Os clubes são dos adeptos… e do dinheiro

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“Estalou o verniz” em Inglaterra com o pedido para que a lei do “50+1” seja imposta nos clubes da Liga, como já existe na Liga Alemã.

Na Alemanha, a regra é muito simples: 51% das ações do clube pertencem a este e os investidores apenas podem ter um máximo de 49%, sendo que quem não a cumprir não pode competir na primeira e segunda divisão da Liga Alemã. Esta regra vem permitir que os adeptos possuam a decisão maioritária no que diz respeito ao clube.

A questão da Superliga Europeia apenas veio dar mais combustão à discussão sobre a imposição desta regra em Inglaterra, pois a maioria dos adeptos mostrou-se contra a competição e levantou as vozes contra os donos dos clubes, sendo que o pico de exaltação teve lugar em Manchester, horas antes do jogo entre o Manchester United FC e o Liverpool FC, em que vários adeptos invadiram o estádio e quebraram todos os protocolos de segurança.

Em Inglaterra, a maioria dos clubes possuem donos que investem e tomam as decisões sobre estes, algo que não agrada aos que defendem que este poder lhes deve pertencer e, para tal, ser imposta a lei do “50+1”. É claro que há muitas comparações a serem feitas com a Alemanha, no entanto nem tudo são mares de rosas, pois desde 1998 (ano em que foi imposta a regra no país germânico) já se discutiu bastante o término desta regra e foram abertas exceções e apresentados argumentos válidos.

É verdade que os clubes sem os adeptos não são nada e nunca se deve esquecer isso. Este ano de pandemia tem servido para mostrar que um estádio de futebol sem as bancadas cheias não é a mesma coisa e o espetáculo é mais pobre. No entanto, não nos podemos esquecer que continua a ser um negócio de milhões e, para tal, é necessário que dinheiro seja investido. A regra dos “50+1” é, portanto, uma “faca de dois gumes”, ora pois de um lado temos a vertente da competitividade, e do outro temos a venda do clube e, por vezes, de tudo o que ele representa, entre eles os adeptos.

A decisão da venda tem de pertencer sempre aos adeptos, e mesmo quando estes acabam por ser comprados devem ter sempre uma quota parte e uma palavra a dizer no que diz respeito a decisões importantes, mas sejamos sinceros: nunca ninguém iria investir numa maioria do clube caso não pudesse tomar as decisões. São milhões que são colocados no clube e que, por vezes, são riscos que se tomam e por isso é necessário receber algo em troca.

Todavia, estes investidores nunca irão vender a cultura e o caráter de um clube, pois esse está entranhado e é passado de geração em geração pelos adeptos, e enquanto estes existirem um clube nunca morrerá nem será esquecido.

Não considero que o “50+1” seja a única solução, pois não é isso que coloca os preços dos bilhetes mais baratos ou faz com que um clube se torne melhor. Se olharmos para Inglaterra vemos muitos clubes nos quais a sua venda trouxe impactos importantíssimos e totalmente positivos para o futebol, como é o caso do Manchester City FC ou do Wolverhampton Wanderers FC. Mas também não nos podemos esquecer das origens da modalidade e de muitos dos clubes ingleses: as classes operárias, que jogavam por prazer.

Acredito que existam investidores que amem os clubes e vejam um amor juntamente com o dinheiro, no entanto nem todos são esses casos e, quando o dinheiro se sobrepõem a tudo o que é acreditado e defendido, não se pode aceitar. Se referi em cima que o futebol é um negócio de milhões e que estes podem trazer mais competitividade, também acho que essa qualidade pode ser adquirida, sem que o clube seja vendido e tendo a massa associativa uma voz nas decisões.

Outra questão que se coloca é o futuro dos donos dos clubes de futebol, uma vez que a lei poderá ser discutida a nível nacional e legislativo e estes já viram os seus investimentos feitos. No caso alemão, o Bayer 04 Leverkusen e o VfL Wolfsburg continuaram a ter os seus investidores, pois estes já tinham um investimento e interesse há mais de 20 anos o que os isentou da regra. Em Inglaterra, o caso poderia ser igual, embora eu acredite que não seja assim tão fácil, porque nenhum investidor vai vender as suas ações e abdicar do facto de serem donos dos clubes, e nem mesmo os adeptos terão dinheiro para recomprar ou indemnizar os donos pela sua saída.

Sim, o futebol é dos adeptos e são estes que trazem o amor e a dedicação ao clube, mas não é esse amor que compra os jogadores e que faz com que equipas se tornem competitivas a longo prazo. Não acredito que a lei do “50+1” seja aprovada e, se for, nunca irá ser tão simples quanto se julga. Contudo, outra regra certamente irá ser criada para que exista um maior bem-estar entre os adeptos e os donos atuais dos clubes.

Neste momento em que nenhuma lei é aprovada e que o impasse continua é necessário que os donos dos clubes respeitem os adeptos e as suas decisões, que não se esqueçam que são estes quem compra os produtos do clube, que são estes que enchem os estádios e que, principalmente, são eles o clube, pois os jogadores e dirigentes passam, mas os adeptos ficam.

João Maravilha
João Maravilhahttp://www.bolanarede.pt
Pós graduado em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação, é no desporto que possui um dos maiores amores, com especial atenção ao futebol. Ávido adepto da Primeira Liga nacional, mas é na Premier League que encontra o futebol que mais ama e assiste.Tem como grande objetivo singrar no mundo do jornalismo desportivo.                                                                                                                                                 O João escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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