O cunho pessoal empregado por José Mourinho no Chelsea 2013/2014 é facilmente percetível. A cultura da pressão alta (que celebrizou o FC Porto campeão europeu) manteve-se, e a organização tática da equipa quando sem bola era simplesmente irrepreensível, ao ponto dos últimos 20/30 metros da zona defendida pelo Chelsea não serem invadidos, em situações de eminente perigo, com frequência e das linhas de passe do adversário nessa zona serem muitas vezes anuladas pelo rigor táctico dos jogadores orientados pelo Happy One. Reflexos disso mesmo são os encontros que a equipa disputou, relativos à Premier League: com o Manchester United, em Old Trafford (0-0, à 3ª jornada… numa demonstração cabal das capacidades de Mourinho, que numa fase tão prematura da temporada já conseguiu colocar a equipa a defender “ao seu jeito”), com o Arsenal, no Emirates (0-0), com o Manchester City no Ettihad (vitória por 1-0) e com o Liverpool, em Anfield Road (vitória por 2-0).

Superficialmente, saltam à vista pontos comuns gritantes entre estes quatro encontros: todos eles foram disputados em terrenos dos rivais diretos (certo que o Manchester United saiu da luta numa fase bastante permatura, mas ao passar da 3ª jornada ainda era encarado como um dos favoritos a erguer o trófeu da Premier League) ao Chelsea na luta pelo título e em nenhum deles houve registo de golos sofridos pelos blues. Um feito notável, especialmente se atentarmos ao facto de que quer Liverpool e Manchester City passaram a centena de golos no campeonato e estiveram pertíssimo de igualar o recorde de golos numa edição da Premier League (104), e ao qual não deverá estar alheio outro ponto comum entre todos os encontros assinalados: vantagem do adversário na posse de bola (55%/45% nos jogos com Arsenal e United, 65%/35% no encontro com o City e 73%/27% [!] com o Liverpool), situação em que a equipa de Mourinho se sentiu confortável ao longo da época, obtendo um enorme aproveitamento na defesa das suas redes, sagrando-se mesmo a melhor defesa da Premier League…

… mas nem sempre as melhores defesas ganham campeonatos. É preciso existir um bom processo ofensivo a acompanhar a performance (na circunstância, brilhante) defensiva para se conquistar um dos mais competitivos campeonatos do mundo. E no caso do Chelsea os problemas começaram a acontecer logo no início da época, com alguma indefinição (anormal) de José Mourinho na abordagem à violação das redes contrárias.

"A questão do número nove parece-me ser essencial para se compreender a ineficácia dos blues" Fonte: Stephyan/HereisCity.com
“A questão do número nove parece-me ser essencial para se compreender a ineficácia dos blues”
Fonte: Stephyan/HereisCity.com

Neste aspecto, a questão do número nove parece-me ser essencial para se compreender a ineficácia dos blues. Torres, Eto’o e Demba Ba protagonizaram uma autêntica dança das cadeiras à volta da posição nove e pareceu, ao longo da época, que nenhum deles satisfazia totalmente as pretensões de José Mourinho.. algo que também se justifica pelo sub-rendimento evidenciado pelos três, mas ao qual não estará alheio uma possível falta de confiança que pudessem sentir pela constante rotatividade promovida pelo treinador português. A equipa conseguia trazer jogo desde trás, por inciativas levadas a cabo por David Luiz, Matic, Ramires ou Lampard (intercalavam entre si no dois do 4x2x3x1), e conseguia expandir o seu jogo ofensivo para os flancos, mas se se voltasse a explorar a zona central do terreno e lá estivesse um “9” posicional, raras eram as vezes em que a baliza contrária era violada, ficando a equipa “órfã” das iniciativas individuais levadas a cabo por Eden Hazard (que época fantástica!), Salah, Willian ou Schurrle (que, curiosamente, ocupou  a posição “9” de forma mais eficaz que os seus colegas de raíz – exemplo flagrante é o da vitória do Chelsea sobre o Fulham por 3-1, com o alemão a ser a figura do encontro com um hat-trick conseguido em 17 minutos passados a ocupar uma zona mais central do terreno)… que, de resto, nem sempre eram levadas a cabo com eficácia, pois se o belga e o alemão conseguiam ser objetivos, o brasileiro e o egípcio foram muitas vezes inconsequentes nas suas decisões.

Acrescente-se a este desacerto a época menos conseguida do criativo (espécie de 10 moderno) de que a equipa precisava (Óscar) e fica instalado um autêntico caos tático no processo ofensivo dos londrinos que se traduziu numa parca produção de golos conseguidos em ataque organizado, algo que faltou ao Chelsea em jogos importantes como os que teve contra o Sunderland (derrota por 2-1, que dilatou para 5 a distância para o líder Liverpool quando sobravam 12 pontos para disputar) e  contra o Norwich (no qual disse adeus ao título, empatando a zero).

Nestas partidas tinha de assumir o domínio da partida e sufocar o adversário de forma criteriosa, mas este Chelsea 2013/2014 pareceu sentir-se melhor sem a posse de bola do que com ela.

Mourinho não passou de bestial a besta (acho impossível a história julgá-lo assim em qualquer momento da sua carreira até agora), mas comprovou que nem sempre é boa ideia regressar a um lugar onde se foi feliz (conforme escrevi, noutro site que não o Bola na Rede, aquando da confirmação do regresso do Special One). Especialmente onde a cobrança é enorme perante o que se fizera anteriormente (Mourinho “devolvera” a Premier League ao Chelsea 50 anos depois e conquistara tudo a nível interno), onde se sente a ressaca de dois títulos europeus consecutivas e onde o grupo de trabalho precisaria de ser lapidado.

Arriscou e não correu bem. Teve a primeira grande mancha na carreira- uma época sem títulos num clube onde começou e acabou a época. A época onde, focando-nos apenas nos títulos conquistados, foi SpecialNone

… mas às vezes é preciso um passo atrás para se andar adiante. Acredito que, mantendo-se  a estrutura defensiva do Chelsea (incluindo o processo defensivo) e existindo um esforço financeiro para a contratação de um ou dois jogadores de qualidade para a posição nove e uma aposta no (Óscar) ou num n.º10 acompanhada de um processo ofensivo mais criterioso, se possa voltar a fazer-se história em Stamford Bridge… e na carreira de José Mourinho.

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