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CONTEXTUALIZAÇÃO

A Índia é, pelos dias de hoje, uma das mais pluralistas e multiculturais sociedades do globo terrestre. Inserida na Ásia Meridional, é o segundo país mais populoso do mundo e o sétimo maior em área geográfica. É uma república composta por 28 estados e tem uma das economias mais fortes do mundo. Apesar de ser um país que ainda revela algumas carências a nível social – com a pobreza e o analfabetismo a estarem no topo das preocupações –, a Índia teve uma evolução brutal desde o início dos anos 90 e é uma das maiores potências económicas do planeta. A nível desportivo, como se sabe, o críquete é o desporto-rei e o futebol está longe de ser uma prioridade. Mas será assim por muito mais tempo?

REJUVENESCIMENTO DO FUTEBOL INDIANO

A questão levantada não tem, para já, uma resposta concreta. Mas a planificação desta nova temporada da Liga Indiana deixa antever que haverá uma aposta muito mais séria no futebol indiano. Nota-se que há interesse em fomentar o gosto pela modalidade e todo o investimento que tem sido feito é maioritariamente para agradar ao grande público, que anseia por entretenimento. A aposta dos indianos, para já, não é estrutural e por isso não se espere grandes melhorias na qualidade das seleções indianas dos próximos anos. O foco principal é o marketing e a divulgação desta reestruturada competição, que tem agora novos motivos de interesse para todos os amantes de futebol (indianos e não só).

INDIAN SUPER LEAGUE

A Indian Super League conta apenas com 8 equipas e está organizada em duas fases distintas. A primeira parte da competição é a fase regular, que arrancou neste mês e irá prolongar-se até novembro. Durante este período, cada equipa joga em casa e fora contra cada uma das restantes sete equipas do torneio e procura classificar-se para a ronda seguinte. Como? Ficando entre os quatro primeiros lugares da fase regular. Serão eles que darão acesso à segunda ronda do torneio, esta já em formato de playoff. As quatro equipas finalistas são sorteadas para jogar as meias-finais da competição, numa eliminatória a duas mãos. A final será um jogo único.

EQUIPAS

As cidades das 8 equipas em disputa Fonte: Wikipédia
As cidades das 8 equipas em disputa
Fonte: Wikipédia

E é aqui que tudo começa a ficar engraçado. O maior foco de interesse da Liga Indiana são as exigências para a formação do plantel. Cada equipa deve ter 14 jogadores indianos (4 deles naturais da cidade onde jogam), 7 estrangeiros e… um jogador “estrela”. Leu bem, todas estas normas devem ser respeitadas. É mesmo obrigatório que cada equipa tenha 7 estrangeiros e um jogador de craveira mundial no seu plantel. E, se ainda não conhece os plantéis, vai ficar surpreendido com os nomes que irei avançar em seguida. Aqui ficam então as 8 equipas presentes na competição:

ATLÉTICO DE KOLTAKA

Jogador “Estrela”: Luis García (ESP)

Treinador: Antonio López Habas (ESP)

Portugueses: Não tem

Outros jogadores de destaque: Édel Apoula (ARM), Josemi (ESP) e Borja Fernández (ESP)

Considerações: O Atlético de Kolkata apostou muito no mercado espanhol e escolheu Luis García, 36 anos, como o seu jogador “estrela”. O internacional espanhol, que já passou pelo Barcelona, Atlético de Madrid e Liverpool – neste último foi inclusivamente campeão europeu – é a figura de proa de uma equipa que ainda conta com os nomes do guarda-redes Apoula e dos espanhóis Josemi e Borja.

NORTHEAST UNITED

Jogador “Estrela”: Joan Capdevila (ESP)

Treinador: Ricki Herbert (NZL)

Portugueses: Miguel Garcia

Outros jogadores de destaque: Alexis Tzorvas (GRE) e Koke (ESP)

Considerações: Naturalmente, já deve ter esboçado um pequeno sorriso com os nomes aqui apresentados. Sim, é verdade. Capdevila, 36 anos, antigo campeão do mundo pela Espanha e ex-jogador do Benfica é o jogador “Estrela” desta equipa, que tem ainda o herói de Alkmaar, Miguel Garcia, no plantel principal. E pasme-se, leitor, que o português de 31 anos não é o único jogador ex-Sporting desta equipa do NorthEast United. Koke diz-lhe alguma coisa? Não, não é o do Atlético de Madrid. Koke é também espanhol, mas este é avançado e foi jogador dos leões em 2005/2006. Lembra-se dele?

DELHI DYNAMOS

Jogador “Estrela”: Alessandro Del Piero (ITA)

Treinador: Harm van Veldhoven (HOL)

Portugueses: Henrique Dinis

Outros jogadores de destaque: Nada a assinalar

Considerações: Pasmem-se os adeptos do futebol. Alessandro Del Piero, 39 anos, está de volta aos relvados e é ele que irá liderar a equipa do Delhi Dynamos neste campeonato. Não há mais nenhum jogador de relevo ou de craveira internacional, pelo que as atenções estarão todas viradas para aquele que é considerado por muitos como o melhor jogador de sempre do futebol italiano. Em relação a portugueses, o médio Henrique Dinis, ex-Vitória de Guimarães B, é o único jogador que faz parte do plantel.

