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Bamos lá, cambada! | Portugal

Redação BnR · 8 min

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NESTA SEMANA, A NOSSA CRONISTA VIP MÁRCIA RIBEIRO PACHECO FAZ UMA VIAGEM PELO PASSADO DA EQUIPA DE PORTUGAL EM ALGUNS MOMENTOS MARCANTES

MUNDIAL, 2002

Em 2002 eu tinha 13 anos, frequentava o 7.º ano e faltava (injustificadamente) pela primeira vez às aulas devido a Portugal. Acho que os meus pais não chegaram a descobrir, mas se fosse apanhada não hesitaria em pôr a culpa no Figo, no Pauleta, no João Pinto e companhia.

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Portugal defrontava a Coreia do Sul mesmo em cima da minha aula de inglês. A professora faltava muito e por isso não queria abdicar daqueles 90 minutos. Eu como delegada de turma tentava pôr em prática o que sabia de pronomes. Explicava-lhe que o pronome que entrava em campo não era “They”, era “We”, mas ela não se deixava abalar com o patriotismo esférico.

Chegámos a um consenso: os primeiros 45 minutos poderiam ser da seleção, os restantes 45 seriam dela. Como delegada dei-lhe a minha palavra, acreditando cegamente que os rapazes não me deixariam ficar mal e resolveriam o jogo antes do segundo tempo. Coitada, mal sabia eu que começaria cedo a sofrer de amor.

Não me lembro se os 45 minutos de jogo coincidiam com a entrada no segundo tempo da minha aula de inglês. Lembro-me que falhei a promessa. Portugal não só não resolvia o jogo na primeira parte, como jogava com menos um. Lembro-me, como se fosse hoje, de estar pendurada na janela do bufete da escola a implorar a algumas colegas que não fossem à aula. Haveríamos de levar falta coletiva em prol da seleção.

Usava todos os argumentos de que me lembrava. Era uma atrocidade o que a professora nos fazia. Era de uma insensibilidade tamanha querer que estudássemos a Grã-Bretanha enquanto Portugal se batia com a Coreia! (Sim, eu era uma adolescente muita intensa) Nada feito. As minhas colegas foram à aula. Portugal perdeu. Despediu-se do Mundial Coreia/Japão na fase de grupos e a minha falta foi em vão.

MUNDIAL, 2006

A Inglaterra voltaria a intrometer-se entre mim e a seleção portuguesa de futebol. No mundial de 2006, Portugal entrava em campo para defrontar a equipa de Ferdinand, Lampard, Beckham, Rooney, no mesmo dia em que eu subia a palco para dar vida às palavras do mais conhecido e conceituado dramaturgo inglês: William Shakespeare. Uns quartos de final de um mundial cheio de suspense e eu a preparar-me para ver o meu Romeu morrer, para morrer depois também, tudo com a assinatura de um inglês. Sempre a sofrer de amor. Raios partam esta sina.

O tempo avançava, e eu continuava colada à pequena televisão do quarto. A bola teimava em não tocar a rede. Acabei por perder o comboio das 17h. “Só mais um bocadinho, só mais um bocadinho”. Portugal entrava em tempo de compensação com o jogo a zero. Eu percebia que íamos acabar em penáltis, outra vez, a fazer lembrar o euro 2004, esperava eu. Voltava a olhar para o relógio. Nada a fazer. Tinha de correr até à estação, os penáltis seriam ouvidos pelo rádio do telemóvel.

Acabei por apanhar um comboio regional que partia da Régua com destino a Porto – São Bento. O comboio apinhado de pessoas e bagagens. Eu a colar os fones aos ouvidos. Era agora. O comboio apitava assinalando a partida de Paredes e o início da marcação de penaltis. Simão Sabrosa convertia a primeira grande penalidade e eu tinha um espasmo, uma espécie de grito contido. Os meus “colegas de carruagem” aperceberam-se nesse momento que eu estava a ouvir o relato. Era a única naquela carruagem com acesso ao relato.

Rapidamente tive olhinhos desconhecidos colados em mim. O relator a transmitir-me a vibração de milhares no estádio, os viajantes a aguardar a minha reação, expectantes, primeiro tímidos, depois assumindo-se, voltando-se para mim, alguns aninhados no corredor do comboio. À medida que os penáltis avançavam, nós deixávamos de ser desconhecidos. Estávamos unidos naquele sofrimento. Comecei a relatar o que ouvia pela rádio:

– É o Lampard agora. Vai marcar o Lampard agora.

Fez-se silêncio na carruagem. Alguém se benzia. O Lampard a correr para a bola, o comboio cheio a deslizar pelos carris. Não se ouviam vozes, só o comboio e, na nossa imaginação, os pés do Lampard a bater na bola. Os olhos arregalados, colados em mim, o meu coração a disparar:

– Defendeu! O Ricardo defendeu!

Festejou-se, um festejo ainda tenso porque sabíamos que era só o início. Com efeito, era a vez de Hugo Almeida.

–  Vamos Portugal, vamos Portugal! –  suplicava alguém.

A minha voz foi seca, como quem não quer ser portadora de más notícias:

–  Falhou.

Os corpos a fazerem aquela dança de desalento já habitual nos estádios. O pescoço deixa de suportar o peso da cabeça que primeiro tomba para trás e depois para a frente para se afundar nas mãos. O corpo escorrega na cadeira.

–  Calma, calma. Ainda falta muito.

Eu tenho sempre esperança no futebol. Acredito sempre.

Segue-se Hargreaves, não falha. Petit prepara-se para marcar para Portugal. Há quem aperte as mãos, quem diga pequenas orações, mas a trajetória da bola é imune a súplicas, Petit atira para fora. A carruagem ressentiu-se. Houve quem saísse, fosse arejar pelos corredores do regional. Imune a qualquer tensão dos tripulantes daquele comboio, os jogadores da seleção iam cumprindo a sua sina. Eu já nem me lembrava que tinha um encontro marcado com Shakespeare. O importante não era o destino, era aquela viagem.

