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Num passado não muito distante, o futebol turco era encarado com algum cepticismo pelos analistas. A liga turca mostrava um Galatasaray a viver das glórias do passado e Fenerbahçe e Besiktas cingiam-se a modelos de jogo assentes em processos simples. Os três grandes da Turquia começavam a perder o comboio da evolução tática que tem ocorrido ao longo da última década. Graças a algumas personalidades conscientes desta evolução e com sabedoria adquirida no estrangeiro – aqui refiro-me especificamente a Fatih Terim -, o panorama mudou.

Uma excelente campanha no Euro 2008 da seleção da Turquia teve o condão de ressuscitar um futebol estagnado no tempo. A anarquia que passava das bancadas para o campo esbarrou na vontade de progredir. Surgiram novas equipas com aspirações elevadas, como o Trabzonspor. Jogadores de nome sonante e maior qualidade começaram a olhar para a possibilidade de jogar na Turquia com outros olhos (além do incentivo financeiro que muitos dos clubes proporcionam).

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O Galatasaray tem-se destacado dos demais a nível interno e, de há uns anos a esta parte, voltou a marcar presença regular na Liga dos Campeões; o Fenerbahçe, se não tivermos em conta os problemas judiciais, é, por norma, a maior ameaça ao campeão; o Besiktas tem feito coisas interessantes na Liga Europa; e, no meio dos históricos, surge o Bursaspor. Campeão em 2009/10, diria que é um caso específico no seio da atual cultura futebolística turca.

Fatih Terim impulsionou o renascimento do futebol turco Fonte: Facebook de Fatih Terim
Fatih Terim impulsionou o renascimento do futebol turco
Fonte: Facebook de Fatih Terim

Tenho acompanhado o percurso dos “crocodilos” (como são chamados) desde o início da época. E depois de ver o jogo que perderam frente ao Galatasaray, a contar para a final da Taça da Turquia, pude tirar algumas ilações sobre o seu sistema e maneira de jogar. O Bursaspor tem jogadores claramente talhados para o sistema em que joga (4-2-3-1), mas ainda não se conseguiu desligar do impulso vertiginoso de atacar com sofreguidão, caraterístico da tal anarquia tática que referi acima.

Na defesa, os laterais (Ozbayrakli à direita e Behich à esquerda) conferem apoio constante aos extremos. O eixo tem sido alvo de mudanças constantes ao longo da época: Serdar Aziz é o elemento mais regular (apesar de não ter jogado a final), e começou por emparelhar com o argentino Renato Civelli. Na fase final da época, o alemão Samil Cinaz, médio-defensivo de raiz de estilo durão, “roubou” o lugar ao sul-americano.

No miolo, milita o trio responsável pela rotação do jogo do Bursaspor. O miúdo Ozan Tufan (muito potencial, 20 anos e internacional A pela Turquia) é o médio mais posicional, tendo como principal função colocar um travão nas investidas adversárias. Esta sua tarefa adquire especial importância nos jogos contra equipas menos ambiciosas, já que o Bursaspor tende a subir a linha defensiva para muito perto dos médios. Por vezes, é algo que prejudica o seu jogo, porque acabamos por ver Tufan correr atrás do adversário, como aconteceu repetidamente frente ao Galatasaray. A acompanhar o jovem turco, surge aquele que, para mim, é o jogador-chave de todo o modelo de jogo: Belluschi. O argentino sofreu uma metamorfose notável desde os tempos do FC Porto. Outrora médio puramente ofensivo, joga agora bem mais recuado e consegue definir na perfeição o seu posicionamento nos momentos de transição, quer defensiva, quer ofensiva.

Prova disso foi o instante em que surgiu na área do Galatasaray a servir Volkan Sen, de calcanhar, para o segundo golo do Bursaspor. No entanto, nunca descurou as tarefas defensivas, tendo-se destacado a nível da recuperação de bola nas saídas ofensivas do Galatasaray. O terceiro elemento do tridente de meio-campo é Josué. O ex-FC Porto surge no papel como ‘10’, mas no desenrolar da partida vai-se transformando num vagabundo, e tanto se posiciona imediatamente à frente do duplo-pivot, como surge na ala ou nas costas do avançado. A verdade é que esta liberdade dada pelo treinador Senol Günes (que, ao que parece, está a caminho do Besiktas) ao português permitiu-lhe destilar o seu melhor futebol. Atualmente, Josué é um dos ídolos da massa adepta do Bursaspor.

Belluschi é a "peça chave" do sistema do Bursaspor Fonte: Facebook do Bursaspor
Belluschi é a “peça chave” do sistema do Bursaspor
Fonte: Facebook do Bursaspor

Por fim, o ataque vive da capacidade de retenção de bola do “tanque” Fernandão. O brasileiro mede 1,92 m e pesa mais de 85 quilos, mas está longe de ser um mero “pinheiro” goleador. O melhor marcador da liga turca aproveita bem o físico que tem para ganhar bolas nas alturas, cabecear, mas sobretudo para esconder o esférico do adversário, para permitir a incursão dos extremos na área. E não se coíbe de vir buscar jogo mais atrás no terreno. Fiquei deveras agradado ao vê-lo na final da Taça e, aos 28 anos, o salto não deve tardar. O extremo congolês Cédric Bakambu (fisicamente forte) gosta de surgir em diagonal à beira de Fernandão e, do outro lado, Volkan Sem cola-se mais à linha, optando pelo cruzamento com mais frequência ou procurando o remate na quina da área. A opção de recurso é o jovem Enes Ünal, avançado de 18 anos com uma maturidade acima da média e enorme margem de progressão.

Em suma, o Bursaspor incorpora, decididamente, uma filosofia ofensiva. No contra-ataque empurra a equipa toda para a frente e expõe-se defensivamente. Assim se justifica o facto de ter terminado o campeonato turco com o melhor ataque (69 golos), mas ter registado alguns resultados embaraçosos e inesperados, como as derrotas frente a Kasimpasa (5-3) e Sivasspor (4-1), equipas mais “pequenas” que se refugiam no bloco baixo e saem rápido para o contra-ataque. Com mais trabalho a nível defensivo e uma maior consciencialização da importância que a ocupação do espaço defensivo tem durante o jogo, o Bursaspor pode tornar-se num caso de estudo interessante no futuro próximo. Mais que não seja, já é um caso à parte na conjuntura turca.

Foto de Capa: Facebook do Bursaspor