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Treinadores portugueses treinam pelo mundo inteiro. Onde treinam os brasileiros?

Marta Rebelo · 8 min

Treinadores Portugueses Brasil
Foto: SE Palmeiras

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Estavam um português, um alemão e um brasileiro, na esplanada do Banana Café, em Lisboa, a discutir futebol. Às tantas, para enorme pouca surpresa dos outros dois, o brasileiro exclama, com o fervor típico das grandes mentes: “Quem não sabe, estuda!”

Aqui termina (ou começa?) a anedota que me deu vontade de escrever este artigo.

Foi há uma semana que me embrenhei na desafiante tarefa de escrever sobre a final da Libertadores e admito, sem pudor, que depressa percebi o porquê de nunca ter sentido qualquer tipo de chamamento divino por parte do futebol brasileiro.

No dia seguinte, após uma noite muito mal dormida, graças a um “mas afinal, que raio foi aquilo?!”, que não me largava, fui como que por milagre surpreendida pelo tweet que me faltava para terminar de montar o puzzle na minha cabeça.

Posto isto, desafiei-me a examinar o que me parece ser a realidade do futebol e dos treinadores que provêm do país irmão. E para isso, posso começar por responder à pergunta:

Onde treinam os técnicos brasileiros? Não treinam, meus amigos. Não treinam, porque o país ficou colado à glória do passado e em momento algum quis, ou achou necessário, acompanhar a evolução do desporto-rei.

Venham daí que a viagem hoje é mais longa, mas não menos animada.

Aparentemente, a conhecida frase, “Os ingleses podem até ter inventado o futebol, mas nós, brasileiros, aperfeiçoamo-lo”, fez até bastante sentido há umas boas décadas atrás. O futebol brasileiro dos anos 1960 era olhado com muitos e bons olhos, e recordemos que três de cinco Copas do Mundo foram alcançadas em 1958, 1962 e 1970. Tempos áureos do outro lado do Atlântico.

Nos anos 90, o interesse na Premier League já começava a ser tentador, sim, mas o mundo viveu ainda, e muito intensamente, a conquista de mais um Mundial, desta feita por parte da turma de Dunga e Romário.

A juntar à festa, o São Paulo ganharia a Taça Intercontinental por dois anos consecutivos, em 1992 e 1993, e a euforia do futebol canarinho continuaria a atrair as atenções e os investimentos estrangeiros.

Aquilo que os investidores consideraram ser uma excelente oportunidade para profissionalizar e potencializar a modalidade no Brasil, tornando-a mais lucrativa, acabou por se revelar um autêntico fracasso: o dinheiro “sumiu” e os clubes continuaram como estavam até então, com dívidas, mal geridos, e pouca coisa que se assemelhasse a organização. Sai um prato de corrupção para a mesa seis, por favor!

Posto isto, que a máquina do tempo está quase a ficar sem bateria, damos por nós em 2002, ilustre ano em que todos nós vibrámos com a magia dos que descaradamente tatuaram os seus nomes nas nossas memórias (e com linha bem grossa). Assim, há praticamente 20 anos, o Brasil sagrou-se campeão do mundo pela última vez.

Para o bem ou para o mal, esta vitória, juntamente com a crescente reputação do jogador brasileiro no estrangeiro, viria a abrir portas para que também os técnicos canarinhos pudessem tentar a sua sorte na Europa.

Não se pode dizer que nomes como os de Abel Braga, Muricy Ramalho, Carlos Alberto Parreira, Zico, Leonardo Araújo, Sebastião Lazaroni e Paulo Autuori tenham caído no esquecimento, e menos o de Vanderlei Luxemburgo, que se tornou bastante popular por “ferver em pouca água” e ficar “furibundo” no balneário de Figo e companhia. Porém, sejamos pragmáticos: a maior parte destes treinadores aqueceu pouco os bancos europeus (obrigada, “Felipão”!).

Pergunto-vos: e hoje em dia, quantos são?

Fora dois ou três pela Ásia, e Antônio Carlos Zago, que já passou, por exemplo, por Itália, Japão e Ucrânia (onde conquistou títulos), não estou a ver mais nenhum, e menos ainda a ser bem sucedido.

Antes de entrarmos oficialmente (e finalmente!) nas ilações, permitam-me só que remate outra pérola.

Esqueceu-se com certeza da piada que rapidamente virou clássica no Brasil, a das “três derrotas e você está fora”. A dança dos bancos é tão popular por lá que surgiu a necessidade de criar uma regra para restringir as trocas de técnicos.

Portanto, vai-se a ver e os técnicos brasileiros qualquer dia já nem no próprio país treinam. E o treinador estrangeiro não é causa, mas sim consequência da falta de boas opções, caro senhor Luxemburgo.

