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Quarenta e oito horas de autocarro ou sete horas de avião seria o tempo que o FC Zenit de André Villas-Boas demoraria se esta temporada voltasse a jogar em Yekaterimburgo contra o FC Ural. A equipa do Oblast de Sverdlovsk é o representante mais oriental da Primeira Liga Russa (Российская Премьер-Лига) actualmente e também uma das surpresas mais agradáveis da presente temporada. O frio ártico já tomou conta do território russo e as agruras do Inverno, com temperaturas a rondar os -15º em algumas das regiões mais orientais, obrigam a uma paragem dos campeonatos profissionais e amadores do futebol russo.

Com 18 partidas já jogadas e após uma primeira análise à tabela classificativa da Primeira Liga Russa, poderia dizer-se à vista desarmada que, com a excepção do modesto lugar ocupado pelo FC Zenit, não existem grandes surpresas no posicionamento das equipas na parte cimeira. Na verdade, as coisas não são bem assim e apesar de o CSKA Moscovo ser, neste momento, líder isolado do campeonato, é legítimo questionar se essa liderança se manteria por muito mais tempo caso a pausa de Inverno não tivesse chegado.

Os fantasmas do passado assombram o técnico do CSKA Moscovo,Leonid Slutsky Fonte: sovsport.ru
Os fantasmas do passado assombram o técnico do CSKA Moscovo, Leonid Slutsky
Fonte: sovsport.ru

Os homens de Leonid Slutsky, carrascos do Sporting CP na Liga dos Campeões, atravessam um momento terrível, quer a nível das competições internas, quer em termos internacionais. Com três derrotas nos últimos quatro jogos da Liga Russa, os Armeitsy viram esvaziar-se a gorda vantagem que tinham em relação ao surpreendente FC Rostov para apenas três pontos. Na última ronda antes da paragem de Inverno, o CSKA deslocou-se a Perm, uma região extremamente fria nas imediações dos Montes Urais, para sofrer uma humilhante derrota às mãos do FC Amkar. Humilhante, diga-se, não pelos números envolvidos, 2-0, mas sim pela lição táctica dada por Gadhzi Gadzhiev, antigo campeão olímpico pela URSS como adjunto do nosso conhecido Anatoliy Byshovets em 1988, e actual técnico do FC Amkar, ao seu companheiro de profissão e também actual seleccionador russo, Leonid Slutsky. O talentoso jovem médio proveniente do Spartak Nalchik, Alikhan Shavaev, abriu a contagem na primeira parte e o antigo avançado do CSKA Moscovo, Aleksandr Salugin deu a machadada final a dez minutos do fim da partida.

Em contraste com o CSKA Moscovo, temos um impressionante FC Rostov, que, apesar de inúmeros problemas de ordem financeira e de um plantel limitado, tem, pela mão do experiente Kurban Berdyev, remado contra a maré, encontrando-se actualmente no 2º lugar da tabela com apenas menos três pontos do que a equipa de Slutsky. Na última partida antes da paragem de Inverno, os Selmashi tiveram que se aplicar a fundo para bater o Rubin Kazan, antiga equipa de Kurban Berdyev, por 1-0. Um golo do inevitável Dmitry Poloz, também ele um jogador em afirmação na Liga Russa, deu a vitória, diga-se justa, aos homens de Rostov-on-Don.

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Dmitri Poloz, um dos homens em maior destaque no FC Rostov esta temporada Fonte: vk.com
Dmitri Poloz, um dos homens em maior destaque no FC Rostov esta temporada
Fonte: vk.com

Ainda na parte cimeira da tabela, encontramos dois gigantes de Moscovo, Lokomotiv e Spartak, no 3º e 4º lugar respectivamente. O Loko, com quem o Sporting CP também já mediu forças esta temporada, tem estado em queda livre nos últimos meses e apenas conseguiu uma vitória nos últimos dez jogos oficiais. Na passada jornada, e após um empate a 2 golos no dérbi moscovita contra o Dynamo, o Lokomotiv não conseguiu melhor do que mais um empate a duas bolas, desta vez perante o FC Ural, em Cherkizovo. As longas ausências por lesão de Alan Kasaev e Dmitri Tarasov, que apenas recentemente voltaram à competição, não servem de toda a forma para explicar os maus resultados do conjunto de Igor Cherevchenko.

Por outro lado, os seus vizinhos e rivais do Spartak, que atravessam um claro período de renovação pela mão de Dmitri Alenichev, têm conseguido manter-se à tona e já não perdem há três jogos. Após uma vitória suada, mas de certa forma merecida, perante o FC Krasnodar, a equipa que mais vezes ganhou a Liga Russa após o colapso da URSS deixou-se empatar nos últimos segundos da partida na deslocação a Kazan, mas regressou aos triunfos no derradeiro jogo antes do interregno de Inverno com uma vitória caseira perante o FC Krylya Sovetov, de Franky Vercauteren. Um golo madrugador do inevitável Quincy Promes, o melhor marcador da Liga Russa com 10 golos em 18 jogos, foi o que bastou para levar de vencida a equipa de Samara e dar ao Spartak não só a nona vitória da temporada, como também a possibilidade de se manter em lugares que permitiriam disputar uma competição internacional na próxima temporada.

