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O Steaua Bucuresti de Valentin e o FCSB de Becali

Joel Amorim · 5 min

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Cabeçalho Futebol Internacional

A poucos dias da visita a Lisboa para medir forças com o Sporting CP com vista a um lugar na fase de grupos da liga milionária, abrimos o caderno de notas da história para conhecer um pouco melhor o Steaua Bucuresti, agora conhecido como FCSB (Fotbal Club Steaua București).

Ser treinador do FCSB é, possivelmente, uma das tarefas mais complicadas do mundo, não pelo grau de exigência que é imputado à equipa, nem pela lembrança de um passado glorioso, mas sim pela difícil convivência com o dono do clube, Gigi Becali, sobejamente conhecido pelo seu temperamento verdadeiramente irascível e por uma profunda vontade de querer, ele próprio, sobrepor-se ao treinador, dando “ideias” sobre como a equipa deve jogar e até sobre os jogadores que devem alinhar em cada encontro. Nicolae Dica, actual técnico da formação da capital romena, regressou ao clube esta temporada depois de já o ter representado em várias ocasiões no passado, primeiro como jogador e mais tarde como treinador adjunto, e ele próprio já teve de lidar com os comentários “menos próprios” do todo poderoso Gigi Becali. Dica é apenas mais um nome na longa lista de treinadores que orientaram equipa nos últimos anos e os resultados, em conjunto com a sua paciência, ditarão o tempo que irá aguentar à frente do outrora poderoso emblema romeno.

Muito antes do despotismo megalómano de Becali, o Steaua Bucuresti, quando ainda se designava por este nome, teve nas suas fileiras, numa função de presidente não oficial, uma vez que o clube pertencia às forças armadas romenas, um homem, de seu nome Valentin Ceausescu, que viria a mudar para sempre a história do emblema da capital romena. Valentin, filho do tirano Nicolae Ceausescu, era em tudo diferente do seu pai e primou desde sempre por ser um homem discreto e bastante modesto, como afirmou Victor Piturca, antigo avançado e treinador do Steaua Bucuresti, numa entrevista à Reuters em 2001. Valentin foi uma peça chave do glorioso Steaua Bucuresti que em Maio de 1986 venceu o FC Barcelona para se tornar a primeira equipa romena a vencer a Taça dos Clubes Campeões Europeus (actualmente, Liga dos Campeões).

Valentin Ceausesco há alguns anos a esta parte Fonte: FC Steaua București
Valentin Ceausescu há alguns anos a esta parte
Fonte: FC Steaua București

O antigo treinador do Sporting CP e antigo médio criativo da formação romena, Laszlo Bölöni, não tem dúvidas em afirmar que Valentin era um homem à frente do seu tempo e que aquilo que o Steaua Bucuresti alcançou na década de 1980 foi fruto do trabalho de Valentin. Para além de Bölöni, todos, ou quase todos os jogadores dessa geração de ouro do Steaua Bucuresti afirmam de forma categórica que houvesse mais pessoas como Valentin e o futebol romeno não estaria hoje tão pobre como na verdade está.

No Outono de 1985, segundo Bölöni, Valentin surpreendeu toda a equipa ao dizer-lhes que achava que eles podiam vencer a competição, antes da primeira partida frente ao Vejle da Dinamarca. Valentin não interferia nas tácticas da equipa, como gosta de lembrar Anghel Iordanescu, também ele antigo jogador e treinador do Steaua Bucuresti, mas contribuía com ideias positivas para o desenvolvimento da equipa, fosse nas condições financeiras e de trabalho dos seus jogadores, fosse nas suas vidas privadas.
Valentin era filho do presidente do país e por esse motivo muito se especulou sobre a sua ingerência nos resultados conseguidos pelo Steaua Bucuresti, que esteve, a título de exemplo, três temporadas sem sofrer qualquer derrota nas competições domésticas.

Helmuth Duckadam, o gigante guarda-redes romeno que defendeu todas as grandes penalidades apontadas pelo FC Barcelona na final de 1986, garante de forma categórica que Valentin nunca usou o facto de ser filho do presidente para manipular resultados, nem muito menos usou a sua influência junto da família e do partido para alterar fosse o que fosse. Duckadam garante que Valentin era um amigo para todos e falava de coração aberto com todos. Este sentimento de Duckadam é partilhado pela maioria dos antigos companheiros que ainda hoje em dia mantêm uma relação de amizade com Valentin.

Outro grande nome do futebol romeno, Marius Lacatus, acredita que Valentin fez com poucos recursos pelo Steaua Bucuresti aquilo que Silvio Berlusconi fez pelo AC Milan com quantias astronómicas de dinheiro.

Valentin terá alegadamente chegado a um acordo de princípio com a Juventus no final da década de 1980 para a venda do lendário Gheorghe Hagi. O acordo que, para além da óbvia componente financeira, traria benefícios para o próprio país, uma vez que os dirigentes do emblema italiano se haviam comprometido a instalar uma unidade fabril da FIAT nos arredores da capital romena, algo que, tivesse acontecido, teria sido inédito naqueles tempos. A transferência, no entanto, terá sido bloqueada pelo aparelho do partido e pelo respectivo governo romeno liderado com mão de ferro pelo seu próprio pai.

Valentin Ceausescu (na fila do meio com casaco em xadrez) com equipa do Steaua Bucuresti em 1986 Fonte: FC Steaua Bucuresti
Valentin Ceausescu (na fila do meio com casaco em xadrez) com equipa do Steaua Bucuresti em 1986
Fonte: FC Steaua Bucuresti

Após a morte por fuzilamento dos seus pais, Valentin terá escapado à morte certa à custa dos seus jogadores, que não só o defenderam publicamente, como lhe deram abrigo nas suas próprias casas, nos tempos agitados que se seguiram à queda do ditadura de Ceausescu. Valentin deixou de ter uma presença activa no futebol na Roménia pós-Ceausescu, ainda que aqui e ali servisse de mentor tanto a Bölöni como a Piturca, quando estes lideravam a selecção romena. Valentin manteve até aos dias de hoje uma vida modesta e longe do rebuliço dos meios de comunicação, dedicando-se quase em exclusivo ao seu trabalho como físico nuclear, sendo apenas visto em público enquanto toma café com os seus antigos jogadores e amigos ligados ao futebol romeno.

É difícil, ou praticamente impossível, tecer comparações entre o actual FCSB de Gigi Becali e o Steaua Bucuresti de Valentin Ceausescu. Valentin liderava e organizava uma equipa recheada de grandes jogadores e com uma vontade férrea em se afirmar numa Europa do futebol, também ela dividida por ideologia política, e que venceu, entre outras coisas, uma Taça dos Clubes Campeões Europeus e uma Supertaça Europeia, enquanto Becali comanda uma equipa que, apesar de muitos recursos financeiros ao dispor, prima pela desorganização e pela instabilidade constante, limitando-se a conquistar títulos domésticos, ainda que não de forma consecutiva nem consistente.

O FCSB dos dias de hoje, ao contrário do Steaua Bucuresti dos anos 80, pouco poderá fazer diante do melhor Sporting CP, que, num dia de total acerto, ultrapassará o outrora poderoso emblema romeno sem grandes complicações à mistura. O futebol, no entanto, não é uma ciência exacta e os leões não deverão ser condescendentes, uma vez que e, como afirmou Nicolae Dica recentemente, a presença na fase de grupos da Liga dos Campeões é um dos grandes objectivos da equipa.

Foto de Capa: FC Steaua Bucuresti

Em parceria com O Bloco de Leste

Joel Amorim

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