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Estavam um português, um alemão e um brasileiro, na esplanada do Banana Café, em Lisboa, a discutir futebol. Às tantas, para enorme pouca surpresa dos outros dois, o brasileiro exclama, com o fervor típico das grandes mentes: “Quem não sabe, estuda!”
Aqui termina (ou começa?) a anedota que me deu vontade de escrever este artigo.
Foi há uma semana que me embrenhei na desafiante tarefa de escrever sobre a final da Libertadores e admito, sem pudor, que depressa percebi o porquê de nunca ter sentido qualquer tipo de chamamento divino por parte do futebol brasileiro.
No dia seguinte, após uma noite muito mal dormida, graças a um “mas afinal, que raio foi aquilo?!”, que não me largava, fui como que por milagre surpreendida pelo tweet que me faltava para terminar de montar o puzzle na minha cabeça.
Só uma reflexão. pic.twitter.com/4PllofQPfE
— Ryan Sales 🅨 (@ryansales014) November 27, 2021
Posto isto, desafiei-me a examinar o que me parece ser a realidade do futebol e dos treinadores que provêm do país irmão. E para isso, posso começar por responder à pergunta:
Onde treinam os técnicos brasileiros? Não treinam, meus amigos. Não treinam, porque o país ficou colado à glória do passado e em momento algum quis, ou achou necessário, acompanhar a evolução do desporto-rei.
Venham daí que a viagem hoje é mais longa, mas não menos animada.
Aparentemente, a conhecida frase, “Os ingleses podem até ter inventado o futebol, mas nós, brasileiros, aperfeiçoamo-lo”, fez até bastante sentido há umas boas décadas atrás. O futebol brasileiro dos anos 1960 era olhado com muitos e bons olhos, e recordemos que três de cinco Copas do Mundo foram alcançadas em 1958, 1962 e 1970. Tempos áureos do outro lado do Atlântico.
Nos anos 90, o interesse na Premier League já começava a ser tentador, sim, mas o mundo viveu ainda, e muito intensamente, a conquista de mais um Mundial, desta feita por parte da turma de Dunga e Romário.
A juntar à festa, o São Paulo ganharia a Taça Intercontinental por dois anos consecutivos, em 1992 e 1993, e a euforia do futebol canarinho continuaria a atrair as atenções e os investimentos estrangeiros.
Aquilo que os investidores consideraram ser uma excelente oportunidade para profissionalizar e potencializar a modalidade no Brasil, tornando-a mais lucrativa, acabou por se revelar um autêntico fracasso: o dinheiro “sumiu” e os clubes continuaram como estavam até então, com dívidas, mal geridos, e pouca coisa que se assemelhasse a organização. Sai um prato de corrupção para a mesa seis, por favor!
SAO PAULO F.C – 1993 Intercontinental Cup Winner (vs Milan AC) pic.twitter.com/h6Af8ZCxXG
— Old School Panini (@OldSchoolPanini) May 18, 2018
Posto isto, que a máquina do tempo está quase a ficar sem bateria, damos por nós em 2002, ilustre ano em que todos nós vibrámos com a magia dos que descaradamente tatuaram os seus nomes nas nossas memórias (e com linha bem grossa). Assim, há praticamente 20 anos, o Brasil sagrou-se campeão do mundo pela última vez.
Para o bem ou para o mal, esta vitória, juntamente com a crescente reputação do jogador brasileiro no estrangeiro, viria a abrir portas para que também os técnicos canarinhos pudessem tentar a sua sorte na Europa.
Não se pode dizer que nomes como os de Abel Braga, Muricy Ramalho, Carlos Alberto Parreira, Zico, Leonardo Araújo, Sebastião Lazaroni e Paulo Autuori tenham caído no esquecimento, e menos o de Vanderlei Luxemburgo, que se tornou bastante popular por “ferver em pouca água” e ficar “furibundo” no balneário de Figo e companhia. Porém, sejamos pragmáticos: a maior parte destes treinadores aqueceu pouco os bancos europeus (obrigada, “Felipão”!).
Pergunto-vos: e hoje em dia, quantos são?
Fora dois ou três pela Ásia, e Antônio Carlos Zago, que já passou, por exemplo, por Itália, Japão e Ucrânia (onde conquistou títulos), não estou a ver mais nenhum, e menos ainda a ser bem sucedido.
Antes de entrarmos oficialmente (e finalmente!) nas ilações, permitam-me só que remate outra pérola.
“Temos que mudar porque o Jesus veio aqui e ganhou uma Libertadores?!”
Se liga no que o Luxemburgo falou sobre o futebol brasileiro após o título do Palmeiras no Paulistão!
Crédito: TV Palmeiras pic.twitter.com/41upg10Afw
— TNT Sports Brasil (@TNTSportsBR) August 8, 2020
Esqueceu-se com certeza da piada que rapidamente virou clássica no Brasil, a das “três derrotas e você está fora”. A dança dos bancos é tão popular por lá que surgiu a necessidade de criar uma regra para restringir as trocas de técnicos.
Portanto, vai-se a ver e os técnicos brasileiros qualquer dia já nem no próprio país treinam. E o treinador estrangeiro não é causa, mas sim consequência da falta de boas opções, caro senhor Luxemburgo.
Onde é que eu quero chegar com isto tudo? Infelizmente, ao facto de que a grande maioria dos treinadores brasileiros trabalham à imagem do seu país.
