Cabeçalho Futebol Internacional

Situada a 500km da capital Estocolmo, a gélida cidade de Ostersund tem pouco mais de 50 mil habitantes, mas saltou para as bocas da Europa graças ao enorme feito do seu clube local: não só se conseguiu apurar para a fase de grupos da Liga Europa, como também para os 16-avos-de-final da competição.

Este feito ganha ainda mais repercussão tendo em conta que em 2010 o clube esteve para fechar portas depois de ter caído para a quarta divisão do futebol sueco. E foi precisamente nesse ponto que o conto de fadas iniciou. Mas recuemos até 1996, ano da fundação do clube. A “Cidade da Neve” como é conhecida Ostersund, devido às baixas temperaturas registadas durante todo o ano, com especial incidência no inverno, em que um dia normal tem temperaturas a rondar os vinte graus… abaixo de zero (!!!), queria formar um clube competitivo que fosse capaz de elevar o nome da região e representá-la na divisão maior do futebol sueco. Para tal, fez a junção de quatro pequenos clubes locais que jogavam nas divisões inferiores – Ope IF, IFK Ostersund, Torvala FF e Frosso IF – e surgiu a personagem principal deste conto, o Ostersunds FK.

No entanto, os primeiros anos não foram tão áureos quanto esperavam os responsáveis deste clube, pois este não conseguia passar da terceira divisão nacional, isto apesar de terem uma parceria com o Swansea City que incluía empréstimos de jovens jogadores dos galeses, fruto das boas relações de Daniel Kindberg (diretor do OFK) com Roberto Martinez e Graeme Jones (antigos treinador e treinador-adjunto dos galeses).

Quando, 14 anos depois da sua formação, o clube volta à estaca inicial (quarta divisão), a maior parte das pessoas desacreditaram no projeto e o responsável por não o deixar morrer foi o próprio Daniel Kindberg, que procurou apoio nas empresas locais e conseguiu apoio financeiro necessário para recrutar um staff a tempo inteiro e um treinador com outros conhecimentos: o inglês Graham Potter, que enquanto jogador passou pelas divisões secundárias do futebol inglês, mas que também teve uma passagem pela Premier League ao serviço do Southampton. Terminada a carreira, formou-se em ciências sociais e tirou uma pós-graduação em liderança e inteligência emocional. Treinava equipas universitárias quando Graeme Jones lhe apresentou o projeto do Ostersunds. Acabaria por rumar aquela cidade sueca no inicio de janeiro de 2011 e deu início ao conto de fadas.

Anúncio Publicitário

Em dois anos, os comandados de Graham Potter ganharam a terceira e quarta divisões, chegando à Superettan, a segunda divisão sueca, altura em que o inglês renovou contrato com os escandinavos. Nesta divisão mais competitiva, o Ostersunds FK deparava-se com problemas de recrutamento de jogadores, pois nem todos os jogadores locais tinham nível para esta divisão e os restantes jogadores suecos recusavam-se a mudar para aquela cidade devido ao clima hostil. A solução passou por jogadores ocidentais, sobretudo britânicos, e de mercados alternativos, com a chegada de muitos jogadores africanos e orientais, destacando-se Modou Borrow que, mais tarde, rumou… ao Swansea.

Legenda: O Ostersunds FK conquistou a taça da Suécia no início deste ano e graças a isso teve acesso à Liga Europa, onde ainda continua em competição Fonte: CNN
Legenda: O Ostersunds FK conquistou a taça da Suécia no início deste ano e graças a isso teve acesso à Liga Europa, onde ainda continua em competição
Fonte: CNN

Depois de dois anos na Superettan, em 2015, o Ostersunds FK conseguiu o inédito acesso ao principal escalão do futebol sueco. E a manutenção na Allsvenskan foi alcançada com relativa facilidade, terminando no oitavo posto. O melhor estava reservado para os primeiros meses de 2017, altura em que se realizam as eliminatórias finais da taça da Suécia. O Ostersunds tornou-se a primeira equipa do Norte da Suécia a vencer a taça daquele país, derrotando no seu próprio estádio o IFK Norrköping por quatro bolas a uma e conseguindo o também inédito apuramento para as competições europeias.

