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Escondida nos recantos da Europa, a Moldávia, ou República da Moldávia, é, hoje em dia, o país mais pobre do velho continente, mas é também um dos mais misteriosos e com mais histórias para contar. Em Agosto de 1991, a RSSM (República Socialista Soviética da Moldávia) declarou independência da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e passou a ser conhecida internacionalmente como Moldávia, integrando mais tarde as Nações Unidas. A transição para a chamada “democracia europeia” não foi de todo pacífica e eclodiram alguns conflitos armados regionais dentro do país, nomeadamente na Transnístria, uma região dentro das fronteiras moldavas com uma população maioritariamente de origem russa e ucraniana, que, temendo uma aproximação da recém-formada Moldávia à Roménia, fez de tudo para se manter independente, contando desde cedo com uma cobertura encapuçada dos sucessivos governos de Moscovo.
A Moldávia dos dias de hoje é um país mergulhado numa grave crise e com uns níveis de corrupção absolutamente assustadores. O desaparecimento de mais de mil milhões de euros dos cofres de vários bancos durante o ano passado desencadeou uma crise política e social sem precedentes, levando mesmo à queda do governo e à nomeação, ainda que muito contestada, de um novo executivo, empossado pelo presidente do país, algo que desagradou e de que forma aos milhares de pessoas que se têm vindo a manifestar na capital, Chisinau, desde Setembro do ano passado.
É precisamente em Chisinau que “mora” um clube de futebol que neste momento tem muito de português: o FC Zimbru Chisinau. De clube modesto na esfera do futebol soviético a campeão nacional cinco vezes consecutivas na Moldávia independente, o FC Zimbru Chisinau já conheceu muitos altos e baixos na sua história, mas o facto de não vencer o título nacional desde 2000 tem aberto várias brechas na ainda frágil estrutura do clube. Os últimos pontos de especial relevo na história do clube remontam ao ano de 2014, quando o FC Zimbru do experiente técnico bielorrusso Oleg Kubarev bateu, no espaço de um mês, o FC Sheriff Tiraspol, por duas vezes, para se sagrar vencedor da Taça da Moldávia (Cupa Moldovei) e da Supertaça da Moldávia (Supercupa Moldovei). Kubarev deixou, no entanto, a equipa por mútuo acordo em Dezembro de 2014 e o seu sucessor, Veaceslav Rusnav, não conseguiu melhor do que um humilde 6º lugar na Moldovan National Division (Primeira Liga Moldava), deixando a equipa arredada das competições europeias esta temporada.
O FC Zimbru Chisinau tem tentado regressar às glórias esta temporada, mas não tem sido fácil acompanhar a caminhada dos rivais locais, o FC Dacia Chisinau e do emblema que tem por a base a Transnístria, o FC Sheriff Tiraspol. No final de Dezembro passado, os “Galben-verzii” decidiram abrir um novo capítulo na história do clube e contrataram em Portugal um novo treinador para liderar a equipa nos próximos dois anos. Em Janeiro deste ano, Simão Freitas, que teve várias experiências como treinador-adjunto em Portugal nos últimos anos, fazendo mesmo parte da equipa técnica de Rui Bento no CD Tondela esta temporada, abraçou a sua primeira aventura como treinador principal de uma formação que, neste momento, pouco mais pode ambicionar do que um lugar na Liga Europa na próxima época, dada a diferença pontual em relação ao FC Dacia Chisinau e ao FC Sheriff Tiraspol. Outro objectivo em carteira para o jovem técnico português será a conquista da Taça da Moldávia (Cupa Moldovei), mas para isso terá de ultrapassar no próximo dia 19 deste mês o FC Dacia Chisinau, num encontro que promete ser escaldante.

Fonte: FC Zimbru Chisinau
Simão Freitas, 35 anos, doutorado pela Faculdade de Desporto do Porto, tem trabalho feito em Portugal, nomeadamente nos escalões de formação do FC Porto, onde trabalhou durante seis ano e meio, tem em mãos uma tarefa hercúlea e prometeu, durante a sua apresentação em Janeiro passado, uma equipa a jogar à sua maneira, recusando de imediato qualquer comparação com os outros jovens treinadores portugueses que tiveram sucesso além fronteiras.