No Brasil, tudo é política. O futebol não poderia fugir à regra e acaba por ser simplesmente, e totalmente, controlada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Como opera a CBF? Trocado por miúdos, e a olho bem nu, parece-me por demais evidente: a nível caseiro, a prática de futebol é um “bico de obra” de todo tamanho. Os clubes querem resultados imediatos, mas a quantidade infernal de jogos mal dá tempo para descansar, quanto mais para treinar. Com um calendário tão apertado, e com tantos jogadores de qualidade a sair a meio da época, durante o mercado de verão europeu, dificilmente algum técnico tem tempo para implementar seja o que for na sua equipa.
Depois, e comparando ao futebol europeu, a CBF claramente não considera que um dos maiores países do mundo esteja atrasado a nível de conteúdos e planeamento, não tendo, portanto, qualquer interesse em alinhar os seus cursos com os da UEFA.
A formação de treinadores há de ser algo parecido às “Novas Oportunidades” de José Sócrates, uma descarada tentativa de “mandar areia para os olhos” das pessoas, impossibilitando assim a criação de condições mais favoráveis para que surjam propostas fora do país.
Mas também, formação para quê, se venceram a Copa do Mundo por cinco vezes? O que é que eles podem aprender com os outros?
Esse é o nível dos treinadores brasileiros, estão tomando um passeio tático. https://t.co/vQ9ZdsobQA
— Rodrigo 🤫 (@Rodrigotimao9) November 28, 2021
O Brasil é o país do improviso, do “vamos dar um jeito”, do “mais tática é negligenciar o talento dos jogadores”. Será que não conhecem a expressão, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”?
O Brasil é o país que está mais preocupado com a economia do imediato, com a criação de jogadores criativos que vão render milhões. Interessa-lhes mais o “rendimento” do individual do que a força do coletivo. Para o bem dessa economia, esperemos que a qualidade dos jogadores brasileiros não comece também a entrar em crise…
O Brasil continua a ser um país demasiado fechado para o mundo e o panorama não melhorou, de todo, com Bolsonaro. Assim, é normal que haja pouca influência externa. E, no que toca a emigrar, ou o brasileiro não tem qualquer interesse em sair do seu país, ou vê-se diante de grandes dificuldades de adaptação à outra cultura quando o faz. Exemplo disso é a dificuldade em aprender outras línguas. Tudo bem que nem todos podem ser poliglotas como o Jesus, mas…
Infelizmente, o futebol brasileiro perdeu o barco e ficou abraçado com demasiada força a um conservadorismo que teima em ficar em terra. Sem acompanhar a evolução do mundo, ninguém consegue ser competitivo. Num planeta tão habitado, o “cabeça-dura molengão” não tem qualquer hipótese de brilhar, independentemente da quantidade de talento que possa ter.
Tudo isto não deveria sequer ser uma questão de comparação, um ficar “puto” porque a “galinha do vizinho é melhor do que a minha”. Não interessa se o futebol europeu é melhor, ou não. Interessa sim ser-se humilde o suficiente para reconhecer que existe uma tremenda necessidade de adaptação a uma nova realidade. Para quê focar em tentar ser melhor do que o outro, se o que importa é acordar para sermos melhores do que aquilo que fomos ontem? Que se veja, por exemplo, o que fizeram a França nos anos 1970 e a Alemanha após o Mundial de 2000.
Não sou de intrigas, mas, se pudesse enviar uma mensagem aos técnicos e responsáveis brasileiros, diria que, provavelmente, está na hora de começar a estudar um bocadinho, antes que a montanha de matéria em atraso fique da altura do Corcovado.
E no que toca aos “Messias” portugueses, diria que foram lá mais para ajudar do que outra coisa. Só os mais distraídos não escutam o que o professor Abel tem andado a declamar. Algo como, “vem viajar comigo, “zuquinha”, e deixa lá a beira do rio”. “Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas (Enlacemos as mãos)”.
Três treinadores estrangeiros no topo do Brasileirão.
Ao invés de eleger culpados ou reduzir a “brasileiro não presta”, que tal olhar pelo viés da educação?
Como estão os cursos de treinadores no Brasil? O que seu clube faz pela formação? Cobramos como deveria?
Pense nisto.
— Leonardo Miranda (@leoffmiranda) October 25, 2020
Como nota final, gostaria apenas de sublinhar o que me deixou verdadeiramente incomodada com a afirmação de Renato Gaúcho (que, entretanto, deixou de ser técnico do CR Flamengo).
Sem aprofundar muito o assunto, confesso apenas que acredito com muita força que alguma coisa o ser humano tem aprendido por cá. Que tristezas como o colonialismo do passado evoluíram para a globalização alegre do presente e do futuro.
A facilidade com que podemos agora aprender, experienciar, evoluir, é provavelmente a maior dádiva que fabricámos para nós próprios. Por isso, e porque tenho a certeza absoluta que a melhor forma de aprender é escutando as histórias dos outros, custa-me sempre quando vejo que nem todos estão a dar prioridade ao que realmente importa.
“As pessoas, em verdade, são papagaios umas das outras, nem há outro modo de aprendizagem”.
Obrigada, Pessoa.
Artigo revisto por Gonçalo Tristão Santos