Contudo, nem tudo são rosas no universo do Spartak, uma vez que a aparente “Perestroika” que está a ser levada a cabo por Sergei Rodionov, director do clube, e pela restante estrutura dos Krasno-Belye está alegadamente a criar algum mau ambiente nos bastidores da equipa. O capitão da seleção russa, Roman Shirokov, foi afastado do onze inicial, uma vez que o experiente médio se recusou a alterar no seu contrato uma cláusula que lhe permitiria renovar o seu vínculo com o clube automaticamente após completar 15 partidas. Até ao momento, Shirokov alinhou em 14 ocasiões e por isso basta-lhe apenas mais um jogo para o seu contrato se renovar automaticamente. Toda esta novela tem acontecido, alegadamente, contra a vontade de Dmitri Alenichev, que, por sua parte, tem desde há muito uma grande amizade com Roman Shirokov.

Saindo de Moscovo em direção à capital do norte, São Petersburgo, encontramos um FC Zenit altamente descaracterizado até ao momento nesta temporada e que tem pautado pela irregularidade na Liga Russa. Actualmente no 6º lugar, com os mesmos 30 pontos de Spartak Moscovo e FC Krasnodar, a equipa de André Villas-Boas tem mostrado uma personalidade à Jekyll and Hyde, com estrondosas exibições na Liga Campeões, onde para já conta vitórias em todas as partidas que disputou, e prestações a rondar a mediocridade na Liga Russa, onde apenas venceu um dos últimos cinco jogos. Os actuais campeões russos não estão de forma nenhuma afastados da luta pelo título, uma vez que apenas têm menos sete pontos do que o líder CSKA Moscovo, mas necessitam de melhorar e muito se tencionam realmente fazer frente às equipas da capital após a paragem de Inverno. André Villas-Boas, que irá abandonar a equipa no final da temporada não obstante os resultados desportivos conseguidos, deverá ter em mente que esta clara aposta na Liga dos Campeões poderá sair-lhe bastante cara, uma vez que as equipas russas demonstram geralmente grandes dificuldades em manter o mesmo ritmo competitivo a nível internacional após o longo e agreste interregno de Inverno.

André Villas-Boas e Dmitri Alenichev, dois dos homens em maior destaque na Liga Russa esta temporada Fonte: sovsport.ru
André Villas-Boas e Dmitri Alenichev, dois dos homens em maior destaque na Liga Russa esta temporada
Fonte: sovsport.ru

Desta primeira fase da Liga Russa, há também que destacar as prestações de equipas como o FC Terek Grozny e o FC Ural. O conjunto tchetcheno, superiormente orientado pelo experiente Rachid Rakhimov, é a equipa que menos vezes perdeu na Liga Russa até ao momento (apenas duas derrotas em 18 jogos) e apresenta um futebol altamente mecanizado, principalmente a jogar em casa, com um estilo bem marcado e que lhe tem rendido excelentes resultados. O jovem talento russo Magomed Mitrishev tem dado muito boa conta de si, assim como o internacional polaco Maciej Rybus e os brasileiros Maurício e Adilson, que têm sido de especial importância para a boa caminhada da formação de Grozny.

Foram curiosamente o FC Terek e o FC Ural que estiveram envolvidos num alegado escândalo de resultados combinados aquando do jogo entre ambas as equipas em Yekaterimburgo no passado mês de Agosto. Esse episódio terá levado, alegadamente, à demissão de Viktor Goncharenko, o técnico que levou o FC BATE Borisov aos grandes palcos europeus e que se despediu do FC Ural por alegadamente não querer pactuar com tal situação. Não será de mais dizer que as investigações levadas a cabo não tiveram até ao momento qualquer resultado palpável.

Polémicas à parte, o FC Ural merece também destaque, não só pelo futebol altamente apelativo que apresenta, mas também por se encontrar na primeira parte da tabela ao fim de 18 jogos. O novo homem forte da equipa do FC Ural, Vadim Skripchenko, um antigo internacional bielorrusso que exercia funções de adjunto de Viktor Goncharenko no início da temporada, tem feito um trabalho absolutamente notável com a equipa dos Urais. Os internacionais russos Aleksandr Erokhin (actualmente lesionado) e Aleksandr Sapeta, assim como o chileno Gerson Acevedo, têm sido os homens mais importantes da equipa de Skripchenko.

Por fim, não será demais realçar as situações altamente complicadas que vivem o FC Kuban e o FC Anzhi, que ocupam o 14º e 15º lugares da tabela classificativa actualmente.  A formação do Daguestão parece estar a querer levantar a cabeça e conseguiu duas vitórias nos dois últimos três jogos. O novo treinador da equipa, Ruslan Agalarov, levou a cabo uma pequena revolução, promovendo ao onze inicial vários jogadores mais jovens e relegando para a condição de suplente utilizado ou até mesmo não utilizado algumas das estrelas da equipa, como Hugo Almeida, Yannick Boli e Lukman Haruna.

Já o FC Kuban, que está em queda livre na tabela classificativa, está a pagar os erros de uma pré-época muito mal pensada, com contratações sonantes como Andrei Arshavin e Roman Pavlyuchenlo a nada trazerem de novo à equipa de Krasnodar. Assim, ao fim de 18 jornadas, somos invadidos pelo Inverno do nosso descontentamento, aquele que priva todos os que vibram com o futebol russo, de emoções fortes e de momentos de grande qualidade futebolística até ao próximo mês de Março.

Foto de Capa: vk.com