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A nova época, que está prestes a começar, não vai dar à cidade de Sófia, capital da Bulgária, o sempre escaldante dérbi eterno entre os clubes com mais pergaminhos na cidade, CSKA Sofia e Levski Sofia, os mesmos que, durante décadas, fizeram ecoar o nome do país por essa Europa fora.

Depois de vários períodos altamente conturbados na sua história recente, o CSKA foi este ano despromovido na secretaria, a expensas de dívidas incobráveis a várias entidades oficiais do país e também salários em atraso de antigos jogadores e funcionários. A Federação Búlgara de Futebol (BFU), liderada pelo antigo internacional búlgaro e guarda-redes do Belenenses, Borislav Mihailov, não “perdoou” o antigo gigante do futebol do leste da Europa e retirou-lhe a licença que lhe permitia disputar o A Group (Liga Profissional Búlgara de Futebol A), condenando-o assim a uma longa travessia no deserto do futebol amador daquele país. Na próxima temporada, o histórico CSKA vai disputar a 3ª divisão do futebol búlgaro (Bulgarian V AFG), vendo-se assim obrigado a começar tudo de novo naqueles recantos onde a relva já não cresce e onde não poucas vezes a bola se torna num mero acessório durante uma partida de futebol.

No passado mês de Junho, um dos empresários mais poderosos do país, Grisha Ganchev, anunciou que iria, em parceria com outro empresário de sucesso, de seu nome Yuliyan Indzhov, assumir o controlo do CSKA, evitando assim uma eventual fusão com outra equipa da cidade numa tentativa de evitar a despromoção, conforme havia sido noticiado pelos meios de comunicação. Numa entrevista recente, Plamen Markov, uma antiga estrela da equipa e o novo Director Desportivo do CSKA, afirmou que não passa pela cabeça de ninguém envolvido neste novo projecto não ser possível regressar ao futebol profissional dentro de dois anos, algo que, caso venha mesmo a acontecer, marcaria certamente o fim dos lendários Армейците (Armymen).

Apresentação do novo treinador Hristo Yanev (segundo a contar da esquerda na foto) Fonte: Focus Sport
Apresentação do novo treinador Hristo Yanev (segundo a contar da esquerda na foto)
Fonte: Focus Sport

A nova direcção apresentou Hristo Yanev, um antigo internacional e talentoso médio búlgaro que já jogou, entre outros, no CSKA Sofia em duas ocasiões distintas, como novo treinador, que aos 36 anos de idade terá pela frente a hercúlea tarefa de devolver o histórico emblema búlgaro aos campeonatos profissionais daquele país do leste europeu.

Esta súbita despromoção é uma autêntica nódoa na história de um clube como o CSKA Sofia, que, durante décadas a fio, marcou – e de que forma! – o futebol búlgaro e mesmo o europeu, quer através das suas conquistas a nível nacional, quer através do talento de várias gerações de futebolistas que colocaram o clube na elite do futebol do velho continente.

Hristo Stoichkov, Emil Kostadinov, Lyuboslav Penev, Trifon Ivanov, Stiliyan Petrov, Georgi Dimitrov e Plamen Markov, entre outros, marcaram vincadamente as décadas de ouro do futebol búlgaro. As vitórias contra o Notthingham Forest FC, o Liverpool e o Bayern Munich, no início da década de 1980, deram ao CSKA uma projecção invejável na Europa futebolística, ao mesmo tempo que uma sólida produção de novos talentos, em constante desenvolvimento, permitiam ao CSKA conquistar seis campeonatos nacionais em dez anos, relegando assim os seus eternos rivais, Levski, para segundo plano. Foi precisamente num desses sempre escaldantes dérbis que teve lugar um dos piores episódios (provavelmente apenas destronado por esta abrupta descida de divisão) da história do CSKA. Em 1985, numa final da taça da Bulgária disputada no outrora imponente Vasil Levski National Stadium, o CSKA Sofia, que à época estava a atravessar um período de transição com a chegada à equipa de talentosos jovens como Hristo Stoichkov, enfrentava um bem estruturado e poderoso Levski, que contava na altura com jogadores como Nasko Sirakov, Plamen Nikolov, Emil Spasov e Bozhidar Iskrenov.

Equipa do CSKA Sofia 1988-89, da qual fazia parte entre outros, Hristo Stoichkov Fonte: Sibir
Equipa do CSKA Sofia 1988-89, da qual fazia parte entre outros, Hristo Stoichkov
Fonte: Sibir

 

O jogo tinha tudo para ser mais um memorável eterno dérbi do futebol búlgaro, mas acabou por ficar na história pelos piores motivos. Uma bola que Georgi Slavkov aparentemente controlou com o braço e que culminou no primeiro golo do CSKA e um hipotético penálti sobre Iliya Voinov quando o resultado já estava em 2-0 foram suficientes para incendiar os já irados adeptos das duas equipas e também os jogadores, que durante toda a partida se envolveram em diversas escaramuças, com cartões vermelhos a voarem, literalmente, para uma e outra equipa, deixando, ainda assim, muitas vezes os verdadeiros perpetradores passar incólumes. O jogo terminou com o resultado de 2-1 para CSKA, mas o que estava para acontecer, consequência das cenas de violência física e verbal a que os búlgaros assistiram durante toda a partida, viria a entrar para os livros de história do futebol. O Comité Central do Partido Comunista Búlgaro, liderado à época com mão de ferro por Todor Zhivkov, resolveu dissolver as duas equipas e voltar a criá-las sob uma nova gestão.

O CSKA passou a chamar-se numa fase inicial Sredets e o Levski passou a ser conhecido por Vitosha; ambos os treinadores foram despedidos e vários jogadores das duas equipas foram banidos para sempre do futebol búlgaro. Hristo Stoichkov, por exemplo, foi condenado por violação da moral socialista e por holiganismo, algo que poderia ter arruinado a sua carreira, como o próprio admitiu mais tarde numa entrevista. Plamen Nikolov e Emil Spasov, por seu lado, sofreram um rude golpe nas suas carreiras, uma vez que tinham já pré-acordos assinados com o FC Porto e viram os mesmos anulados pela Federação Búlgara de Futebol (BFU).

Sem o dérbi eterno e sem o CSKA Sofia, o futebol búlgaro ficará inevitavelmente mais pobre; ainda assim, nada disto demove os fervorosos adeptos dos Армейците (Armymen), que já fizeram questão de afirmar que não irão abandonar a equipa nesta nova dura etapa que os espera. Do outro lado da barricada, Stoycho Stoev, actual treinador dos vizinhos e rivais Levski, foi também peremptório ao afirmar que o dérbi eterno é algo que nunca poderá ser substituído e, num acto de raro desportismo, desejou que o CSKA regressasse rapidamente ao convívio entre os grandes.

Foto de Capa: ‘Portal CSKA’ – Site relativo ao CSKA em búlgaro

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