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O RESCALDO

Foi no Nuevo Gasómetro, em Buenos Aires, que na última noite se voltou a escrever uma página dourada da história de um dos clubes mais apaixonantes da América do Sul. Depois do empate a 1 em casa do Club Nacional Assunción, do Paraguai, na primeira mão da final da mais importante competição de clubes da América, o San Lorenzo confirmou o seu favoritismo e bateu em casa o conjunto paraguaio por 1-0, conquistando, pela primeira vez, a Taça Libertadores da América.

Como não podia deixar de ser, os adeptos da equipa azul grená deram mais um exemplo daquilo que é o verdadeiro espectáculo de futebol: colorido, apaixonado e com doses desmesuradas de uma loucura saudável. Tudo em prol de um só objectivo: a conquista da história. Empurraram a equipa e a equipa deu-lhes a maior das alegrias. Como?

Esquema táctico das equipas no jogo da 2ª mão da final  Fonte: soccerway.com
Esquema táctico das equipas no jogo da 2ª mão da final
Fonte: soccerway.com

Ao contrário do que era expectável, não foi o San Lorenzo que entrou mais forte na partida. O conjunto paraguaio, sempre muito organizado, surpreendeu a equipa argentina e podia ter inaugurado o marcador logo na madrugada do jogo, se o remate de Derlis Orué não tivesse embatido caprichosamente no poste. Ao contrário do que evidencia a figura, o San Lorenzo dispôs-se de forma mais próxima de um 4-2-3-1, com Romagnoli como nº 10, Cauteruccio a partir da esquerda (no lugar do recentemente transferido Piatti) e Matos a surgir na posição ‘9’. De todo em todo, o maior dos problemas estava atrás: a dupla de centrais Cetto e Gentiletti evidenciou uma ‘tremideira’ jamais vista e o duplo pivot composto por Mercier e Ortigoza, na tentativa de proteger o eixo central, recuava em demasia, abrindo brechas e possibilitando que os jogadores paraguaios aplicassem, por mais do que uma vez, a meia distância.

De facto, a equipa do Nacional apresentou-se sempre muito compacta e organizada, segura de si (ao contrário do que apresentou na primeira mão), dando poucos espaços e controlando as unidades mais perigosas do San Lorenzo – excepção, talvez, a Romagnoli, que teve sempre o condão de se libertar e tomar as melhores decisões. Um conjunto que se pauta por processos ofensivos simples, muitas vezes através de jogo directo, e que tem em Juilán Benitez um jogador com características muito interessantes – rápido, objectivo e com qualidade técnica – em Mendoza um defesa sólido e em Brian Montenegro (apenas entrou na 2ª parte) um elemento com potencial. Se estes elogios me parecem merecidos, já a palavra a Ramón Coronel só poderá ser negativa – o defesa direito da equipa paraguaia cometeu um penalty infantil à passagem do minuto 35 e foi isso que permitiu a Ortigoza fazer avançar o San Lorenzo rumo à conquista do ceptro.

Ortigoza, de penalty, assinou o tento da noite  Fonte: jornaldebrasilia.com.br
Ortigoza, de penalty, assinou o tento da noite
Fonte: jornaldebrasilia.com.br

A partir de então, o jogo foi mudando gradualmente: o San Lorenzo tentou assentar mais o seu futebol (ainda que longe das exibições que chegou a rubricar em eliminatórias anteriores) e o Nacional foi perdendo a crença nas suas acções e no atingir do seu propósito. As excepções, aqui e ali, eram as incursões de Benitez (sobretudo pela esquerda) como aconteceu ao minuto 44 – remate em jeito que não deu golo por centímetros – e as tentativas, sempre infrutíferas, de aplicar a meia distância. Mesmo com um jogo menos largo e profundo do que o habitual – Cauteruccio não é Piatti e a asa direita esteve longe do fulgor de outras partidas –, o San Lorenzo soube controlar a partida muito graças à acção de Romagnoli. O argentino – lento, é certo – é o playmaker da equipa, joga e faz jogar, raramente tomando uma má decisão. Foi ele que agarrou na equipa, vulgarizou a impossibilidade da omnipresença e trouxe o San Lorenzo para um nível mais próximo dos padrões habituais. Ainda que não imune ao sofrimento, como ao minuto 78 – explorando o futebol directo, o Nacional teve a melhor das oportunidades para igualar o jogo, algo que só não aconteceu porque o remate de Bareiro encontrou a (milagrosa) perna de Gentiletti.

