Assim que Steven Gerrard foi anunciado como novo treinador do The Rangers Football Club, muitas questões se colocaram sobre se a lenda do Liverpool FC estaria à altura do desafio. Comandar um emblema histórico nunca é fácil, ainda para mais estamos a falar do primeiro desafio profissional.

Quando o antigo capitão red aterrou em Glasgow, encontrou uma cidade dominada pelo verde e branco. Hoje, o azul começa a transbordar do Ibrox Stadium e a percorrer a cidade.

O sexto lugar na Primeira Escocesa não impressiona (posição mentirosa), mas os desempenhos na Liga Europa têm sido bastante interessantes. Salientar a forma consistente e contínua como a equipa têm evoluído, desde o início da época, atingindo, na última noite, o ponto mais alto.

Proponho olhar para a noite de ontem, vitória por 3-1 frente ao SK Rapid Wien, para mostrar como Gerrard está a montar a equipa, as ideias, os jogadores, a filosofia e até onde isso o pode levar.

Equipa e estrutura  

Na maioria dos jogos, Steven Gerrard têm apostado em um 4-3-3, mas a flexibilidade do meio campo leva a equipa a jogar em 4-2-3-1. Isto é ou joga com um jogador mais recuado e dois médios interiores à sua frente (4-3-3) ou opta por inverter a estrutura, com um jogador nas costas do ponta de lança e dois médios centros (4-2-3-1).

Seja 4-3-3, 4-2-3-1 Gerrard raramente realiza alterações no seu onze, aposta sempre no seu núcleo de 13/14 jogadores. É raro a defesa a quatro não contar com Tavernier pelo corredor direito, Connor Goldson e Katic/Worrall como centrais e com o croata Borna Barisic na esquerda. Na frente deste quarteto aparece Ryan Jack (por estar lesionado têm jogado Coulibaly), como médio defensivo, ladeado por Ejaria e Scott Arfield. Por fim, o trio atacante é composto por Kent/Candeias e Lafferty nos corredores e por Alfredo Morelos (ponte de lança).

Pressão e esquema defensivo

Frente ao Rapid Wien, uma equipa que procura sempre iniciar a construção com o seu guarda redes e/ou centrais, o Rangers apresentou um esquema onde procurava evitar no primeiro momento a progressão do adversário pelo corredor central, forçando a jogar pelos corredores desde muito cedo. Muito cedo significa que os laterais do Rapid Wien iam participar na construção muito recuados, o que dificultava a progressão da equipa.

No primeiro momento, o médio defensivo adversário vem receber a bola do seu guarda redes, entre os dois centrais, de costas para a baliza adversária. Ejaria (médio interior esquerdo) avançada imediatamente para prevenir que o jogador rode e fique de frente para o jogo, forçando-o a jogar para trás e/ou corredores. Morelos (ponta de lança) cola-se de forma a prevenir que o passe seja feito para o central do lado contrário, mantendo a bola no corredor direito do adversário. Finalmente, Kent (Extremo esquerdo) corta a hipótese de o lateral direto do adversário receber o passe em zonas mais avançadas.

Fonte: BT Sport

Bola no lateral, que têm no primeiro momento todo o corredor todo para si, mas rapidamente se apercebe que esse é objetivo do Rangers. Kent acompanha o seu adversário, mantendo-o no corredor e empurrando-o gradualmente para a linha lateral. O médio defensivo do Rangers, Coulibaly ocupa a posição interior, na cobertura de Kent, prevenindo o passe interior. Arfield, médio do lado oposto, à medida que o lateral adversário avança, vai-se colocando dentro, garantido o equilíbrio da equipa e a ocupação do corredor central.

Fonte: BT Sport

Até que o Rapid Wien é forçado a jogar para trás, voltando ao ponto de partida.

Fonte: BT Sport

Tendencialmente o Rangers procura condicionar o jogo para o corredor de Kent. O jovem de 21 anos é um jogador muito bom na leitura dos adversários, para onde eles querem driblar ou fazer o passe, coloca muito bem o corpo, quando procura cortar linhas de passe e recupera muito bem a sua posição defensivamente fruto da capacidade de aceleração. Todas estas características, têm um impacto tremendo na incapacidade do adversário em progredir desde posições recuadas.

Dinâmicas e processo ofensivo

Um dos aspetos mais visíveis, e interessantes, do estilo do Rangers é a forma como procura colocar muitos jogadores no corredor central e na zona da bola.

Ontem uma das zonas mais usadas para sobrecarregar foi o corredor direito. O lado onde joga Jason Tarvernier, um lateral extremamente dinâmico, não só confortável com a bola nos pés, quando avança ao longo do corredor em momentos de transição, mas também quando cruza e nas situações de combinação curta. Combinações curtas, em resultado das referidas sobrecargas, são parte integrante e indissociável da forma como o Rangers ataca.

Para se juntar à “festa”, no corredor de Tavernier, temos não só o ponta de lança Morelos, que se move bem, lateralmente, ao longo da linha defensiva do adversário procurando combinar com os colegas antes de aparecer nas zonas de finalização.  Como também Candeias, o jogador português liga muito bem com Tavernier, uma vez que se sente confortável em posições interiores e dá mais espaço ao lateral.

Arfield também aparece frequentemente para fazer parte dessa sobrecarga. Desde o corredor central e com uma bola leitura dos espaços, aproveita frequentemente os movimentos dos colegas para receber a bola em posições interessantes.

Em baixo, vemos como o Rangers coloca muitos jogadores no corredor central e liberta espaços nos corredores para os seus laterais.

Fonte: BT Sport

Curiosamente, ou talvez não, apesar da sobrecarga no corredor central, as alas são uma parte muito importante na forma como o Rangers agride o adversário. Procurando as melhores posições para cruzamentos.

Vejam como o Rangers trabalha a jogada. A forma como Morelos se movimenta, para aparecer sozinho na zona de finalização, e como Kent (extremo esquerdo) vêm ao espaço entre o corredor direito e o central para realizar o passe, que antecede a assistência. (lance acelerado para ser possível fazer o GIF).

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Para não me alongar muito no artigo, e também não fugir ao olhar coletivo da equipa e não individual, apenas dizer que está um grande negócio, à espera de ser feito, em Glasgow. Têm o nome de Morelos, Alfredo Morelos.

O Rangers está de volta? Nas palavras de Tavernier, no final do jogo de ontem, parece que sim: “That was the best atmosphere I have experienced since I have been at Rangers. Our away fans have given us some great atmospheres but that is one of the best I have experienced at Ibrox“.

Uma coisa é certa, a mentalidade vencedora está de volta.

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A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.                                                                                                                                                 O João escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.