Nem sempre os protagonistas de uma equipa são aqueles que mais contribuem com golos ou assistências. Há jogadores cuja influência ultrapassa os números e cuja qualidade se torna evidente na forma como transformam o jogo coletivo. É precisamente esse o caso de João Félix. Apesar de ainda não ter marcado nem assistido no Mundial de 2026, o avançado tem sido, na minha opinião, o melhor jogador da Seleção Nacional ao longo da fase de grupos.
Curiosamente, João Félix nem sequer participou no encontro de estreia frente ao Congo. No entanto, a partir do momento em que Roberto Martínez lhe entregou a titularidade, tornou-se impossível ignorar a sua influência no jogo ofensivo de Portugal. A aposta revelou-se inteiramente justa e, acima de tudo, necessária para dar outra criatividade e outra capacidade de desequilíbrio à equipa.
O que João Félix oferece vai muito além daquilo que as estatísticas conseguem traduzir. É um jogador que procura constantemente receber entre linhas, que interpreta os espaços como poucos e que consegue acelerar o jogo com uma simplicidade desarmante. A sua qualidade técnica e a capacidade para jogar ao primeiro toque permitem que Portugal ataque de forma mais fluida e menos previsível, algo que se revelou evidente nas duas partidas em que foi titular.
Frente ao Uzbequistão realizou, na minha opinião, a melhor exibição individual de um jogador português neste Mundial. Não marcou, é verdade, mas foi o grande responsável pela fluidez ofensiva da equipa. Simplificou jogadas, deu continuidade aos ataques, apareceu sempre disponível para ligar os setores e demonstrou uma capacidade invulgar para decidir bem sob pressão. Foi uma exibição de enorme maturidade, daquelas que nem sempre ficam refletidas na folha estatística, mas que qualquer observador atento consegue reconhecer.
Há ainda outro detalhe que ajuda a explicar o impacto do avançado: a forma como potencia Nuno Mendes. Os seus movimentos para zonas interiores libertam completamente o corredor esquerdo para as constantes projeções do lateral português, que continua a afirmar-se como o melhor do mundo na sua posição. Essa complementaridade oferece largura e profundidade ao ataque português e cria uma dinâmica que poucas seleções conseguem contrariar.
Diante da Colômbia, João Félix voltou a ser o jogador mais esclarecido da equipa. Num encontro mais fechado e fisicamente exigente, foi quem mais vezes conseguiu romper linhas, encontrar espaços e criar situações de perigo. Teve três ou quatro ações em que um último passe mais eficaz ou uma finalização mais feliz poderiam ter mudado o rumo da partida. Ainda assim, foi o principal foco de criatividade de Portugal, razão pela qual a sua substituição acabou por parecer difícil de compreender. Quando a equipa precisava de alguém capaz de inventar uma jogada diferente, foi precisamente o jogador mais inspirado que saiu do relvado.
A ausência de golos ou assistências não diminui o impacto das suas exibições. João Félix tem sido, acima de tudo, o jogador que mais desequilibra e mais qualidade acrescenta ao ataque português.
João Félix vive, provavelmente, o melhor momento da sua carreira. Mais maduro, mais intenso e mais comprometido com o coletivo, parece finalmente reunir todas as condições para assumir um papel central na Seleção Nacional. Se mantiver este nível exibicional, os números acabarão inevitavelmente por aparecer.
Para já, fica uma convicção: terminada a fase de grupos, João Félix é, para mim, o grande destaque individual de Portugal.