PUNE CITY

Jogador “Estrela”: David Trezeguet (FRA)

Treinador: Franco Colomba (ITA)

Portugueses: Não tem

Outros jogadores de destaque: Bruno Cirillo (ITA) e Katsouranis (GRE)

Considerações: David Trezeguet, 37 anos, é ainda hoje recordado como um dos mais letais avançados da história do futebol francês. Fez 34 golos na seleção francesa e se olharmos, por exemplo, para a sua estadia na Juventus, verificamos que os números falam por si: 245 jogos – 138 golos. Um jogador com diversos títulos no currículo e que procura agora juntar mais um à sua coleção. Será interessante mencionar ainda o nome de Katsouranis, antigo jogador do Benfica, que faz parte deste plantel orientado pelo italiano Franco Colomba.

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A taça com a presença de algumas das estrelas da competição
Fonte: Globo

GOA

Jogador “Estrela”: Robert Pirès (FRA)

Treinador: Zico (BRA)

Portugueses: Edgar Marcelino, Bruno Pinheiro e Miguel Herlein

Outros jogadores de destaque: André Santos (BRA)

Considerações: Orientada por Zico, antiga glória do futebol brasileiro, esta equipa do Goa é aquela que tem mais portugueses nas suas fileiras, sendo Edgar Marcelino, jogador formado no Sporting, aquele que apresenta um melhor currículo. No entanto, currículo algum neste plantel se poderá comparar com o do jogador “estrela” desta equipa: Robert Pirès é ainda hoje recordado com saudade pelos adeptos franceses. Uma verdadeira lenda viva do velhinho Highbury Park (Arsenal) ao serviço de Zico e acompanhado pelo internacional brasileiro André Santos.

CHENNAIYIN

Jogador “Estrela”: Elano (BRA)

Treinador: Marco Materazzi (ITA)

Portugueses: Não tem

Outros jogadores de destaque: Bernard Mendy (FRA), Mikaël Silvestre (FRA) e Bojan Djordjic (SUE)

Considerações: Em termos de agressividade e garra, arrisco-me a dizer que esta equipa do Chennaiyin vai ser a líder do campeonato indiano. Obviamente que quem nomeia Marco Materazzi como treinador-jogador sujeita-se a ler este tipo de considerações. O defesa-central italiano, que foi campeão europeu com Mourinho no Inter, é um jogador de nível internacional, mas até nem foi o escolhido como jogador “estrela” da equipa. A honra ficou para Elano, médio criativo brasileiro, conhecido pelas suas passagens pelo Shakhtar Donetsk, Manchester City e Galatasaray.

KERALA BLASTERS

Jogador “Estrela”: David James (ING)

Treinador: David James (ING)

Portugueses: Não tem

Outros jogadores de destaque: Nada a assinalar

Considerações: A nível de vedetas/jogadores de relevo internacional, esta equipa dos Kerala Blasters é provavelmente a mais fraca das participantes. Quando o único jogador de destaque é “Calamity” James (o nome não vem por acaso) as expectativas terão de ser substancialmente mais reduzidas. O guarda-redes inglês David James sempre foi conhecido pelos erros colossais que cometia e nunca foi um nome consensual na baliza inglesa. Apesar de desconhecer o seu estado físico atual, não lhe prevejo grandes sucessos, dado que, aos 44 anos, os seus reflexos certamente não melhoraram.

MUMBAY CITY

Jogador “Estrela”: Fredrik Ljungberg (SUE)

Treinador: Peter Reid (ING)

Portugueses: André Preto e Tiago Ribeiro

Outros jogadores de destaque: Nicolas Anelka (FRA) e Manuel Friedrich (ALE)

Considerações: Muito questionável a escolha de Ljungberg, 37 anos, como jogador “estrela” dos Mumbay City. Nada contra a tremenda carreira do sueco, mas parece-me claro que Nicolas Anelka fazia mais por justificar esse estatuto, ou não fosse ele o jogador que mais milhões movimentou em transferências em toda a história do futebol. Ainda assim, quem tem Anelka e Ljungberg no plantel só pode ambicionar a conquista do título. Logicamente que 1 ou 2 jogadores não fazem uma equipa, mas tê-los no plantel dá uma (enorme) ajuda.

O FUTURO

Ninguém sabe ao certo se esta jogada de marketing vai dar certo ou não. Tanto pode correr muito bem, como correr muito mal. Mas deve louvar-se a coragem e a abertura dos investidores indianos, que querem dar algum dinamismo ao seu futebol. Mesmo que tudo isto se revele um enorme fiasco, a atenção dos media ficou redobrada. E nestes primeiros jogos, as bancadas dos estádios indianos têm estado completamente preenchidas para ver de perto alguns dos melhores jogadores da história do nosso futebol. Afinal, sejamos honestos: quem não pagaria para ver Del Piero, Trezeguet ou Pirès a dar uns toques na bola com jogadores da cidade do seu coração?

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O Mário é o fundador do “Bola na Rede” e a pessoa que mete ordem na malta. Adora desporto em quase todas as suas vertentes. Só não gosta de cricket. Já pensou em ser treinador de futebol por causa de José Mourinho. Infelizmente, a coisa não avançou e preferiu dedicar-se ao bitaite desportivo.                                                                                                                                                 O Mário escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.