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Liverpool FC: Esta é a tal

Pedro Machado · 3 min

Liverpool FC: Esta é a tal

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Cabeçalho Liga Inglesa

Há algo que a faz sobressair. Não há lógica que explique o facto de termos ficado vidrados num olhar, num gesto, num toque. E não, ela não deslumbra a sala inteira. Porque nem toda a gente entende a magia que ela emana. Só nós. Parece feita à medida daquele momento. E nós aparecemos, também, no momento feito à medida dela. Conhecemo-nos, e sentimos que pode passar um ano, dez ou vinte, e vamos sempre achar piada aos jeitos dela. Aquele colocar de dedo entre o nariz e a boca como quem está prestes a dizer algo que interessante e relevante, o posar do queixo nas duas mãos sustentadas pelos cotovelos, a maneira como prolonga os “sim” quando lhe perguntamos se ela quer fazer algo que lhe agrade.

Sentimos que podemos atingir as bodas de ouro e vamos continuar a achar piada a todos aqueles tiques emocionais dela. A forma como ela devolve um olhar assassino à rapariga que olha para nós no bar (que com o tempo se tornará num jardim) que adoramos frequentar, a maneira como ela se inunda de lágrimas quando temos gestos românticos como atirar uma folha de papel através da janela de casa dela com uma caligrafia horrível a avisar que estamos sem bateria, mas já chegámos e amamos, ou a reacção involuntária, caracterizada por beijinhos no nosso braço quando dizemos exactamente aquilo que ela quer ouvir.

Porque somos feitos à medida do momento em que cruzámos olhares e porque faz todo o sentido estarmos juntos. Partilhamos com ela os ideais que julgamos cruciais e projectamo-nos a educar os nossos filhos sustentados por eles.  Dizemos, portanto, a amigos e família, que estamos refeitos das partidas que o destino nos pregou no passado. Que agora, sim, conseguimos ter uma certeza-  esta é a tal.

Anfield Road está apaixonado por esta equipa. Fonte: Liverpool FC
Anfield Road está apaixonado por esta equipa
Fonte: Liverpool FC

Também inundados por este estado ébrio estarão os adeptos do Liverpool, entusiasmados com a liderança isolada dos reds versão Klopp 2.0 na Premier League (1 ano e meio depois), alcançada depois de uma exibição que lhes regalou os olhos (6-1 ao Watford).

Não foi a primeira e sente-se que não será a última. Afinal, já se jogou sem uma ou duas peças que se julgavam fulcrais no processo ofensivo, e a equipa não perdeu dinâmica. Manteve-se firme no crescimento naquilo a que uns chamam tortura e outros chamam arte – o sufoco do adversário junto à sua baliza.

Há resultados que não o espelham, como o 2-1 ao West Bromwich ou o 1-1 diante do Tottenham, mas esta equipa dominou a arte de saber dominar, suportada pela âncora de Jordan Henderson, que é uma espécie de “pai fixe” que deixa os miúdos brincar sem se preocuparem. Dá azo a que qualquer bola perdida pelos fantasismos dos homens da frente seja prontamente recuperada, não se limitando a vigiar, mas a agir em conformidade também. A auxiliá-lo estão os “miúdos mais velhos”. Aqueles que também brincam, mas com responsabilidade. Wijnaldum e Lallana contribuem sobremaneira para o processo de criação, para a magia do carrossel, mas sem inventar muito, sabendo que só as crianças (Coutinho, Firmino e Mané) têm liberdade para a diversão despreocupada, numa liberdade construtiva que encanta os adeptos dos reds, apaixonados e a sonhar com o que esta equipa pode fazer.

 

Cada gesto, cada toque, cada tique, cada olhar que deitam sobre o relvado, faz com que se sintam preenchidos em tudo aquilo que julgavam necessitar. Não encanta a todas as pessoas na sala, só a eles, que entendem aquela magia, feita à medida daqueles 90 minutos e 106×68 metros de relvado. Vão para casa sorridentes, sonhando com o casamento (título da Premier League, que lhes fugiu entre os dedos em 2014 e não entra em Anfield Road há 26 anos), com pena de só poder voltar a ver a sua amada passado uma semana, e confessam, a amigos e familiares:

– Acho que esta é a tal…

Fonte da foto de capa: FC Liverpool

Pedro Machado

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