A única cor que nos separa é a das camisolas

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Estamos em 2019 e o futebol já não é o que era antes. Felizmente para uns, infelizmente para outros, o jogo a que assistimos hoje em nada é comparável ao que assistíamos há 40 anos. A evolução é dinâmica e as mudanças, sejam elas de índole técnico-tática ou de cariz tecnológico, são por demais evidentes. Vários obstáculos foram ultrapassados, foram feitas muitas melhorias, mas há “pormaiores” que parecem ter ficado do tempo dos nossos antepassados. Um deles é a mentalidade de muitos adeptos que lamentavelmente continuam a ir a estádios de futebol, ainda que não mereçam sentir de perto a cultura tão genuína que o desporto rei transborda. Neste caso refiro-me ao racismo que, por mais incrível que pareça, continua a ser uma realidade bem presente na sociedade ocidental.

A questão do racismo tem sido muito debatida no mundo do futebol nos últimos anos. A FIFA (Federação Internacional de Futebol Associação) lançou já varias campanhas que se fazem acompanhar do slogan “No To Racism” mas parece que o efeito produzido não está a ser o esperado, tendo em conta que desde 2015 os casos de racismo no futebol têm aumentado, contrariando aquilo que seria expectável.

O tema parece nunca ficar desatualizado uma vez que todos os anos os adeptos nos brindam com atos desta natureza. Foi o que aconteceu no passado fim de semana em Itália, no jogo entre o Hellas Verona e o Brescia Calcio a contar para a 11ª jornada da Série A, quando os adeptos da casa decidiram insultar Mario Balotelli, jogador da equipa visitante, com cânticos racistas. O jogador sempre foi conhecido pela sua irreverência e pelo seu temperamento que chocava muitos adeptos e prejudicava as equipas por onde passava, acumulando expulsões desnecessárias e castigos evitáveis. Nos dias que correm parece já um jogador diferente, mas, ainda que assim não fosse, nada justifica que lhe sejam dirigidos insultos de natureza tão desumana.

Mario Balotelli no último jogo do campeonato contra o Hellas Verona, em que foi insultado
Fonte: Brescia

A situação não seria tão relevante se este fosse um caso isolado. Mas este comportamento mostra-se reincidente, especialmente em Itália. Não precisamos de recuar muito no tempo para encontrar situações semelhantes vividas no principal campeonato do futebol italiano. Recordo aqui os casos de Romelu Lukaku, de Moise Kean, de Kalidou Koulibaly ou de Dalbert que foram vítimas de atos racistas. Ainda em Itália é de destacar a declaração do Presidente da Lázio, Claudio Lolito, que refere” as pessoas que não eram de cor, que tinham pele normal, branca”.

Para além do país do sul da Europa, também em Inglaterra se registaram ocorrências idênticas. As que mereceram mais destaque foram as de Romelu Lukaku (novamente), Raheem Sterling, Paul Pogba ou Tammy Abraham.

Nunca nenhuma desculpa conseguirá justificar que ainda haja racismo no futebol, mas grandes figuras do mundo do desporto apontam o facto de haver poucos indivíduos de raça negra a ocuparem cargos importantes na sociedade como a principal razão.

No entanto a mentalidade tem de ser mudada, e depressa. Não bastam campanhas publicitárias, não basta espalhar a mensagem. Estes adeptos têm de perceber que não vale tudo. Há coisas mais importantes do que vitória, e o respeito pelos direitos humanos é uma delas. Os clubes têm de tomar medidas, proceder à identificação destes adeptos e expulsá-los dos estádios, não permitindo que lá voltem a entrar.

Seria um pena exagerada? As alterações emocionais que qualquer discriminação potencia podem ser acompanhadas por danos colaterais, sejam no comportamento desportivo, mas sobretudo na vida social, que tenderão a comprometer a mais elementar causa de uma sociedade democrática que é a igualdade. Punam-se aqueles que direta ou indiretamente possam contribuir para este malefício.

O futebol não foi nem nunca será isto. Muito pelo contrário, foi criado como uma ocupação, uma forma de diversão onde se sobrepunham os valores morais e o bem-estar de todos. O desporto tem de estar cheio de momentos memoráveis como aquele a que assistimos na passada quarta-feira no Estádio D.Afonso Henriques, em Guimarães, onde os suplentes do Arsenal brincaram com um menino português que iria fazer de apanha bolas.

O ódio já é cultivado em muitas outras partes do mundo e não precisa de encontrar no futebol e no desporto uma forma de se expandir. Julgar alguém pela cor da pele nunca fez qualquer tipo de sentido e numa sociedade tão avançada como aquela em que vivemos faz ainda menos. Posto isto, os meus votos são para que tal cenário não volte a ser visto, e que se consiga trazer para o futebol aquilo que ele realmente precisa: alegria, união e respeito.

Foto de Capa: FC Internazionale Milano

artigo revisto por: Ana Ferreira

Guilherme Vilabril Rodrigues
Guilherme Vilabril Rodrigueshttp://www.bolanarede.pt
O Guilherme estuda Jornalismo na Escola Superior de Comunicação de Comunicação Social e é um apaixonado pelo futebol. Praticante desde os três anos, desde cedo que foi rodeado por bola e por treinadores de bancada. Quer ser jornalista desportivo, e viu no Bola na Rede uma excelente oportunidade para começar a dar os primeiros toques.

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