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Totti, novo Deus da mitologia romana

Rúben Tavares · 4 min

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Cabeçalho Liga Italiana

 

“É impossível resumir 28 anos em algumas frases”

Foram as primeiras palavras da arrebatadora que Francesco Totti leu, ontem, em pleno Stadio Olimpico de Roma, após ter dado a volta ao estádio acenando aos adeptos por entre lágrimas e suspiros mútuos, após ter entrado aos 54 minutos de uma partida em que a Roma recebeu e venceu, por 3-2, o Génova e garantiu acesso direto à Liga dos Campeões. Mas alguém se lembra disso?

Que melhor imagem encontrar do que esta? A lenda romana, acompanhada pela mulher Ilary e os três filhos, Isabel, Chanel, Cristian, a percorrer todo o estádio, olhando para os adeptos ‘giallorossi’ como que para os 25 anos anteriores, com muito amor. Afinal de contas, estava entre duas famílias, a verdadeira, digamos assim, e a do futebol, aquela que construiu com a bola nos pés.

Verdade seja dita, são 28 anos na Roma, desde os sub-14, desde 1989, mas 25 anos assinalam o seu vínculo profissional ao clube fundado em 1927.

O momento da noite de ontem em que Francesco Totti leu uma emocionante carta de despedida a todos os adeptos ‘giallorossi' Fonte: DailyMail
O momento da noite de ontem em que Francesco Totti leu uma emocionante carta de despedida a todos os adeptos ‘giallorossi’
Fonte: DailyMail

A 28 de março estreava-se na Serie A italiana, num Brescia-Roma. Ontem, também 28, mas de maio, e de 2017…chegou o dia que ele não queria que chegasse, nem os amantes do futebol.

Confesso que (e eu que gosto de me afirmar como uma pessoa pouco sentimentalista) me arrepiei a ver tudo. E se não chorei, a verdade é que as lágrimas tiveram vontade de se expressar.

Jogou 619 vezes na Serie A, tantas quanto Gianluigi Buffon e só Paolo Maldini ultrapassa a marca (647). Golos foram, ao todo, na Roma, 307, tendo arrecadado o prémio de melhor marcador em 2006/07 e esses 26 golos que faturou na Série ‘A’ valeram-lhe igualmente a Bota de Ouro nessa época. Individualmente, registe-se igualmente o prémio Golden Foot em 2010 e ter feito parte da Equipa do Euro 2000. Na seleção, 58 foram as internacionalizações que realizou, 9 golos, mais 16 tentos em 41 jogos nas seleções jovens.

Coletivamente, o médio-ofensivo/avançado italiano venceu o Campeonato da Europa de Sub-21 pela seleção transalpina, em 1996, frente à Espanha, numa final, em Barcelona, onde Francesco, inclusive, marcou. O outro título internacional de seleções foi o Campeonato do Mundo em 2006, na Alemanha, uma final que, curiosamente, teve resultado semelhante ao desta última, 1-1 no tempo regulamentar e vitória italiana nas grandes penalidades.

Totti foi campeão do mundo de seleções, em 2006, na Alemanha Fonte: Goal.com
Totti foi campeão do mundo de seleções, em 2006, na Alemanha
Fonte: Goal.com

Quanto ao seu trajeto em termos de palmarés na Associazione Sportiva Roma, o seu ‘unico grande amore’, salda-se em duas Taças de Itália, consecutivas, em 2006/07, diante do Inter, numa altura em que a final se disputava a duas mãos, e em 2007/08, já com apenas um jogo e diante o mesmo adversário (2-1); duas Supertaças, em 2001, frente à Fiorentina (3-0), e em 2007, mais uma vez contra o Inter (1-0).

Escolho falar do ‘ouro’ que falta mencionar no percurso futebolístico de Totti para dar o destaque devido ao feito. O ‘scudetto’ de uma temível formação romana treinada por Fabio Capello e que, na 34ª jornada da Serie A 2000/01, recebia o Parma sabendo que, vencendo, conquistaria o terceiro ‘scudetto’ da sua história. Um trio atacante que constituía assunções absolutamente diabólicas para os seus adversários: Totti-Montella-Batistuta. “No dia 17 de junho de 2001, só queríamos que passasse mais rápido. Não aguentávamos esperar mais pelo apito final”, lembrou ontem o lendário 10 na sua epístola de amor aos romanos.

Capa da ‘La Gazzeta dello Sport’ após a conquista do ‘scudetto’ por parte da AS Roma, em 2000/01. A tripla “Totti-Montella-Batigol” era destacada Fonte: Gazetta dello Sport
Capa da ‘La Gazzeta dello Sport’ após a conquista do ‘scudetto’ por parte da AS Roma, em 2000/01. A tripla “Totti-Montella-Batigol” era destacada
Fonte: Gazetta dello Sport

A ti, caro amante do futebol, porque não recordar o 11 inicial da Roma nesta vitória histórica na última jornada do campeonato em 2001? Homenagear essa equipa é também homenagear Totti. Aqui vamos nós. Guarda-redes: Antonioli; Defesas: Cafu-Zebina-Samuel-Antônio Carlos-Candela; Meio-campo: Emerson-Tommasi; Ataque: Totti-Montella-Batistuta.

Mas tudo o que interessa neste momento é falar de Totti. Ele que, ao todo, fez 844 jogos e 316 golos na carreira-

Caro leitor, intermediar o palmarés do italiano-lenda no texto foi escolha minha porque não considero o elemento de maior importância.

Assédio e interesse alheios nunca faltaram ao jogador, mas ele permaneceu fiel ao clube da Cidade Eterna, uma carreira inteira, de alma e coração. Os títulos, quer individuais ou coletivos, não impressionam tanto como os de outras estrelas atuais ou do passado do futebol.

Se o futebol é uma forma de falar da vida, o craque mostra-nos que é possível amar para sempre e, quando chega a hora do fim, como o próprio confessou ontem, tem-se “medo”, mas, e como há forças que superam o medo, a carta acabou com um: “amo-vos”.

Ainda bem, Francesco Totti, que nunca saíste da Roma. Não serias jamais o mesmo. É assim mesmo que vais e queremos recordar-te.

Nós, que amamos o futebol, também não podemos deixar de te amar, Francesco Totti. Os fins são subliminares (re)inícios. Abandonaste o relvado do Olimpico. Ascendeste ao consílio dos deuses do futebol. Ontem, foste o último a tocar na bola.

Totti, o novo deus da mitologia romana.

Foto de Capa: Facebook Oficial de Totti

Rúben Tavares

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