Uma madrugada que dá que falar… e pensar! – Drible de Letra #8

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As madrugadas são palcos de histórias que desafiam a crença no impossível e nos convidam a refletir sobre o poder da resiliência e da determinação.

Tenho enorme facilidade em apaixonar-me e defender acerrimamente pessoas e acontecimentos de superação. Podem não ser sempre os melhores, os mais rápidos ou os mais afortunados, mas os que chegam ao topo, partindo muito mais de baixo do que os outros, são sempre os meus eleitos.

É por isso que o meu piloto preferido de fórmula 1 é o Lewis Hamilton. Gosto muito de vê-lo em pista a acelerar e desafiar todos os limites, mas, confesso, gosto ainda mais da história sobre como se tornou o melhor de todos os tempos. A linha da grelha de partida da vida de Lewis foi traçada muito mais atrás do que a dos restantes pilotos que hoje completam o grid. Enquanto todos os outros são filhos de antigos pilotos, donos de equipas, grandes empresários, que, na grande maioria, contam milhões como se fossem pedras da calçada, Hamilton conheceu outra realidade.

O seu pai teve de ter três empregos e hipotecar a casa para conseguir pagar um kart e custos de deslocação e inscrições nas corridas, sendo que, no intervalo desses três trabalhos, ainda tinha outro: de madrugada, afinar o carro do filho. Sobravam-lhe cerca de duas horas para dormir. Lewis é hoje o melhor piloto de sempre. Como não gostar?

Drible de Letra
Fonte: Mercedes AMG-F1

Tenho, também, especial admiração por José Mourinho. Não foi um grande jogador, como Guardiola, Klopp, Ancelotti ou outros, que, por isso, apenas tiveram de trocar de lugar no banco de suplentes. Mourinho trilhou um caminho distinto, pavimentado por estudos universitários e um meticuloso estágio ao lado dos melhores do Mundo.

Rapidamente chegou a um clube grande, o Benfica, mas, com uma velocidade ainda mais estonteante, de lá foi escorraçado. Não hesitou em dar um passo atrás ao assumir o comando da União de Leiria. Durou meia época, porque, quando de lá saiu, o clube – atualmente no segundo escalão do futebol nacional – ocupava o terceiro posto da Primeira Liga, à frente, sim, do Benfica, que o tinha despedido meses antes. O responsável por esta curta passagem por Leira foi o FC Porto, que mostrou mais visão do que o rival encarnado.

Com o treinador setubalense, os dragões cobriram-se de glória, conquistaram tudo a nível nacional e internacional, incluindo a tão almejada Liga dos Campeões — um feito que, suspeito, muito dificilmente um outro clube português repetirá nos próximos 100 anos. A partir daqui é história. A história de um dos treinadores mais titulados de sempre, que venceu todas as competições europeias e todos os títulos de todos os países por onde passou. Pode não se gostar do estilo, até de certas opções, mas é inegável a magnificência da sua carreira. Como não admirar um trajeto tão repleto de conquistas e resiliência?

José Mourinho AS Roma
Fonte: AS Roma

A história de Ronaldo também não é menos conhecida ou apaixonante. Começou a jogar descalço, nas ruas da Madeira, onde passava os dias até à hora do jantar, antes de se sentar à mesa para dividir uma dose de comida por toda a família. Disse-lhes, à família e aos amiguinhos do futebol de rua, que ia ser o melhor futebolista do Mundo. Tem cinco bolas de ouro. Podem existir preferências por outros jogadores ou estilos, mas a história de Ronaldo é daquelas que cativa até mesmo os mais indiferentes ao futebol.

Cristiano Ronaldo a celebrar golo Arábia Saudita Drible de Letra
Fonte: Al Nassr FC

É este espírito de superação e realização de sonhos que me fascina na admiração por alguém. Primeiro, porque comprova algo em que acredito desde muito novo: não se consegue nada sem muito trabalho e muita dedicação. Depois, porque são uma verdadeira inspiração.

Foi por isso que, esta semana, numa deslocação de trabalho ao Porto, me mantive acordado madrugada dentro, a escutar as memórias do Senhor Pinheiro, proprietário de um restaurante, amigo do meu amigo Rui Guimarães, e exemplo de empreendedorismo e generosidade. A sua vida, de humildes inícios, com oito irmãos, a um dos empresários mais prósperos da cidade, é uma verdadeira aula motivacional.  

Ainda jovem, aos 17 anos, já se destacava entre os demais no restaurante onde trabalhava, assumindo responsabilidades, que iam muito além da sua idade: lavar chãos, trinchar bois, tirar finos, cozinhar arroz. O seu esforço e dedicação não passaram despercebidos, e foi promovido a gerente, superando colegas mais antigos e experientes. Este foi apenas o começo de uma caminhada, a trabalhar de sol a sol, que o levou a construir um verdadeiro império na cidade: dono de restaurantes, bares, hotéis, uma farmácia e, pelo menos, um talho. É, provavelmente, das pessoas mais ricas do Porto. E, naquela noite, ali estava, atrás do balcão, a ajudar os empregados, mesmo com uma reunião agendada para manhã cedo no dia seguinte. 

A sua generosidade estende-se para além do negócio: o Senhor Pinheiro assiste aqueles que lutam contra as adversidades financeiras, oferece medicamentos a quem recebe pensões de 250€, acode famílias necessitadas – como o fez, uma vez, através de um anúncio na internet, a dois pais que tinham dois filhos tetraplégicos -, ajuda os colaboradores a pagarem as contas pessoais por não terem mecanismos de combate à malfadada inflação. Uma ajuda, que segundo o próprio – e bem! – deveria caber ao Estado.

Também por isso, no fim da conversa, já com o relógio aos gritos a chamar pela cama, mas ainda fascinado com a história deste grande Homem, perguntei, por curiosidade, em quem iria votar nas próximas eleições Legislativas. A resposta foi surpreendente. Ou talvez não: vai votar no Chega.

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