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“A Roménia não é um país fácil de se gostar, uma mistura desconcertante entre o apelativo e o aterrador.” – Jonathan Wilson (Behind the Curtain)

De Gheorghe até Ianis, escreve-se muito da história do futebol romeno. O nome Hagi é algo incontornável no mundo do futebol, quer estejamos a falar de Gica Hagi, o eterno número 10 romeno que foi, não poucas vezes, comparado a Diego Armando Maradona, quer estejamos a falar do seu filho Ianis, de apenas 16 anos, que apesar de estar vinculado profissionalmente à Fiorentina de Paulo Sousa, continua ao serviço da equipa que o viu nascer para o futebol, o Viitorul Constanta. À semelhança do seu pai, Ianis tem também perfil de estrela e, cerca de duas semanas antes de completar 17 anos, já enverga com orgulho a braçadeira de capitão da sua equipa, que curiosamente, tem o velho “Maradona dos Cárpatos” como treinador.

Foi com Gheorghe Hagi em cena que se escreveram alguns dos capítulos mais gloriosos do futebol romeno no final da década de 1980. O Rei (Regele) como ainda hoje é conhecido no seu país ainda não fazia parte da grandiosa equipa do FC Steaua Bucuresti (liderada por László Bölöni, Marius Lacatus e pelo gigante Helmuth Duckadam, que venceu a Taça dos Clubes Campeões Europeus na temporada de 1985-86 frente ao poderoso FC Barcelona), mas foi já ele a comandar a sua equipa três anos mais tarde, na época 1988-89, até à final da mais importante competição de clubes do velho continente, sendo contudo esmagados pelo AC Milan de Arrigo Sacchi por uns contundentes 4-0.

László Bölöni, Marius Lacatus e também Gica Hagi estarão intrinsecamente ligados a outro episódio marcante do futebol romeno, mas desta vez fora das quatro linhas. Após a revolução Romena de 1989, que marcou o fim do tirânico reino de Nicolae Ceausescu, os três internacionais romenos “salvaram” Valentin, o filho mais novo do ditador Ceausescu, da morte certa, já depois dos seus pais terem sido executados. Marius Lacatus escondeu Valentin no seu apartamento em Bucareste durante esse período de elevada agitação social e, mais tarde, em conjunto com o antigo treinador do Sporting CP, László Bölöni, veio publicamente em sua defesa, permitindo que o filho do velho tirano continuasse com a vida modesta que, alegadamente e ao contrário da sua família, levava durante os dias negros do comunismo romeno.

Gheorghe e Ianis - Duas gerações do clã Hagi no futebol romeno.
Gheorghe e Ianis – Duas gerações do clã Hagi no futebol romeno
Fonte: DigiSport

Em 1983, o ministro da defesa romeno, preocupado com o facto de o FC Steaua Bucuresti estar a ser relegado para segundo plano pelos vizinhos do Dinamo e pela ascenção do Universitatea Craiova, entregou os destinos da equipa a Valentin, nomeando-o presidente e esperando eventualmente alguns “favores” políticos e / ou desportivos do clã Ceausescu. Ao contrário do que seria expectável, Valentin, um verdadeiro amante do desporto rei, liderou o histórico emblema romeno com mestria, tornando-o não só na primeira equipa totalmente profissional do extinto Bloco de Leste, através de um valioso acordo de patrocínio com a Ford, mas também conduzindo-o a inesquecíveis feitos históricos no plano desportivo até 1989, sendo anos mais tarde considerado por László Bölöni como o melhor gestor com quem alguma vez trabalhou.

Apesar dos sucessos conseguidos pelos seus clubes, o futebol romeno não teve grande expressão durante a ditadura comunista se apenas considerarmos a sua selecção nacional. De forma coincidente (ou não), a revolução de 1989 trouxe para a ribalta aquela que foi talvez a melhor geração de sempre do futebol romeno. A década de 1990 mostrou ao mundo uma selecção revitalizada, recheada de excelentes jogadores como Gica Hagi, Dorinel Munteanu, Gheorghe Popescu, Ilie Dumitrescu, Adrian Ilie, Viorel Moldovan, Florin Raducioiu e Ioan Sabau, entre outros, que representaram o seu país ao mais alto nível em diferentes Mundiais de Futebol e Campeonatos Europeus, dos quais se destacam as presenças nos Quartos-de-final em 1994, nos EUA, e no Euro 2000 que teve lugar na Bélgica e na Holanda.