Até ao seu desenlace, ainda que vivo e intenso, o jogo não ofereceu mais situações de iminência de golo, sobretudo porque a ansiedade e o nervosismo tomaram conta das acções de ambas as equipas (mais da paraguaia), e também porque o San Lorenzo, apesar de tudo, soube ter mais discernimento e capacidade de gestão da bola e dos tempos de jogo. A consagração colectiva estava cada vez mais próxima mas haveria ainda lugar à consagração individual: ao minuto 88, Romagnoli foi substituído por Kannemann, com todo o estádio de pé a reverenciar Pipi e com o pequeno astro ex-Sporting a não controlar as lágrimas. Um momento que espelha a forma intensa como o San Lorenzo é vivido, num verdadeiro espectáculo da essência do jogo.

Pipi Romagnoli foi a maior figura da partida  Fonte: Yahoo.com
Pipi Romagnoli foi a maior figura da partida
Fonte: Yahoo.com

O apito final do árbitro Sandro Ricci foi apenas o catalisador da implosão do Novo Gasómetro. Numa noite gélida na capital argentina, novos, velhos, gordos, magros, com e sem frio… todos festejaram, todos cantaram, (quase) todos choraram, todos eles imbuídos do mesmo espírito e do mesmo sentimento de pertença a uma causa e a um clube tão especiais. Um clube que, tão grande que é, se tornou agora ainda maior.

O TRAJECTO

O trajecto do San Lorenzo até à vitória final na Libertadores terá de ser, obrigatoriamente, dividido em duas fases. Enquadrada no Grupo 2, junto de Botafogo (Brasil), Unión Española (Chile) e Independiente del Valle (Equador), a equipa argentina sofreu para passar, apenas o fazendo em 2º lugar, fruto de duas vitórias, dois empates e duas derrotas – somando, por isso, 8 pontos. A partir de então, e entrando na fase do ‘mata-mata’, a equipa demonstrou outra capacidade.

Os oitavos-de-final trouxeram-lhe o primeiro dos testes de fogo, diante do Grémio de Porto Alegre (Brasil). Dois jogos muito equilibrados, com vitórias tangenciais de cada uma das equipas (1-0), levou a que a passagem à fase seguinte fosse decidida através de grandes penalidades – aí, o San Lorenzo foi mais competente, convertendo quatro e vencendo por 4-2. A etapa seguinte prometia ser ainda mais complicada; o adversário era o Cruzeiro, a melhor equipa brasileira da actualidade. Com um golo do central Gentiletti, os argentinos venceram, em casa, por 1-0, resultado interessante mas curto. A 2ª mão, em Belo Horizonte, foi, todavia, a maior prova da fibra e consistência desta equipa argentina: entrou muito forte no jogo e marcou cedo por Piatti, numa belíssima jogada colectiva. Depois disso soube ser uma verdadeira equipa: coesa, organizada e agressiva, criando muito perigo nas transições ofensivas (sobretudo pelo lado direito). Nem mesmo o golo do Cruzeiro e a expulsão de Romagnoli num espaço de cinco minutos deitaram por terra o sonho da equipa (tão bem) comandada por Edgardo Bauza. Neste sentido, eliminar o Cruzeiro foi a assunção da candidatura ao título, plenamente confirmada na eliminatória diante do Bolívar (Bolivia) – numa exibição irrepreensível, o San Lorenzo derrotou a equipa boliviana por 5-0 (!) em casa, dando-se ao luxo, na 2ª mão, de jogar de forma tranquila e, até, de perder (1-0 foi o resultado).

