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Resta muito pouco ou quase nada daquela equipa do CSKA Moscovo que a 18 de Maio de 2005 deixou um enorme amargo de boca às hostes sportinguistas em pleno Estádio de Alvalade, levando para a capital russa a tão ambicionada Taça UEFA. Igor Akinfeev, Sergei Ignashevich e os irmãos Berezutskiy são os últimos resistentes de uma equipa que, pela mão do carismático Valeri Gazzaev, surpreendeu meia Europa e arrebatou o primeiro troféu internacional de sempre para um emblema russo.

Na próxima terça-feira, 18 de Agosto, o emblema moscovita regressa a Lisboa para novamente enfrentar o Sporting CP, mas desta vez numa partida a contar para os playoffs de acesso à Liga dos Campeões. O CSKA Moscovo chega a esta fase da competição já com vários jogos oficiais disputados, quer na Liga Russa, quer na própria fase de acesso à Liga Milionária. Os Militares (Армейцы) estão a atravessar um bom momento nas competições internas e vêm de uma vitória altamente moralizadora na Otkrytie Arena contra os rivais Spartak Moscovo, na passada sexta-feira. Com cinco vitórias em cinco jogos e oito golos marcados contra apenas um sofrido, o CSKA Moscovo lidera, isolado, a liga do seu país, uma vez que o FC Zenit, de André Villas-Boas, deixou-se surpreender em casa pela FC Krasnodar este Sábado.

A saída do estratega Valeri Gazzaev em 2008 deixou a equipa moscovita algo à deriva, e a tentativa da direcção em entregar o comando do CSKA a um treinador estrangeiro provou ser um erro crasso. Nem Zico nem Juande Ramos foram capazes de fazer marchar as tropas na direcção certa, e foi já em desespero de causa que, em Outubro de 2009, o chairman do CSKA, Yevgeny Giner, entregou o comando da equipa a um treinador sem grande currículo na altura, de seu nome Leonid Slutsky.

Leonid Slutsky – O timoneiro do emblema moscovita  Fonte: sportxl.org
Leonid Slutsky – O timoneiro do emblema moscovita
Fonte: sportxl.org

O treinador, de 44 anos, natural de Volvogrado, é, desde essa altura, o homem forte do CSKA e tem como adjuntos dois nomes bem conhecidos do futebol europeu, os antigos internacionais russos Viktor Onopko e Sergei Ovchinnikov.

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Leonid Slutsky, que de algumas semanas a esta parte ocupa também o cargo de seleccionador da Rússia, é aquilo a que podemos chamar um treinador conservador. As manobras da equipa do CSKA são feitas a partir de processos bastante simples, com trocas de bola rápidas e raramente feitas a partir de trás. Os Militares (Армейцы) jogam já há alguns anos num rígido 4-2-3-1, no sentido posicional, com quatro homens no quarteto defensivo, um médio defensivo e um armador de jogo mais recuado em frente da linha de defesa, três homens altamente versáteis na linha intermédia com funções mais ofensivas e um avançado móvel na frente.

Na baliza, reside um dos principais esteios da equipa – Igor Akinfeev. O experiente guarda-redes russo anda longe dos melhores momentos da sua carreira, mas aos 29 anos, e após vários rumores sobre a sua saída para algum gigante do futebol europeu, Akinfeev é, não só o capitão de equipa, mas também um elemento de elevada importância na estrutura do CSKA.

A zona central da defesa está entregue a dois homens que contam já nas pernas com muitos minutos de futebol ao mais alto nível. Sergei Ignashevich e Vasili Berezutskiy são defesas bastante experientes e são ambos vozes de comando de uma defesa que, por tendência, não sofre muitos golos (pelo menos nas competições internas), mas que por vezes é acusada de algum excesso de confiança e também de uma certa complacência na forma como aborda as partidas. O lado direito da defesa é geralmente entregue ao brasileiro Mário Fernandes, um lateral com vocação ofensiva, que não poucas vezes descura as suas tarefas defensivas. Do lado esquerdo, Slutsky tem apostado esta época em Kirill Nababkin, um antigo internacional russo de 28 anos bastante discreto mas competente, que ficou com o lugar que o talentoso lateral Georgi Shchennikov, também ele internacional pelo seu país, ocupou durante a temporada passada.

