixo defensivo, dando o mote à equipa para aguentar a pressão nos minutos finais. O ataque do Liverpool já se mostrava algo desgastado, e o treinador fez entrar Moses para o lugar de Coutinho. O nigeriano adiantou a bola em demasia num contra-ataque, Henderson fez o mesmo na sobra e entrou duro sobre um adversário, vendo o vermelho directo. Mas faltava pouco tempo, e o ímpeto do City já parecia estar desvanecer-se. Rodgers tinha guardado as substituições para o fim, conseguindo ganhar mais alguns segundos com a entrada de Lucas aos 94 minutos.

As bancadas pressentiam a vitória iminente e entoavam o arrepiante You’ll Never Walk Alone. A confirmação do triunfo veio logo depois, para emoção de Steven Gerrard. Quase a completar 34 anos, o capitão já conquistou quase tudo, excepto o tão ambicionado campeonato. Da última vez que o Liverpool venceu o título, o emblemático jogador tinha apenas 10 anos. Hoje, na fase terminal da sua carreira, Gerrard talvez já não contasse conquistá-lo, mas o excelente trabalho de Brendan Rodgers obriga-o a repensar esse facto. 24 anos é demasiado tempo para um clube como o Liverpool estar sem ganhar o campeonato. Pelo que a equipa demonstrou hoje, o longo período de seca pode estar perto do fim. E, mais do que ninguém, Gerrard tem consciência disso. Talvez tenha sido por isso que foi tão rápido e incisivo a reunir as tropas assim que soou o apito final. Já ninguém pode ignorar que o Liverpool está de volta, e os adeptos merecem voltar a sentir o sabor da glória. Afinal de contas, ao longo destes 24 anos, eles nunca deixaram o clube caminhar sozinho.