Futebol profissional e dinheiro são indissociáveis. Normalmente, vemos o segundo garantir maior dimensão, a todos os níveis, ao primeiro. Mas não só. Também determina status. E status determina poder. Investimentos, desinvestimentos, não falando propriamente disso, mas a forma como um clube é gerido. Não é obra do acaso que clubes de elite não tenham atingido esse patamar unicamente devido a dinheiro externo, mas de uma história recheada de sucessos desportivos. Um dos casos mais concretos para ilustrar esta “divagação” são Manchester United e Manchester City.

O Parma, não sendo um clube de elite, tem uma bela história. Na década de 90 fez furor na Europa. Vestiu vários ícones, autênticas bandeiras de uma geração única. Buffon, Cannavaro, Crespo, Thuram, Verón, Zola, os nossos Fernando Couto e Sérgio Conceição,… Atingiu a glória. Mas há um fator que me salta mais à vista. Característica muito própria dos transalpinos é o sentimento fortíssimo que nutrem pelo desporto rei. O sentimento indescrítivel que os une ao seu clube. Os habitantes desta cidade são apaixonadíssimos.

Em 2015, algo previsto já a algum tempo, viram o seu Parma ser entregue à Série D italiana. Falência financeira ditou, não só o regresso do clube ao escalão mais raso, mas pior: retirou os empregos a muita gente. O futebol não é apenas composto pelos seus intérpretes, mesmo que a posição dos últimos perante o exercício do primeiro seja, meritoriamente e indiscutivelmente, intocável.

Porém, valeria a pena jogar por jogar? Jogar em estádios vazios? Audiências iguais às do andebol? Sendo a favor de que a maior importância terá sempre de ser atribuída aos jogadores, há mais gente envolvida, gente que pela sua paixão e interesse pelos jogadores, clubes, seleções, competições, eleve a competitividade, a dimensão do ato de praticar futebol. Tal tem de ser sempre tido em conta. É tido em conta, mas para efeitos de “extorsão”. O marketing pode ser lixado.

O apoio dos adeptos fez-se sentir, em igual forma, nas divisões inferiores. Não há dinheiro chinês que pague isso
Fonte: Parma FC
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Voltando ao Parma, ao tomar conhecimento de algumas histórias que esta descida drástica acarretou, tenho de falar de Lucarelli. Para quem não sabe, trata-se do capitão da equipa. Com 37 anos recebeu a notícia que iria descer para o 4.º escalão. Prometeu que o Parma voltaria ao primeiro. E cumpriu. Nunca pensou é que fosse tão rápido… E que ainda estivesse no ativo!

É o primeiro jogador a ter jogado desde a Serie D à Serie A. Em 2017 foi anunciado investimento chinês, da parte de Jiang Li Zhang, que detém o Granada, clube espanhol. Não foi tudo, mas foi um dos motes que lhe permitiu, hoje, com 40 anos, estar a ponderar jogar mais uma época, mesmo depois de cumprir a sua promessa de ajudar o clube a voltar ao topo do patamar italiano.

Lucarelli foi perentório. Disse que no último jogo sentiu verdadeiramente o empurrão dos seus adeptos! A equipa dependia de uma partida disputada por outrém e tinha de vencer o seu para ficar à espera da escorregadela… Era Frosinone contra Foggia. Lembro-me de um colega me ter dito que ia apostar num deles para o Placard. Estava longe de saber o significado desse jogo para muitas pessoas.

Um significado que para mim não existia. Nesse jogo, o Parma ansiava que o Frosinone não ganhasse. Vencia por 2-1, até que aos 87’ o adversário sela o desfecho final. 2-2 foi o resultado final, e o histórico Parma regressou à Serie A italiana. Em 2.º lugar, em igualdade pontual com esse tal Frosinone. O significado que uns dão a certas coisas, não só no futebol, nunca pode ser julgado por antecipação. E, portanto, eu julgo que o futebol aplaude o regresso de uns adeptos como os do Parma aos maiores palcos do país da bota!

Foto de Capa: Parma FC

Artigo revisto por: Jorge Neves

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