O meio-campo é, por ventura, o motor do CSKA, e é a sua inspiração ou falta dela que pauta de forma positiva ou negativa o jogo da equipa. O sueco Pontus  Wernbloom é o parte pedra, o recuperador de bolas e aquele que presta auxílio aos defesas centrais para compensar as subidas dos laterais. O internacional sueco e antigo jogador do AZ Alkmaar é um elemento essencial no equilíbrio táctico da equipa. A seu lado joga o israelita Bibras Natkho, um jogador com elevada qualidade de passe e excelente visão de jogo, que marca o ritmo da equipa jogando como uma espécie de armador de jogo em zonas mais recuadas do terreno.

O onze habitual do CSKA Moscovo esta época Fonte: cskanews.com/
O onze habitual do CSKA Moscovo esta época
Fonte: cskanews.com/

O restante trio que compõe o meio-campo representa uma ameaça constante a qualquer adversário. Alan Dzagoev, aquele que outrora foi visto como um dos maiores prodígios do futebol russo na última década, está a atravessar um excelente momento e ocupa geralmente a posição de extremo direito ou avançado interior, tendo também um papel de organizador de jogo do meio-campo para a frente. A seu lado joga um atleta que deve merecer a maior das atenções por parte da equipa do Sporting CP. Roman Eremenko, jogador finlandês nascido em Moscovo, é o estratega da equipa e um desequilibrador nato. Sempre de cabeça bem levantada, é por ele que passam a maioria dos rápidos movimentos ofensivos dos moscovitas e, se a isso juntarmos a extraordinária capacidade de remate que possui, Eremenko torna-se um elemento vital ao qual não pode ser dada liberdade de movimentos. Do lado esquerdo do ataque temos Zoran Tosic. O internacional sérvio, que teve em tempos uma passagem algo fugaz pelo Manchester United, encontrou no CSKA a sua segunda casa e é actualmente um dos jogadores mais importantes da equipa. Tosic é um extremo nato, com um drible e uma velocidade muito acima da média e cujo pé esquerdo constitui uma ameaça constante à defensiva adversária.

Por fim, lá na frente, temos o jovem nigeriano Ahmed Musa. Até ao regresso de Seydou Doumbia, na passada semana, Musa era o único avançado de renome do emblema moscovita, mas foi, ainda assim, dando conta do recado. O avançado nigeriano de 22 anos tem estado em grande destaque esta temporada e já apontou vários golos, quer a nível interno, quer no jogo anterior da fase de apuramento da Liga dos Campeões, marcando por duas vezes em Praga frente ao Sparta local. Contudo, a chegada de Doumbia pode fazer recuar Musa para a posição de extremo, sacrificando para isso Tosic ou até Bibras Natkho e, em simultâneo, fazendo passar Alan Dzagoev ou Roman Eremenko para uma posição interior mais recuada.

Roman Eremenko – O cérebro da equipa russa Fonte: sport-express.ru
Roman Eremenko – O cérebro da equipa russa
Fonte: sport-express.ru

O CSKA Moscovo, ao contrário do que fazia na era de Valeri Gazzaev, baseia muito do seu jogo em rápidos contra-ataques e procura quase sempre o erro do adversário em áreas de transição para aplicar o golpe final.

Leonid Slutsky criou uma equipa com nervos de aço (algo que contrasta com a sua muito pouco usual forma de estar no banco de suplentes), capaz de criar mossa em qualquer adversário e que tem conseguido retirar dos seus jogadores prestações por vezes notáveis em vários jogos internacionais recentemente.

Há um provérbio russo que diz: “aquele que recorda o passado perde um olho, mas aquele que o esquece perde os dois”. Jorge Jesus e o Sporting CP, que são por muitos considerados favoritos para esta eliminatória, não devem esquecer o que aconteceu em 2005 e muito menos menosprezar a actual equipa do CSKA; caso contrário, não conseguirão certamente marcar presença na fase de grupos da Liga Milionária esta época.

Foto de Capa: rsport.ru