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“Trifon Ivanov irá permanecer na história do futebol búlgaro como um dos melhores defesas de sempre (…). Antes de ser um grande jogador, Trifon era um grande homem com um grande coração e sempre pronto a ajudar…”- Foi com estas sentidas palavras que a Federação Búlgara de Futebol se despediu de Trifon Ivanov, o antigo internacional por aquele país da península dos Balcãs, que faleceu na noite da passada sexta-feira, dia 12 de Fevereiro, vítima de ataque cardíaco.

Trifon Ivanov é um nome que certamente não é estranho a todos aqueles que seguem futebol há pelo menos duas décadas. Se Ivanov é um nome relativamente banal para a parte leste do velho continente, Trifon é quase imediatamente associado àquele defesa central búlgaro das décadas de 1980 e 1990, que tinha um cabelo comprido e mal cortado e uma barba desarranjada que lhe conferiam um ar que misturava rebeldia com um certo quê de desleixo. Trifon era assim, o improvável jogador de futebol profissional, que brilhou ao mais alto nível no Mundial de Futebol de 1994 nos Estados Unidos da América, onde contribuiu – e de que forma! – para que a selecção búlgara atingisse as meias-finais da competição, onde caiu às mãos da poderosa Itália de Roberto Baggio e seus pares.

Trifon Ivanov nasceu em 1965 na chamada cidade dos Czares, a misteriosa e emblemática Veliko Tarnovo, que serviu de capital ao Segundo Império Búlgaro entre o século XII e o XIV. O jovem rebelde começou a sua carreira FC Etar na sua cidade natal, mas aos 23 anos de idade mudou-se para a capital para representar o poderoso PFC CSKA Sofia. Ivanov esteve durante dois anos ao serviço dos Армейците, onde privou, entre outros, com Hristo Stoichkov e Emil Kostadinov, e onde viveu o período no qual o clube havia perdido o direito de se denominar CSKA Sofia e dava pelo nome de Sredets, após a batalha campal na qual se tinham envolvido uns anos antes na final da Taça da Bulgária contra o Levski Sofia.

Trifon Ivanov ao serviço do Real Betis no inicio da década de 1990  Fonte - 7dnifutbol.bg
Trifon Ivanov ao serviço do Real Betis no inicio da década de 1990
Fonte: 7dnifutbol.bg

A queda do governo comunista de Todor Zhivkov e a atribulada transição democrática no antigo aliado de ouro da URSS lançaram a confusão no país e proporcionaram aos futebolistas de maior craveira a possibilidade de prosseguirem as suas carreiras no exterior. Trifon Ivanov assim o fez e em 1990 chegou à Andaluzia para representar o Real Betis Balompié. As “novas liberdades” ocidentais não foram fáceis de assimilar e a experiência de Trifon no emblema da Andaluzia começou da pior forma. Chegar tarde aos treinos, fumar nos balneários e conhecer como ninguém todos os recantos de diversão nocturna da cidade andaluz faziam parte das rotinas de Trifon Ivanov no Real Betis, mas nem por isso os adeptos deixavam de o admirar e de o ter em grande estima. Pouco tempo depois da sua chegada, Ivanov assumiu um peso importante na equipa e a entrega que demonstrava em todos os jogos fez com que chegasse a capitão da mesma. O “Lobo Búlgaro”, como era conhecido à conta do seu aspecto pouco convencional, insultava os adversários, jogava duro, mas com o coração, e, de quando em vez, punha em prática o seu forte pontapé de fora da área, através do qual conseguiu apontar vários golos. Entre 1990 e 1993, Ivanov participou em pouco mais de meia centena de jogos oficiais com o Real Betis, mas a sua indisciplina e a falta de consistência exibicional fizeram com que durante esse período fosse emprestado em duas ocasiões, primeiro ao FC Etar e depois ao PFC CSKA Sofia.

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Ivanov não conseguia encontrar a estabilidade necessária para o desenvolvimento da sua carreira e em 1993 mudou-se de malas e bagagens para o futebol suíço para representar o Neuchâtel Xamax FCS, mas a experiência helvética não durou muito tempo. Em 1995, após mais um empréstimo ao PFC CSKA Sofia, Trifon assinou pelo SK Rapid Wien, onde passou, eventualmente, alguns dos melhores tempos da sua carreira e teve a possibilidade de jogar a final da extinta Taça dos Clubes Vencedores das Taças contra o poderoso Paris Saint-Germain FC, que os gauleses venceram por 1-0 com um golo de Bruno N’Gotty.

Trifon Ivanov a estender a mão a Roberto Baggio no Mundial de 1994 Fonte: revistaplacar
Trifon Ivanov a estender a mão a Roberto Baggio no Mundial de 1994
Fonte: revistaplacar

Ivanov pendurou as botas em 2001, quando representava o Floridsdorfer AC, um clube modesto dos escalões inferiores do futebol austríaco, que era, segundo dizem, propriedade de um amigo seu.

Trifon desligou-se do mundo do futebol e investiu o seu dinheiro no mercado dos combustíveis. Engordou e envelheceu rapidamente, mas nem por isso deixou de fumar e de beber mais do aquilo que devia. A rebeldia dos seus verdes anos continuava lá e nem o facto de uma vez ter alegadamente comprado um tanque de guerra para se divertir com os amigos serviu para saciar esse seu lado mais selvagem. Trifon Ivanov foi um outcast, um homem que o sistema autoritário não conseguiu vergar, mas que também não soube encontrar um espaço para si nas ditas liberdades ocidentais. Trifon foi grande, mas foi grande à sua maneira e a sua morte deixou indubitavelmente o mundo do futebol bastante mais pobre. СБОГОМ, Трифон Иванов! (ADEUS, Trifon Ivanov!)

Foto de Capa: sportnet