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Guerra e Paz

Miguel Ferreira de Araújo · 3 min

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A última noite europeia de seleções foi pródiga em episódios de uma novela que parece não ter fim, na qual os protagonistas futebol e política vivem infelizes para sempre.

Fosse vivo e teria Tolstói material para duplicar as 1225 páginas da sua obra-prima dividida em quatro livros.

Futebol e política, velhos conhecidos, teimam em não entender-se, numa tradição quase secular.

É preciso recuar até 1934 para encontrar a primeira demonstração da infeliz combinação entre ambos. Realizado em solo nacional, a Itália viria a sagrar-se campeã mundial pela primeira vez, após bater a já extinta seleção da Checoslováquia por 2-1. A seleção italiana seria utilizada como instrumento político do fascismo por Benito Mussolini, propagando os ideais fascistas impostos pelo ditador.

20 anos volvidos e novo apropriamento de uma seleção nacional como porta-estandarte de um regime: a Hungria, vice-campeã mundial (após ser batida pela Alemanha Ocidental por 3-2 numa final disputada em território suíço), era tida como símbolo da eficiência dos comunistas, controlados pela União Soviética.

Os Mágicos Magiares, descontentes com o rumo que a situação política levava, aproveitaram uma excursão do Budapest Honvéd FC à América do Sul – paga pelos próprios, pois a federação vetou a viagem – para se exilarem no Brasil. Desta infração resultaram pesados castigos aplicados pela FIFA aos jogadores húngaros, possibilitando que, um ano depois, Ferenc Puskás ingressasse no Real Madrid pela mão do presidente do clube espanhol na altura, Santiago Barnabéu.

Fonte: Federação Suiça

E por falar em Brasil, João Saldanha, jornalista de profissão que conduziu a seleção canarinha ao Campeonato do Mundo de 1970 no México, disse uma das mais célebres frases do futebol mundial.

Em plena ditadura militar no país, o general Emílio Garrastazu Médic tentou impedir Saldanha de convocar Dario, ao que o jornalista respondeu “o senhor escala seu ministério, eu escalo a seleção”. Demitido de imediato, viu de fora a conquista da terceira “Copa” pelo escrete, que derrotou a Itália na final por 4-1.

Afonsinho, Sócrates e até Pelé, pouco dados a este tipo de manifestações públicas, clamavam pela democracia.

Ainda pelo continente sul-americano, nota para a recusa de, em pleno relvado, Carlos Caszely apertar a mão a Augusto Pinochet, que viria a torturar a mãe do jogador nos porões do governo chileno. Naquele que ficou conhecido como o “Jogo da Vergonha”, a União Soviética recusou subir ao relvado, tendo o Chile garantido a qualificação para o Mundial de 74.

De lá para cá, várias medidas têm sido tomadas no sentido de evitar conflitos políticos entre clubes e seleções. As federações são agora punidas se houver interferências do governo local, foram proíbidas camisolas que contenham mensagens subliminares e até se evitam jogos em cidades onde existam rebeliões.

Impossível é cortar as asas aos jogadores. Foi em 2018 que Suíça e Sérvia se defrontaram em jogo a contar para a Fase de Grupos do Grupo E do Mundial de Futebol: quis o destino que os marcadores dos golos suíços fossem apontados por Xhaka e Shaqiri, descendentes de kosovares, que festejaram por imitar com as mãos a águia contida na bandeira albanesa, país com quem os sérvios estão impedidos de jogar.

A mudança do FK Shaktar de Donetsk para Lviv teria sido, porventura, a última grande machadada política no futebol europeu. Recorde-se que a cidade que servia de casa ao clube atualmente orientado por Luís Castro foi alvo de bombardeamentos decorrente da guerra civil na região, que culminou na anexação da Crimeia pela Rússia e nos movimentos separatistas de Donetsk e Lugansk.

Paris, Sófia e, porque não, Catalunha foram o “X” que marcou o local da intolerância, ignorância e preconceito; a última página escrita no manual intitulado “O que não deve ser o futebol”.

Foto de Capa: Federação Turca

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Miguel Ferreira de Araújo

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