Na década de 90, havia duas grandes séries: uma lançada nos E.U.A, em 1989, por Matt Groening; a outra criada em Itália, pela federação de futebol daquele país, em 1929. Estamos a falar da série televisiva The Simpsons e da principal competição futebolística italiana, a Serie A. O que têm estes dois gigantes dos 90’s em comum? Mais do que se possa pensar.

As semelhanças começam precisamente nos seus anos de ouro. Enquanto a família amarela encantava as audiências de todo o mundo com o seu comentário incisivo e satírico, os espectadores italianos deliciavam-se ao verem alguns dos melhores jogadores do mundo a disputar o Scudetto. Homer, Marge, Bart e Lisa Simpson espalhavam risos na caixa televisiva e Maradona, Roberto Baggio, Batistuta e Van Basten salpicavam magia dentro das quatro linhas. A década continou e novas personagens foram entrando nos respetivos elencos: Moe, Lenny, Ned Flanders; Ronaldo, Rui Costa, Lothar Matthaus. O sucesso manteve-se. Olhando para a Serie A, o catalista destes tempos dourados foi, em grande parte, o Mundial de 1990, realizado precisamente em Itália. Ainda que a península mediterrânea já tivesse, na década anterior, contado com grande estrelas do futebol mundial nos seus relvados – Diego Maradona (SSC Napoli) e Michel Platini (Juventus FC), por exemplo -, este torneio marcou a sua apresentação como o centro do futebol mundial aos olhos de todos os adeptos do desporto rei.

Embora ambas as séries tenham desfrutado destas épocas áureas na última década do século XX, a futebolística ficou conhecida como a era Le Sete Sorelle – As Sete Irmãs. Este nome deve-se ao facto de, nesta altura, sete equipas estarem regularmente envolvidas na luta pelo título. Por um lado, tínhamos as habituais, como Juventus, Internazionale, AC Milan e AS Roma, mas também SS Lazio, Fiorentina e até o Parma Calcio. Sim, a equipa que se dissolveu em 2015 devido a problemas financeiros, para se passar a chamar Parma Calcio 1913 e descer ao quarto escalão nacional. A equipa que este ano acaba de ser promovida à primeira divisão. E, porque a cor característica desta equipa até é o amarelo, tal como a da conhecida família de Springfield, aproveitamos para olhar um pouco para o clube da cidade de Santo Hilário.

Fonte: UEFA

Esta é uma das fotografias mais memoráveis da história do Parma. Por um lado, vemos o troféu que está a ser levantado: a taça UEFA. Por outro, vemos alguns dos jogadores que a estão a erguer. Mesmo atrás da taça, vemos Gianluigi Buffon, um pouco mais à direita encontramos Lilian Thuram e, no canto inferior direito, Hernan Crespo. Nem todas as estrelas são visíveis aqui, mas esta formação contava ainda com Juan Sebastián Verón e Fabio Cannavaro, por exemplo. Estamos a falar de jogadores que, além de levantarem este troféu em 1999, tiveram carreiras adornadas com os maiores galhardetes do futebol. Thuram conquistara o Mundial em 1998, pela França, enquanto Buffon e Cannavaro o fariam em 2006, pela Itália. Crespo ganharia a Liga Inglesa com o Chelsea de Mourinho em 2006 e seria tricampeão italiano entre 2007 e 2009, pelo Internazionale. A lista continua e só torna esta imagem mais mágica e depressivamente nostálgica. No fundo, a forma como o Parma caiu desde 1999 espelha a forma como o próprio futebol italiano caiu.

Dérbi de Milão de 1999: George Weah (Bola de Ouro em 95) fala com Ronaldo (Bola de Ouro em 96, 97 e 2002)
Fonte: FIFA

Mas já lá chegamos. Afinal, como andavam os Simpsons em 1999? Continuavam no topo. Já iam na sua décima temporada consecutiva de domínio das audiências. É na viragem do século que os destinos destas duas séries se começam a desviar. A opinião geral da maioria dos fãs e críticos é a de que, a partir da 12ª temporada, o programa criado por Matt Groening começou a descer consistentemente de qualidade. Quer isto dizer que, desde 2001, a série tem estado numa descida gradual até aos dias de hoje. Na Serie A isto não ocorreu: aliás, entre 2000 e 2007, três das sete finais da Liga dos Campeões contaram com a presença de equipas italianas. Na época de 2002/2003, AC Milan e Juventus disputaram, no estádio de Old Trafford (Inglaterra), o maior troféu do futebol europeu, com os bianconero a saírem vitoriosos.

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Em 2006, houve ainda o Mundial de futebol, realizado na Alemanha. E os vencedores foram, como anteriormente referido, os italianos. Com um onze inicial composto exclusivamente por jogadores a atuar na Serie A, os azzuri bateram os franceses na final, após grandes penalidades. Cannavaro levantou o troféu e, no topo deste, estava o futebol italiano. Os Simpsons haviam cedido e o seu sucesso regredira, mas a Serie A ainda dominava o mundo. A rainha do desporto rei não podia ser destronada. A isto seguir-se-ia ainda outra conquista da Liga dos Campeões pelo AC Milan.