Valentin Ceausescu, ao meio, com Anghel Iordanescu e Emerich Jenei num treino do FC Steaua Bucuresti em 1986 Fonte: Puterea
Valentin Ceausescu, ao meio, com Anghel Iordanescu e Emerich Jenei num treino do FC Steaua Bucuresti em 1986
Fonte: Puterea

A realidade actual do futebol romeno é, no entanto, bem diferente, quer no plano internacional, quer a nível doméstico. O grau de letargia que se instalou no futebol do país de há 15 anos a esta parte deixou a Roménia orfã de uma selecção de nível elevado como aquela que teve, por exemplo, na década de 1990. A falta de ideias sobre como mudar os desígnios da selecção nacional levaram, em 2011, a Federação Romena a nomear pela terceira vez Victor Piturca como timoneiro do projecto futebolístico do país. Após falhar a presença no Mundial do Brasil, Piturca manteve-se no leme da equipa e conseguiu um auspicioso começo na campanha rumo ao Euro 2016, mas a sua terceira epopeia ao comando da enferrujada armada romena tinha os dias contados. Quando ninguém o fazia prever, Piturca abandonou a selecção romena, alegadamente por desentendimentos hierárquicos e / ou, porque não, interferências políticas, algo muito recorrente quotidiano romeno.

A falta de soluções aparentemente credíveis fez com que, em boa hora, a Federação Romena, escolhesse em 2014 o experiente Anghel Iordanescu para o comando da selecção nacional, cargo que também já havia ocupado duas vezes durante a sua longa carreira como treinador principal. Iordanescu talvez não fosse um nome consensual, mas provou ser a melhor solução que poderia ser encontrada para pôr cobro à anarquia que se vivia (e talvez ainda se viva) no futebol daquele país. Iordanescu tinha sido o responsável por levar a Roménia aos Quartos-de-final do Mundial de Futebol dos EUA em 1994 e também havia sido ele, na posição de treinador de adjunto do lendário Emerich Jenei, que havia levado o FC Steaua Bucuresti a levantar a Taça dos Campeões Europeus há cerca de 30 anos atrás.

Anghel Iordanescu levado em braços após a vitória da selecção romena sobre a Argentina no Mundial de 1994 Fonte: Sportnews.libertatea
Anghel Iordanescu levado em braços após a vitória da selecção romena sobre a Argentina no Mundial de 1994
Fonte: Sportnews.libertatea

Aos 65 anos de idade, Iordanescu viu-se recentemente envolvido numa polémica relacionada com a sua reforma, que alegadamente recebeu um faustoso aumento à conta de uma suposta promoção meritória a general de três estrelas, concedida pelos responsáveis militares do país. Polémicas à parte, Iordanescu, um treinador da velha escola do futebol do leste da Europa, reconfigurou a selecção romena e conseguiu com todo o mérito o apuramento para o Europeu de futebol do próximo ano. A confirmação foi apenas conseguida no último jogo da prova, que teve lugar nas Ilhas Faroé e que a Roménia venceu por 3-0.

A Roménia de Iordanescu terminou a fase de apuramento no segundo lugar do Grupo F, com um ponto menos do que a surpreendente Irlanda do Norte e com mais quatro do que os seus vizinhos húngaros, que garantiram assim um lugar no playoff final. Ficar em segundo lugar atrás de uma Irlanda do Norte, que por muito surpreendente que seja não deixa de ser uma formação de segunda linha do futebol europeu, pode parecer um feito modesto, mas se analisarmos os números finais, podemos constatar que esta Roménia do velho general alcançou alguns feitos. Cinco vitórias, cinco empates e zero derrotas, onze golos marcados e apenas dois sofridos são os números de uma equipa que é quase exímia na arte de defender e que, a reboque de uma ligeira variação do 4-4-2 clássico, vai cumprindo a sua tarefa no último terço do terreno.

Os heróis romenos que garantiram o apuramento para o Euro 2016 no passado Domingo nas Ilhas Faroe Fonte: sportnews.libertatea.ro
Os heróis romenos que garantiram o apuramento para o Euro 2016 no passado Domingo nas Ilhas Faroe
Fonte: sportnews.libertatea.ro

Os jogadores que compõem a selecção romena de Anghel Iordanescu são na, sua maioria, bastante experientes, alguns deles já com mais de 34 Primaveras, como são os casos do Razvan Rat e Lucian Sanmartean, mas todos eles, com excepção do capitão Rat, de Alexandru Maxim e de Florin Andone, actuam fora das grandes ligas europeias. Ainda assim, Iordanescu foi capaz de criar uma equipa bastante competitiva, que chegará ao Euro 2016 com todo o mérito e à qual é dada uma oportunidade de ouro de abrir uma nova página na história do futebol romeno.

Trinta anos parece muito tempo, mas na Roménia, embora não ande para trás, os episódios temporais parecem repetir-se eternamente, com os mesmos intervenientes que povoam o futebol daquela nação do leste da Europa há mais de três décadas, imergindo-nos, assim, numa estranha sensação de que o relógio do tempo, por momentos, parou.

Foto de Capa: Sportnews.libertatea.ro

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