Onde é que eu quero chegar com isto tudo? Infelizmente, ao facto de que a grande maioria dos treinadores brasileiros trabalham à imagem do seu país.

No Brasil, tudo é política. O futebol não poderia fugir à regra e acaba por ser simplesmente, e totalmente, controlada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Como opera a CBF? Trocado por miúdos, e a olho bem nu, parece-me por demais evidente: a nível caseiro, a prática de futebol é um “bico de obra” de todo tamanho. Os clubes querem resultados imediatos, mas a quantidade infernal de jogos mal dá tempo para descansar, quanto mais para treinar. Com um calendário tão apertado, e com tantos jogadores de qualidade a sair a meio da época, durante o mercado de verão europeu, dificilmente algum técnico tem tempo para implementar seja o que for na sua equipa.

Depois, e comparando ao futebol europeu, a CBF claramente não considera que um dos maiores países do mundo esteja atrasado a nível de conteúdos e planeamento, não tendo, portanto, qualquer interesse em alinhar os seus cursos com os da UEFA.

A formação de treinadores há de ser algo parecido às “Novas Oportunidades” de José Sócrates, uma descarada tentativa de “mandar areia para os olhos” das pessoas, impossibilitando assim a criação de condições mais favoráveis para que surjam propostas fora do país.

Mas também, formação para quê, se venceram a Copa do Mundo por cinco vezes? O que é que eles podem aprender com os outros?

O Brasil é o país do improviso, do “vamos dar um jeito”, do “mais tática é negligenciar o talento dos jogadores”. Será que não conhecem a expressão, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”?

O Brasil é o país que está mais preocupado com a economia do imediato, com a criação de jogadores criativos que vão render milhões. Interessa-lhes mais o “rendimento” do individual do que a força do coletivo. Para o bem dessa economia, esperemos que a qualidade dos jogadores brasileiros não comece também a entrar em crise…

O Brasil continua a ser um país demasiado fechado para o mundo e o panorama não melhorou, de todo, com Bolsonaro. Assim, é normal que haja pouca influência externa. E, no que toca a emigrar, ou o brasileiro não tem qualquer interesse em sair do seu país, ou vê-se diante de grandes dificuldades de adaptação à outra cultura quando o faz. Exemplo disso é a dificuldade em aprender outras línguas. Tudo bem que nem todos podem ser poliglotas como o Jesus, mas…

Infelizmente, o futebol brasileiro perdeu o barco e ficou abraçado com demasiada força a um conservadorismo que teima em ficar em terra. Sem acompanhar a evolução do mundo, ninguém consegue ser competitivo. Num planeta tão habitado, o “cabeça-dura molengão” não tem qualquer hipótese de brilhar, independentemente da quantidade de talento que possa ter.

Tudo isto não deveria sequer ser uma questão de comparação, um ficar “puto” porque a “galinha do vizinho é melhor do que a minha”. Não interessa se o futebol europeu é melhor, ou não. Interessa sim ser-se humilde o suficiente para reconhecer que existe uma tremenda necessidade de adaptação a uma nova realidade. Para quê focar em tentar ser melhor do que o outro, se o que importa é acordar para sermos melhores do que aquilo que fomos ontem? Que se veja, por exemplo, o que fizeram a França nos anos 1970 e a Alemanha após o Mundial de 2000.

Não sou de intrigas, mas, se pudesse enviar uma mensagem aos técnicos e responsáveis brasileiros, diria que, provavelmente, está na hora de começar a estudar um bocadinho, antes que a montanha de matéria em atraso fique da altura do Corcovado.

E no que toca aos “Messias” portugueses, diria que foram lá mais para ajudar do que outra coisa. Só os mais distraídos não escutam o que o professor Abel tem andado a declamar. Algo como, “vem viajar comigo, “zuquinha”, e deixa lá a beira do rio”. “Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas (Enlacemos as mãos)”.

Como nota final, gostaria apenas de sublinhar o que me deixou verdadeiramente incomodada com a afirmação de Renato Gaúcho (que, entretanto, deixou de ser técnico do CR Flamengo).

Sem aprofundar muito o assunto, confesso apenas que acredito com muita força que alguma coisa o ser humano tem aprendido por cá. Que tristezas como o colonialismo do passado evoluíram para a globalização alegre do presente e do futuro.

A facilidade com que podemos agora aprender, experienciar, evoluir, é provavelmente a maior dádiva que fabricámos para nós próprios. Por isso, e porque tenho a certeza absoluta que a melhor forma de aprender é escutando as histórias dos outros, custa-me sempre quando vejo que nem todos estão a dar prioridade ao que realmente importa.

“As pessoas, em verdade, são papagaios umas das outras, nem há outro modo de aprendizagem”.

Obrigada, Pessoa.

 

Artigo revisto por Gonçalo Tristão Santos

Marta Rebelo

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