É a vez de Gerard, que tem nos pés a possibilidade de colocar Inglaterra na frente do marcador. Corre para a bola. Houve quem quase desmaiasse, quem dissesse que não aguentaria, que não queria ouvir mais, embora fosse espreitando sempre em busca de boas notícias. Remate forte com o pé direito. Toda a carruagem de olhos postos em mim. A tensão, cada músculo do corpo em compressão.

– RICARDO!

Não precisei de dizer mais nada. A explosão que se viveu ali, a 2 mil quilómetros de distância de Gelsenkirchen, foi tal que 16 anos depois ainda me acelera o coração.

– Minha nossa senhora que me vai dar uma coisinha! – dizia uma senhora no comboio, – Meu santo Ricardinho!

– Hélder Postiga. É vez de Hélder Postiga.

Eu ia encostada à janela, mas via melhor Gelsenkirchen do que Ermesinde ou Rio Tinto.

– É agora, é agora… – dizia para mim baixinho.

Os que não aguentavam dores maiores profetizavam um falhanço. Aprendi a não os censurar, é uma defesa para não se magoarem. Hélder Postiga marca, eu grito golo até arranhar a garganta. Valha-nos Deus, onde nos fomos meter, agora vamos sofrer mais ainda. Agora é mesmo possível. Agora é o tudo ou nada. Não existe mais nada. O comboio não tem partida nem destino, nem sabemos onde estamos.  2-1 para Portugal, Carragher prepara-se depois de uma falsa partida. Remata com o pé direito e Ricardo outra vez. Pronto, agora choramos. Choramos todos um pouco, uns com lágrimas pelo rosto, outros só com os olhos cheios, a aguentar, a disfarçar.

No dia seguinte voltaríamos para as nossas dores, mas naquele momento Portugal estava prestes a passar às meias-finais de um campeonato do mundo. Uma alegria para voltarmos a sofrer num futuro próximo. O futebol está sempre a fazer-nos destas, a dar-nos sofrimentos mesquinhos antes de podermos ser convictamente felizes por umas horas, só por umas horas. Na verdade, o Cristiano Ronaldo poderia falhar aquela bola,

Portugal derrotaria Inglaterra por 2-1 se o atual capitão falhasse aquele penálti, porém, naquela hora, ainda nos beliscávamos, ainda não percebíamos bem o que estava a acontecer. Esperávamos a confirmação do antigo nº 17. O que acabou por acontecer. A bola batia na rede, Portugal ganhava o jogo e nós festejávamos como podíamos. Nesse preciso momento uma mulher abriu bruscamente a porta da carruagem, e, enquanto agarrava nas saias que faziam lembrar um traje típico, exclamava:

– Olha, mulher… até fiz chichi pela saia abaixo!

Este foi um dos momentos mais intensos que me lembro de ter vivido com a seleção apesar de não ter visto o jogo. Lembro-me mais daquelas pessoas, daquela carruagem do que dos jogadores. A história poderia acabar aqui. Não está longe de terminar, mas gostava que aguentassem comigo mais uma estação.

Lembro-me de mais algumas situações em que sofri pelo jogo sem o conseguir ver. Uma vez na faculdade estava a fazer exame num auditório cheio enquanto Portugal tinha um jogo decisivo. Não me lembro sequer do jogo em questão. Recordo-me bem da tensão daquela sala. Com os olhos de todos a esbarrem constantemente no relógio. Se alguém pegasse num telemóvel não era em busca de copianço, era de resultados. Eu queria passar à disciplina, mas sempre que puxava pela cabeça os meus olhos desviam-se para o relógio e do relógio para os pés do Ronaldo era um instante.

EUROPEU, 2016

Anos mais tarde, no euro 2016 vi alguns jogos na praça D. João I, no Porto. Chateava-me sempre porque não conseguia ver o jogo direito, ora porque tinha de saltitar e me pôr nas pontas dos pés para conseguir ver o ecrã todo, ora porque alguém munido de rádio gritava golo antes de o ver. Foi esse acumular de coisinhas, a vontade de ver o jogo e todos os seus pormenores que me levou a ver a final de 2016 sozinha em casa, sem nada que me distraísse do que se passava em campo. Foi assim que lacrimejei com o Ronaldo, que vi Éder rematar aquela bola, que gritei golo.

Agora que penso nisso: talvez tenha sido algo deprimente. Não me interpretem mal, fiquei muito feliz, assistir à conquista de um Campeonato da Europa é incrível, mas no que toca à experiência, julgo que a trocava por todas as outras em que não consegui ver o jogo com todas as suas virtudes e defeitos. É isto que me mantém o coração a bater mais rápido no futebol e neste caso ainda com o jogo desta quinta. Reparem… ninguém sabe o que vai acontecer. O futebol é apenas previsível até certo ponto. Sabemos todos que o cenário não é o melhor e pode ser prejudicial em muitos aspetos, quer desportivos, quer financeiros, contudo isso é o que acontece depois.

Agora, para mim, é uma oportunidade para vestir a camisola, juntar amigos, para pôr os tremoços na mesa e cantar: “deixem-se de tretas, força nas canetas e o maior é Portugal!”. É um pretexto para me irritar e alegrar com ninharias, para fazer amigos, caso assista ao jogo num café, para me assumir como uma orgulhosa parola, se quiserem, que se alegra por dizer: “Bamos lá, cambada!” Isto de ter esperança também requer alguma coragem. A bola existe para nos divertir, aproveitemos estes 90 minutos, cambada!

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