«Zlatanear» — dominar com força (in Dicionário da Academia da Língua Sueca): há neologismos que não são usados com a devida frequência e “zlatanear” é sem dúvida um deles. “Dominar com força” pode aplicar-se em tantos momentos das nossas vidas – desde dominar com força a vontade de buzinar no trânsito, a dominar com força cinco imperiais em apenas duas mãos – que chega a ser injusto vermos o termo “zlatanear” perdido num dicionário sueco e na ponta da chuteira de quem lhe dá nome.

Ainda assim, e de forma a combater esta tremenda injustiça, Zlatan Ibrahimović vai fazendo questão de nos lembrar da existência e pertinência deste verbo. A caminho dos 38 anos, e ao serviço do nono clube da carreira, Ibra continua a presentear o mundo com golos irreplicáveis e com uma irreverência inacabável.

Numa entrevista recente à ‘ESPN’, foi perguntado a Zlatan se ainda se achava o melhor jogador da MLS, numa fase em que o mexicano Carlos Vela estava em grande forma nos Los Angeles FC (21 golos em 22 jogos). O avançado sueco não hesitou em responder que sim, considerando a pergunta absurda, dada a diferença de idades entre os dois (Vela tem menos oito anos) e devido ao nível que ainda consegue apresentar quase com 40 anos.

Uns dias depois, os LA Galaxy venciam os Los Angeles FC, por 3-2, num jogo entre rivais da mesma cidade: dois golos de Carlos Vela contra… três de Zlatan Ibrahimović. Após criticar a MLS, dizendo que era “um Ferrari no meio de Fiats”, Ibracadabra fazia magia, ao apontar um hat-trick perfeito (marcou de cabeça, de pé direito e de pé esquerdo): o primeiro golo trata-se de uma verdadeira obra-prima.

Zlatan é uma das grandes estrelas da cidade de Hollywood
Fonte: LA Galaxy

Contudo, Zlatan não atrai os holofotes apenas pelos melhores motivos. Na partida de LA, para além de ter sido preponderante na marcha do marcador, deu uma cotovelada a Mohamed El-Monir , deixando o defesa adversário bastante queixoso. No final do encontro, Ibra foi ainda apanhado pelas câmaras a insultar um dos adjuntos dos Los Angeles FC e voltou a dizer aos jornalistas que não tem nada a provar a ninguém.

Há muito tempo que o caráter conflituoso e arrogante de Ibrahimović é do conhecimento geral. Nunca teve papas na língua e agora, numa liga onde é a maior estrela, está ainda mais longe de sucumbir à modéstia. Os últimos episódios não são, de todo, novidade alguma: em 2016, o sueco perdeu a cabeça e apertou o pescoço ao defesa do Fenerbahçe, Simon Kjær; fora das quatro linhas, a lista de frases polémicas proferidas por Ibra vai aumentando sem fim à vista; ainda este mês, afirmou que faria um trabalho melhor no AFC Ajax do que qualquer atual dirigente do clube holandês onde jogou.

Se nós, comuns mortais, vamos tentado dominar com força as pequenas adversidades que temos pela frente, Zlatan, que nas redes sociais se assume como um deus, vai zlataneando no seu próprio universo. A explicação para que este neologismo não seja usado por mais ninguém a não ser pelo próprio Zlatan, afinal de contas, é simples: a persona criada por Ibrahimović é de tal forma única que seria uma falta de respeito tentarmos apropriar-nos de uma expressão do mesmo. Que dominemos, então, com força esta necessidade de zlatanear que até agora desconhecíamos. Não vá o sueco chatear-se.

Foto de Capa: LA Galaxy

artigo revisto por: Ana Ferreira

Comentários