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Um golo de Roman Shirokov foi quanto bastou para derrotar o Portugal de Fernando Santos no passado Sábado em Krasnodar, no sudeste Rússia. O médio de 34 anos e capitão da selecção russa é um dos pilares da “nova” Rússia de Leonid Slutsky e é visto por muitos como um dos mais talentosos jogadores daquele país do leste europeu. Shirokov é uma espécie de rebelde sem causa no futebol, desporto no qual já fez de tudo um pouco.

Em 2008, aquando da sua bem-sucedida passagem pelo FC Zenit, o seu treinador da altura, o holandês Dick Advocaat, afirmou que Roman poderia facilmente tornar-se no melhor defesa a actuar na liga russa, mas Shirokov, na sua habitual forma de estar, altamente desafiadora, respondeu ao elogio dizendo que não queria ser defesa, mas sim o melhor médio do país. Não poucas vezes, Shirokov foi utilizado como defesa central durante os seis anos que representou o emblema de São Petersburgo, mas foi seguramente numa posição mais adiantada do terreno (como armador de jogo à frente do quarteto defensivo) que o actual médio do Spartak Moscovo conheceu os momentos de maior glória da sua já longa carreira.

Até 2004, ano em que conheceu a sua actual companheira Katya, Shirokov fez de tudo um pouco para destruir a sua carreira futebolística. Insultou treinadores, adeptos e colegas de equipa, fingiu ter partido uma perna após se ter ausentado (sem autorização) dos treinos da sua equipa durante cerca de dois meses, e passou, para além disso, noites atrás de noites a beber até cair.

Apesar de tudo isto, Shirokov é, e  já na fase descendente da sua carreira, o motor da primeira zona de construção da “nova” Rússia de Leonid Slutsky (que sucedeu a Fabio Capello há uns meses atrás) e forma, habitualmente ao lado de Igor Denisov, o bloco mais recuado do meio-campo russo.

Roman Shirokov, um estranho caso de sucesso no futebol russo Fonte: imgkid.com
Roman Shirokov, um estranho caso de sucesso no futebol russo
Fonte: imgkid.com

Slutsky, pragmático e sempre fiel a si próprio, implementou na selecção russa o estilo de jogo que frequentemente exibe no CSKA Moscovo: um 4-2-3-1 com as linhas bastante juntas e alimentado por trocas de bola rápidas com o intuito de explorar a velocidade dos extremos, ou falsos extremos, e com uma defesa aguerrida e bastante posicional, que geralmente sofre poucos golos. Para além de Shirokov e Denisov, Slutsky conta também no meio-campo com jogadores de bitola mundial, como são o caso de Alan Dzagoev, aclamado pela crítica como um dos melhores jogadores russos da última década até um par de anos atrás, e Aleksandr Samedov, o experiente extremo do Lokomotiv Moscovo, que atravessa actualmente um bom momento de forma. Do lado esquerdo, com funções não tanto de extremo mas mais como um segundo avançado a procurar de forma persistente posições interiores, Slutsky utiliza, geralmente, Aleksandr Kokorin, o talentoso jogador do Dynamo Moscovo que, no entanto, falhou o jogo contra Portugal por se encontrar lesionado.

A zona intermédia é, como sempre foi durante a sua história (ou seja, quer como parte integrante da URSS, quer como país independente), o ponto mais forte da selecção russa. Para além dos jogadores acima referidos, Leonid Slutsky, conta ainda com atletas bastante talentosos como são os casos de Denis Glushakov, Denis Cheryshev, Pavel Mamaev, Oleg Shatov e o próprio Maksim Kannunikov, que apesar de ser um avançado de raiz, pode também actuar com funções de extremo ou de segundo avançado. Lá na frente, tem sido Artem Dzyuba o eleito de Slutsky e o novo avançado do FC Zenit, tantas e tantas vezes envolto em polémicas das mais diversas espécies, tem dado muito boa conta de si.

Leonid Slutsky, o timoneiro da “nova” Rússia Fonte: news.sportbox.ru
Leonid Slutsky, o timoneiro da “nova” Rússia
Fonte: news.sportbox.ru

Para além de pragmático, Leonid Slutsky é um treinador altamente conservador, muito pouco dado à inovação de processos e a grandes mexidas na equipa. O sector defensivo do conjunto russo é uma prova desse mesmo conservadorismo e Slutsky não hesitou em transportar os processos e ideias que implementou no CSKA durante estas últimas épocas para esta nova aventura na sua carreira. Igor Akinfeev é a muralha de aço do bloco defensivo e sofreu apenas um golo nos cinco jogos já decorridos após Slutsky ter tomado conta da selecção russa. O quarteto defensivo conta ainda com a experiência do trio do CSKA Moscovo, Aleksei Berezutski, Vasili Berezutski e Sergei Ignashevich, todos eles bem acima da casa dos 30 anos. Nas laterais fazem-se notar Yuri Zhirkov, o antigo ala do Chelsea que está actualmente ao serviço do Dynamo Moscovo, e Oleg Kuzmin, o defesa direito e capitão do Rubin Kazan, que tem estado em particular destaque esta temporada na liga russa, ambos também já acima dos 30 anos.

Leonid Slutsky herdou uma selecção sem garra e sem fio de jogo e apenas em cinco jogos conseguiu levar a cabo importantes transformações no âmago da equipa. O facto de ter vencido todos os jogos que disputou como seleccionador russo e de ter conseguido garantir um lugar no campeonato da Europa no próximo ano não pode ser de forma alguma menosprezado, mas ao mesmo tempo é legítimo dizer-se que esta Rússia actual é, de certa forma , um corte com a essência do futebol daquele país. Aquele modelo de jogo baseado na posse de bola efectiva, com passes curtos e com movimentações constantes, herdado do Passovotchka de Boris Arkadyev, mais tarde desenvolvido e readaptado por Konstantin Beskov, Oleg Romantsev e até certo ponto também por Anatoliy Byshovets (técnico campeão olímpico com a URSS em 1988, que teve uma breve passagem pelo Marítimo SC em 2003) desapareceu por completo, deixando assim a selecção russa orfã de uma marca muito própria, que a acompanhou ao longo de várias décadas e que possivelmente desapareceu por completo após a saída de Guus Hiddink em 2010.

Uma Rússia mais unida após a chegada de Leonid Slutsky  Fonte: news.sportbox.ru
Uma Rússia mais unida após a chegada de Leonid Slutsky
Fonte: news.sportbox.ru

A irreverência de Shirokov, o pragmatismo de Slutsky e a experiência de quase uma dezena de jogadores acima dos 30 anos de idade são a imagem da “nova” Rússia que, face à incapacidade dos seus recentes seleccionadores em renovar a equipa, optou por um corte evidente com os seus princípios de jogo mecanizados, para assim se manter à tona do futebol do velho continente.

Foto de Capa: news.sportbox.ru 

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