A festa dos argentinos depois do desempate por grandes penalidades frente ao Grémio  Fonte: zimbio.com
A festa dos argentinos depois do desempate por grandes penalidades frente ao Grémio
Fonte: zimbio.com

A EQUIPA

Vencedora do Torneio Apertura em 2013/2014 pela mão de Juan Antonio Pizzi (imediatamente antes de sair para o Valência), Edgardo Bauza tomou as rédeas da equipa e levou-a à mais importante conquista da sua história. Não será difícil destacar as figuras individuais que fizeram desta uma equipa maior; todavia, o San Lorenzo é também a prova de que o conjunto é superior à soma das individualidades.

De facto, Bauza ficou, em variados momentos, privado de vários elementos: a dupla de centrais teve quase sempre Gentiletti mas o seu parceiro foi alternando entre Carlos Valdés (colombiano que esteve presente no Mundial mas que teve de regressar ao clube de origem, Philadelphia Union), Cetto (jogou a 2ª mão da final mas esteve lesionado durante bastante tempo) e Fontanini; Ángel Correa, jovem médio de 19 anos, foi um dos pilares da equipa na fase inicial da campanha mas acabou por sair antes da meia-final para o Atlético de Madrid; e, por fim, Ignazio Piatti, titular indiscutível no lado esquerdo do ataque, e que, por ter sido vendido ao Monreal Impact, acabou por falhar o jogo decisivo. Mesmo com todas estas contrariedades em elementos importantes do plantel, Bauza montou um conjunto muito sólido e organizado, com uma grande quantidade de elementos experientes e com as pitadas certas de irreverência no jogo.

Edgardo Bauza venceu pela segunda vez a Taça Libertadores  Fonte: am950belgrano.com
Edgardo Bauza venceu pela segunda vez a Taça Libertadores
Fonte: am950belgrano.com

Ao longo da competição, o San Lorenzo dispôs-se, como nos dois jogos da final, quase sempre em 4-2-3-1. A equipa raramente se desposiciona e assenta num duplo pivot muito interessante: Ortigoza e Mercier, jogadores experientes, ocupam muitíssimo bem os espaços, têm pulmão e intensidade, e equilibram a equipa, permitindo aos dois laterais (Buffarini pela direita e Más pela esquerda) subirem no terreno com grande à-vontade – o primeiro, aliás, destaca-se pela fibra e energia que coloca no jogo, é veloz, agressivo, com grande capacidade técnica e de cruzamento. Para além de tudo mais, combina perfeitamente com Villalba: o ‘miúdo’ do San Lorenzo (19 anos) tem recursos técnicos infindáveis, um poder de explosão assombroso e é o homem certo para desmantelar defesas mais profundas, através do um para um; quando maturar e melhorar os índices de tomada de decisão, só continuará na Argentina se não houver companhias aéreas na América do Sul. No último terço do terreno emergiram ainda Romagnoli e Correa: o primeiro, que todos nós conhecemos, mantém as qualidades técnicas intactas e é hoje um jogador mais refinado; Correa é, a par de Villalba, o projecto de jogador mais interessante – o ‘Atleti’ não perdeu tempo e assegurou este jovem muito móvel e oportuno, que pode actuar como nº 10 ou como segundo avançado. Por último, uma referência a Matos – o nº 26 do San Lorenzo não é um ponta-de-lança exuberante; todavia, tem uma enorme qualidade de movimento (sabe abrir espaços para os companheiros), segura a bola e tem índices de finalização interessantes. A menção final cabe a Edgardo Bauza: depois de vencer a competição em 2008 pela LDU de Quito, este técnico argentino construiu uma equipa muito interessante do ponto de vista da organização – europeia, num certo sentido – e que não padece de alguns vícios típicos da equipa sul-americana, como a lentidão, a falta de agressividade e a velocidade. Pelo contrário, a equipa do San Lorenzo, ao longo desta caminhada, surpreendeu muitos dos seus adversários pela forma rápida e imprevisível como no último terço decidia e definia as jogadas. Uma boa ideia de jogo consolidada e corporizada por várias individualidades interessantes. No fim? Eles são loucos da cabeça e são os campeões dos campeões!

 

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