Virarmo-nos contra os nossos. Vão passando os anos, mas a tendência mantém-se entre a grande maioria dos portugueses. Inveja, mal-estar ou apenas embirração; certo é que parece ser bom não gostar ou criar ódios de estimação.

Vê-se um pouco por todo o lado e o mundo desportivo não é exceção. Já aconteceu com Figo, Nuno Gomes, Deco e até, pasme-se, Cristiano Ronaldo. Por tantas e tantas vezes, o talento do craque português foi colocado em causa pelos “nossos”.

Teve de ser ele a mudar toda uma linha de pensamento que se começava a uniformizar entre os portugueses. Porque Messi era melhor. Porque o rendimento de Ronaldo não era o mesmo na Seleção Nacional. Porque Ronaldo era arrogante e egoísta e só queria… Chutar à baliza. Por tudo e mais alguma coisa, muitos viraram-se contra ele. Ele… Ele, que é um dos melhores desportistas de sempre.

Ronaldo sofreu o mesmo tratamento de Mourinho
Fonte: UEFA

O mesmo se tenta agora fazer com aquele que é o melhor treinador da história do futebol português. Não há um único treinador que se aproxime. José Mourinho é único e é invejado um pouco por todo o lado: pelos ingleses, porque não têm um técnico minimamente importante no panorama mundial; pelos espanhóis, porque querem que Guardiola não tenha rival à altura; e pelos portugueses… Porque simplesmente correm atrás dos restantes.

Esta onda de desconfiança em relação a Mourinho é idêntica à que já aconteceu com Ronaldo. Sem fundamento, surge num contexto desfavorável e de fragilidade máxima para o treinador português.

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Ao fim de três jogos, em Inglaterra já se pede a demissão de um técnico que, a começar a terceira temporada, já conta com três troféus [um deles europeu (!)] e um segundo lugar na temporada passada. Estamos a falar de um treinador com duas Ligas dos Campeões, uma Liga Europa, uma Taça UEFA, três Premier Leagues (sim, tem mais do que todos os treinadores da Liga Inglesa juntos), duas Serie A, uma Liga Espanhola, duas Ligas Portuguesas… E por aí fora; já todos sabem.

José Mourinho fez história no Chelsea FC
Fonte: Chelsea FC

José Mourinho, tal como Cristiano Ronaldo, sempre arriscou e nunca optou pelo caminho mais fácil.

  • Venceu a Liga dos Campeões com o FC Porto, escolheu um Chelsea que não era campeão há 50 anos (!) e venceu a Premier League (duas vezes consecutivas).

 

  • Seguiu para o Inter, que não vencia a Liga dos Campeões desde 1965, e conseguiu igualar esse feito com outra conquista verdadeiramente heróica.

 

  • Voltou a arriscar e avançou para o Real Madrid. E este não era o Real Madrid de hoje. Uma equipa completamente moribunda, dominadíssima pelo Barcelona e que não ganhava a Liga desde 2007/08. Mourinho teve dificuldades mas venceu um campeonato com 100 pontos ao super-Barcelona de Guardiola e esteve sempre pertíssimo de chegar às finais da Liga dos Campeões (caiu sempre nas meias-finais, algumas delas com polémica…).

 

  • Voltou a Stamford Bridge e voltou a ganhar mais uma Premier League, antes de ter tido, sim, a pior época da carreira (também, diga-se a verdade, depois de se ter incompatibilizado com alguns jogadores).

 

  • Por fim, chegou a um Manchester United adormecido desde Alex Ferguson e conseguiu os tais três troféus e um segundo lugar na Liga Inglesa. Pouco? Talvez. Mas, mesmo assim, melhor do que quase todos os concorrentes e antecessores recentes.

O mais fácil, em certos momentos da carreira, seria avançar para um Bayern, Juventus, PSG ou um super-estável Manchester City. Mourinho nunca quis seguir esse caminho. Preferiu sempre o desafio mais cativante.

Sob o comando de Mourinho, o FC Porto teve duas épocas de sonho e sucesso na Europa
Fonte: FC Porto

Nunca virou a cara à luta, nem parou de treinar para tirar um ou dois anos sabáticos. Hoje, com 55 anos, atravessa um momento delicado. Como Ferguson (quem não se lembra dos 1-6 em Old Trafford frente ao City em 2011?!) ou como Guardiola (há quanto tempo não ganha uma Liga dos Campeões, mesmo?). Crises naturais entre os treinadores de topo.

Não há nenhum que não tenha passado por isto. Numa altura em que se propagam os “Guardiolas de loja dos 300”, valoriza-se tudo o que seja futebol de posse – mesmo que não exista critério algum na troca de bola. Mourinho tem um estilo mais pragmático, mas profundamente eficaz. O palmarés fala por si. O resto é conversa. Que se respeite quem tanto deu e irá continuar a dar pelo futebol português e internacional. Só temos um Mourinho, tal como só temos um Cristiano Ronaldo. Saibamos, por isso, defendê-los como deve ser.

Foto de Capa: Manchester United FC

Artigo revisto por: Jorge Neves