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Atalanta BC: O racionar da posse segundo Gasperini

Pedro Machado · 3 min

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Cabeçalho Liga Italiana

Há uma cidade da Lombardia, em Itália, chamada Bergamo (Bergamaschi em italiano), da qual resplandece alegria pelo que a principal equipa de futebol vai conseguindo fazer num dos campeonatos mais competitivos do mundo, depois de épocas consecutivas marcadas pela sofreguidão exigida na luta pela manutenção na Serie A.

Este ano o rumo parece ser diferente, a avaliar pelo desempenho do clube. A Atalanta ocupa o 5º lugar do principal campeonato italiano, com vantagem sobre o Milan, Lazio e Fiorentina e é, neste momento, o conjunto em melhor forma da competição a seguir à pentacampeã Juventus, somando seis jogos consecutivos sem perder, nos quais conquistou cinco triunfos, o último dos quais no San Paolo, diante do Nápoles (0-2).

Na base destes resultados há um conceito muito simples que parte de um técnico que assume o purismo do futebol italiano (só podia) na estratégia de cada jogo – a racionalização da posse de bola. Cada segundo de posse tem de ser potenciado e maximizado rumo ao objectivo comum, o golo.

Recepção eufórica dos adeptos após a vitória em Nápoles (0-2) Fonte: Atalanta BC
Recepção eufórica dos adeptos após a vitória em Nápoles (0-2)
Fonte: Atalanta BC

Isto traduz-se, portanto, num futebol mais directo e objectivo, em que a perda da bola é algo expectável, mas, também nesse momento, a equipa também tem ferramentas para contrariá-la, revelando um entrosamento posicional que não nasceu da noite para o dia, e teve as suas dores de crescimento (quatro derrotas nos cinco primeiros jogos da Serie A) até atingir o nível de excelência actual, perto do exigido pelo “purista” Gian Pero Gasperini.

Neste contexto táctico, quando em posse, a saída de bola assume importância fundamental, e é algo que tem de ser trabalhado desde trás. A linha defensiva (a três, pois claro) está, pois, bem talhada para sair a jogar, preferencialmente em profundidade. Tolói e Masiello são, muitas vezes, pontos de origem ofensiva, explorando costas da defesa, através das alas ou de uma zona central adiantada que tem muito bem presente a noção de receção orientada e de “segunda bola”.

É a partir daqui que parte muita da criação ofensiva do Atalanta, com Gomez a assumir a batuta que o número 10 lhe exige de forma a explorar o espaço deixado por Petagna (referência ofensiva que normalmente descai para uma das elas) para a entrada de Kurtic, médio ofensivo/segundo avançado esloveno com boa estampa física, que lhe permite ganhar muito jogo àereo, e um faro para golo bastante apurado, a que não será alheia a sua noção do processo ofensivo e que lhe permite posicionar-se de forma privilegiada. Para criar, assistir ou marcar. Ele é, no fundo, o principal alvo da construção ofensiva, ainda que seja Petagna, no papel, o ponta-de-lança.

Esta verticalidade dá à equipa pouco tempo de jogo em posse mas, por norma, fá-lo com eficácia. E é aí que reside o principal trunfo desta Atalanta. Racionalização da posse de bola que, porém, não pode ficar dissociada do correspondente amparo táctico que o meio-campo e as alas lhe conferem.

 

Gomez tem assumido papel importante na boa campanha da Atalanta Fonte: CalcioMercato
Gomez tem assumido papel importante na boa campanha da Atalanta
Fonte: CalcioMercato

Conti e Spinazzola são dois laterais com plena noção tática, compensando a dificuldade em envolver-se no processo ofensivo com uma disponibilidade organizacional incrível para jogadores de ala, lendo com mestria todos os momentos do jogo, especialmente o senegalês. No centro, uma autêntica sociedade de recuperação de bolas, com Kessié e Freuler em grande plano.

O primeiro, costa-marfinense de 20 anos, é mesmo uma das revelações do momento da Serie A pela disponibilidade física que empresta à equipa; o segundo, suíço de 24, é certinho como um relógio do seu país, cortando linhas de passe ao adversário.

Os dois são a essência deste Atalanta a jogar sem bola e um sem o outro não fazem sentido. Freuler potencia a agressividade de Kessié e potencia as poucas bolas que passam, e Kessié “poupa” muito trabalho físico ao seu companheiro de sector.

O 3x4x2x1 compacto (que pode assumir a forma do 3x4x1x2 quando Gomez apoia Petagna de forma mais declarada) do qual parte esta Atalanta veio com algum “pó” desde os anos 80, e encravou um bocadinho no início, mas, agora, depois de lapidado, vai fazendo ver ao mundo futebolístico o quão recompensadoras podem ser a persistência e a crença (não só da parte do treinador, como também da direcção) num modelo de jogo.

Foto de capa: IlGiorno.it

Pedro Machado

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