Na segunda pré-eliminatória da Liga Europa, dificilmente poderia ter encontrado um adversário mais complicado: o Galatasaray. Quando todos pensavam que seriam “favas contadas” para os turcos, eis que surge a primeira surpresa dos suecos, que aproveitando a sua maior rodagem (o campeonato sueco começa em abril e termina em novembro) e a falta de entrosamento do adversário (estavam ainda no início da pré-época), venceram por duas bolas a zero em casa e empataram a uma bola no sempre complicado ambiente turco, na segunda mão. Na pré-eliminatória seguinte, levaram de vencidos os luxemburgueses do Fola Esch com um agregado de 3-1. Já no playoff, o sorteio ditou uma eliminatória com o PAOK, da Grécia, que era amplamente favorito, favoritismo esse que confirmou na primeira mão, em casa, onde venceu por 3-1. No entanto, os nórdicos conseguiram o apuramento inesperado, triunfando por 2-0, com os golos a serem apontados já nos últimos vinte minutos. Um feito que tem tanto de improvável como de incrível, sendo o único representante sueco na fase de grupos das competições europeias esta época.

Na fase de grupos, a tarefa adivinhava-se difícil, mas ainda mais ficou quando calhou em sote um representante alemão (Hertha) e um espanhol (Athletic), e ainda os ucranianos do Zorya. No entanto, o Ostersunds começou logo bem, com uma vitória na Ucrânia e o fator casa foi essencial, pois só o Athletic conseguiu levar da Jämtkraft Arena um ponto. Mais, o Ostersunds foi a primeira equipa do grupo a conseguir o apuramento, chegando à última jornada da fase de grupos no topo da tabela! Quem diria que uma equipa que entra na competição na 2ª pré-eliminatória irai conseguir chegar aos 16-avos-de-final com este à vontade todo?

Mas nada disto acontece por acaso, por trás disto tudo há muito trabalho e muito suor. Começando por dentro das quatro linhas, engane-se quem pense que, lá por não ter a dimensão ou os recursos de outros clubes, o Ostersunds é uma equipa que se remete à defesa, apostando no autocarro à frente da baliza. Muito pelo contrário, como podemos confirmar pelas palavras do treinador, Graham Potter “Jogamos para nos expressarmos. É assim que a nossa equipa gosta de jogar. Nós gostamos de passar a bola, de jogar futebol que as pessoas gostem de ver. Queremos que as pessoas queiram ver-nos ver jogar. Futebol é um entretenimento. Não queremos copiar ninguém, queremos jogar bom futebol de ataque, construir uma identidade de que as pessoas se orgulhem”. Cá está, é possível conjugar um futebol atrativo e resultados. É possível criar uma identidade própria e mantê-la independentemente das circunstâncias. Mas para isso é também necessário ter bons executantes, como é o caso da estrela da equipa, o iraniano Samman Ghoddos que apontou 13 golos esta época, ou do iraquiano Nouri, capitão de equipa e esteio do meio campo nórdico.

A cumplicidade que se denota dentro de campo é construída fora deste, sendo o clube pioneiro numa forma bastante peculiar de integração dos jogadores: a realização de atividades culturais, desde workshops de teatro, canto, dança e leitura, que visam fortalecer a coesão do grupo e também colocar os jogadores fora da sua zona de conforto, para que possam arranjar alternativas e confiarem mais em si próprios, transpondo, claro, isso para dentro do campo.

O sonho permanece vivo para o estreante Ostersunds FK. O “Arouca sueco” (pela ascensão meteórica e acesso à Liga Europa) tem pela frente o “modesto“ Arsenal na próxima eliminatória. Está certo que, teoricamente, os sorteios nunca são favoráveis a esta equipa. No entanto, defrontar um dos grandes do futebol europeu é um motivo de orgulho para esta equipa. E mesmo desportivamente, o Arsenal que se cuide, até porque o jogo na Suécia está marcado para início de Fevereiro, altura em que se esperam… 20 graus negativos.

Foto capa: CNN