Cannavaro, e o futebol italiano, no topo do mundo
Fonte: FIFA

Mas, quando o comboio mediterrâneo não parecia abrandar, eis que descarrilou com estrondo. Numa palavra: Calciopoli. Um escândalo com demasiados pormenores para ser corretamente explorado num artigo que já vai longo. Um escândalo que, verdade seja dita, merece a sua própria investigação do “Bola Na Rede”. Para quem ainda não conhece, tendo envolvido a compra de árbitros, a combinação de resultados e a participação de uma série de dirigentes, este caso denegriu, talvez para sempre, a imagem da glamorosa e espetacular da Serie A. Implicou (entre outros) quatro das “Sete Irmãs” – Lazio, Milan, Fiorentina e Juventus. Esta última acabou mesmo por ser despromovida para o segundo escalão do futebol italiano, a Serie B. Estrelas como Zlatan Ibrahimovic, Patrick Vieira e Fabio Cannavaro abandonaram as suas fileiras. Mesmo para os que ficaram na divisão principal, o cenário não era o mais agradável. Desde deduções de pontos a expulsão de competições europeias, a reputação do futebol italiano foi arrastada pela lama. A competitividade dos seus clubes ficou comprometida. A qualidade dos jogos foi cortada pelo caule.

De repente, as duas séries voltavam a encontrar-se. Outrora juntas no topo, eram agora uma sombra do que já haviam sido. Em ambos os casos, isto não implicou uma regressão total. Tal como os Simpsons, a espaços, ainda proporcionavam excelentes episódios, também os clubes italianos faziam uma ou outra gracinha no futebol europeu – como o Inter de José Mourinho, em 2010. Mas os fãs ou adeptos que estiveram presentes nos distantes anos de ouro dizem a mesma coisa: falta magia. O perfume dos anos 90 dissipou-se e o brilhantismo tão presente nessa década deu lugar à taciturnidade presente. Episódios como “Cape Feare” (temporada 5, episódio 2) deixaram de ser a norma e passaram a ser a exceção; parelhas como Batistuta e Totti (Roma) ou Inzaghi e Shevchenko (Milan) deixaram de ser comuns. Agora, um jogador da qualidade de Ciro Immobile (Lazio), por exemplo, é um motivo de admiração, um caso excecional.

Chegamos, assim, a 2018, e à situação precária destas duas séries. Em Itália, a Juventus FC conseguiu reerguer-se das cinzas, mas ninguém a acompanhou. Assim sendo, aproveitou para conquistar os sete (!) últimos Scudettos, vencendo todos desde 2012. Homogeneizou o futebol italiano, concentrando em si a esmagadora maioria dos talentos que passam pela Península.

E agora, quase como que ciente deste paralelismo, os próprios clubes da Serie A parecem ter adotado as mesmas técnicas que a FOX adotou para recuperar a relevância que teve entre 1990 e 2000. Ora, desde há uns anos para cá, os Simpsons têm colocado a tarefa de atrair audiências nos ombros de celebridades que, sendo convidadas a aparecer num episódio, se tornam no foco central do mesmo. No fundo, contratam nomes conhecidos numa tentativa de reavivar o interesse do público. Não é preciso pensar muito para perceber que a Serie A acaba de fazer o mesmo com a compra de Cristiano Ronaldo, pela Juventus.

Fonte: Juventus FC

Esta tática provou-se muito pouco frutífera para os lados de Springfield. Terá mais sucesso em Turim e arredores? Há que ter em conta que, representando a “Velha Senhora”, Cristiano apenas irá contribuir para a acentuação de um domínio que já se mostra longo. Mesmo com o Napoli a aproximar-se, em termos de qualidade de jogo, dos bianconero, e com o Inter a realizar um investimento equiparado ao dos heptacampeões, pouco faz crer na possibilidade de, em 2018/2019, vermos este absolutismo preto e branco quebrado. Mesmo que a equipa de Massimiliano Allegri, inspirada por “CR7”, consiga ir longe na Liga dos Campeões, não passará de uma daquelas gracinhas de que já falámos. Um bocado de argamassa que não cobre todas as rachas que se mostram no futebol italiano, expostas desde o Calciopoli.

Enquanto muitos fãs pedem o cancelamento definitivo dos Simpsons, os adeptos da Serie A podem dormir descansados, pois a sua liga nacional não se vai embora. Mas, tendo-se encontrado no mesmo cruzamento que a série de Matt Groening e, aparentemente, escolhido o mesmo caminho, resta saber se irá em direção ao mesmo precipício.

 

Foto de Capa: Guilherme Coelho

Artigo revisto por: Jorge Neves