O anúncio do final de carreira de um jogador que admiramos tende a ser um momento particularmente nostálgico e surpreendente, um cruzamento entre memórias antigas que nos transportam para a inocência doutros dias e uma chamada à realidade que é a inevitabilidade do tempo, quase como quando o árbitro apita para o final de um jogo pelo qual nem demos pelos noventa minutos passarem.

Patrice Latyr Evra, jovem franco-senegalês, foi a mais recente baixa no plantel dos eternos. Marsala, cidade à beira-mar plantada a nordeste da Sicília, deu nome ao clube que o viu estrear-se como futebolista profissional, no ano em que o país que o recebeu quando aterrou do Senegal festejou pela primeira vez a conquista do Campeonato do Mundo de Futebol. Da estreia na ilha onde Don Vito Corleone nasceu, ao regresso a França, correram duas épocas, com uma passagem pelo Monza, este já bem no topo da bota italiana que dá forma ao país banhado pelo Mediterrâneo.

Mas antes da aventura em Nice – mais uma vez cidade e clube numa só palavra -, importa contar um pouco da história do menino que cresceu em Les Ulis, aldeia nos subúrbios de Paris. Evra é o último nome de 24 irmãos, filhos de dois emigrantes senegaleses que viram em França – à imagem do que acontece com tantas outras ex-colónias – a oportunidade de proporcionarem uma vida melhor aos seus descendentes. Por força da profissão de seu pai, reputado embaixador, a mudança não se afigurou difícil. Bruxelas foi a sua primeira casa europeia, e só depois rumou à antiga Gália.

Aos dez anos, Patrice assistiu ao divórcio dos progenitores e viu o pai levar quase tudo quando o deixou a ele, à mãe e aos irmãos: do sofá à televisão, nem as cadeiras escaparam. Foi nesta altura que Evra fez a sua primeira finta: ao destino.

“Partilhava um colchão com dois dos meus irmãos. Quando havia comida, tinhas de correr para assegurar a tua parte. Alguns dos meus irmãos conseguiram trabalho, mas foram viver com os parceiros. Aí, era a minha mãe, a minha irmã mais nova e eu. Tive de sair para as ruas. Quando cresces numa área com tiros e homicídios, não importa quem és, fazes o que podes para sobreviver. Lutei muito. Roubei comida, roupa, videojogos. Sentava-me fora das lojas a pedir dinheiro”.

Sem o futebol, o agora consagrado e retirado jogador assume que, à luz das probabilidades por ele matematizadas, “estaria sentado à porta de uma loja de Paris, a pedir dinheiro para comprar uma sandes”.

A paixão pelo jogo, celebrizada nas redes sociais do jogador com a recorrente sentença “I love this game”, impediu-nos de nos cruzarmos com o cada vez mais excêntrico lateral-esquerdo numa qualquer travessa com olhos para o Rio Sena; em vez disso, foram milhares os euros gastos para o ver cruzar.

A viragem do século coincidiu com a viragem da sua ainda curta carreira em solo italiano. Três épocas no Nice, de 2000 a 2002, possibilitaram-lhe o salto para o Principado. No Mónaco, assumiu-se como um dos mais promissores defesas-esquerdos da Europa antes de Sir Alex ir pescá-lo, a meio da temporada 2005/06, ao porto repleto de iates muito característico daquela cidade-estado, onde realizou mais de 150 jogos em três épocas e meia e disputou uma final europeia frente a um emergente treinador português nascido perto do Rio Sado.

Fonte: Seleção Francesa

Em Manchester, sentiu o pulso a Old Trafford e o frio a uma cidade que só aquece quando os diabos vermelhos tomam de assalto o “Teatro dos Sonhos”. Ao longo de nove épocas, conquistou 14 títulos – dentre os quais a Liga dos Campões – e o respeito do mundo do futebol. Ao “3” nas costas do baixinho mas resiliente francês, juntou-se a braçadeira branca nos últimos tempos com o símbolo do Manchester United ao peito. Da polémica com Luis Suárez ao rendimento superlativo dentro de campo, o legado de Patrice Evra permanecerá intacto na memória coletiva dos adeptos ingleses.

Seguiu-se Turim, onde ao serviço da Juventus conquistou três Ligas Italianas em três épocas. O casamento com a “Velha Senhora” foi, entretanto, interrompido por uma bela francesa chamada Marselha, para onde se mudou a meio da terceira época, por onde ficou até 2017.

A aventura no emblema do sul de França terminou sob os holofotes do fundador da nossa primeira dinastia e Guimarães serviu de ringue a céu aberto para o combate entre um grupo de adeptos do Marselha e alguns jogadores do clube, que levou a UEFA a suspender o já veterano lateral até junho de 2018.

Londres foi o destino final de um bom rebelde, que ainda foi a tempo de soprar as bolhas do West Ham por cinco ocasiões.

Na seleção, cantou de galo por 81 vezes, tendo estado presente consecutivamente em Europeus e Mundiais de 2008 a 2016.

De lá para cá, muitos têm sido os episódios caricatos de um ser que não deixa nenhum adepto indiferente às suas histórias. Aquando do adeus oficial, Patrice Evra revelou o inetento de vir a ser treinador dentro de um ano e meio, destino que lhe foi traçado por Alex Ferguson quando coincidiram em Manchester.

Ainda que a carreira de treinador não alcance o mesmo sucesso que a de jogador, a presença nos relvados internacionais do menino que roubava para comer é sempre um motivo de alegria para quem ama este jogo.

Foto de Capa: Manchester United

Revisto por: Jorge Neves

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