Simão Freitas apanhou a equipa durante a paragem de inverno e tem, neste ainda pouco tempo que leva de trabalho, tentado moldar a equipa à sua imagem, algo que naturalmente não é fácil em tão curto espaço de tempo. Duas vitórias, um empate e uma derrota são para já o saldo do técnico português ao leme do FC Zimbru Chisinau, mas, como o próprio reconheceu recentemente, há ainda muito a fazer. Depois de um empate a zero no seu jogo de estreia frente ao FC Academia UTM Chisinau, a equipa de Simão Freitas conseguiu uma vitória gorda por 4-0 frente ao Dinamo-Auto Tiraspol, na qual um dos outros portugueses da equipa, o talentoso médio de ataque, ex- FC Paços de Ferreira e Vitória SC, Rui Miguel e o versátil avançado brasileiro Talles Cunha, que em Portugal já representou o Leixões SC e o CF União da Madeira, estiveram em especial destaque.
Rui Miguel é, aliás, um jogador de importância capital na formação de Chisinau e um dos atletas em maior destaque na liga moldava, onde já apontou oito golos e realizou cinco assistências para golo esta temporada. Aos 32 anos de idade, o talentoso médio natural de Viseu, tem conseguido relançar a sua carreira num cenário que à partida poderia parecer improvável, mas que está definitivamente a ocupar um lugar de destaque na já longa carreira do médio português.
Numa entrevista concedida ao www.zerozero.pt no ano passado, Rui Miguel não escondeu a felicidade por esta nova fase da sua carreira e deixou no ar a possibilidade de terminar a sua carreira naquela antiga república soviética: “No futebol nunca se sabe o dia de amanhã, mas eu vejo-me aqui por muitos anos. Não digo que vou acabar aqui a carreira mas vamos ver. Tenho contrato de dois mas vamos ver. O projeto do Zimbru agrada-me muito. (…) O clube tem grandes condições de trabalho. Às vezes as pessoas pensam que isto aqui é o ‘fim do mundo’ e de verdade há aqui estádios que [pausa e risos] mas o Zimbru tem um centro de estágio moderno, o hotel é muito porreiro e o estádio tem grandes condições. Aliás, joga lá a seleção.”

Fonte: moldova.sports.md
Além de Rui Miguel fazem parte do plantel do FC Zimbru Chisinau vários atletas que de uma outra forma têm ligações com Portugal: Ludovic, antigo extremo do CD Feirense e GD Chaves, Álvaro Jaló, avançado que já passou pelo Real Sport Club e pelo Casa Pia AC, Edivândio, avançado cabo-verdiano que já representou o SC Beira-Mar, e Hélio, defesa brasileiro que teve uma curta passagem pelo GD Estoril Praia em 2010, são todos atletas que já representaram emblemas portugueses e que por um motivo ou outro escolheram a desconhecida liga moldava para dar seguimento às suas carreiras.
Além destes jogadores conhecidos no panorama futebolístico português, Simão Freitas conta com alguns jogadores moldavos de boa qualidade, como são os casos de Dan Spataru, um talentoso jovem médio de 21 anos, que capitaneou até há bem pouco tempo a selecção de Sub-21 moldava, Gheorghe Anton, outro médio, actualmente com 23 anos, também internacional pelas selecções jovens da Moldávia, que reúne condições para atingir voos mais altos num futuro próximo e o lateral direito e capitão de equipa, Ion Jardan.
O “novo” FC Zimbru Chisinau de Simão Freitas tem dado boa conta de si, mas no passado dia 2 de Abril sofreu uma pesada derrota por 4-1 às mãos do inconstante e actual campeão moldavo FC Milsami Orhei, que se deu a conhecer à Europa na pré-eliminatória da Liga dos Campeões da UEFA esta temporada. Embora o futuro não aparente ser fácil, Simão Freitas, que demonstrou coragem ao abraçar um projecto como o do FC Zimbru, tem todas as condições de devolver à formação de Chisinau as glórias do passado, ao mesmo tempo que poderá deixar o seu nome positivamente ligado a um clube que quer crescer, não só a nível doméstico, mas também no plano internacional.
Foto de capa: FC Zimbru Chisinau












