Gonçalo Guedes | De promessa interrompida à solução inesperada

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Houve um tempo em que Gonçalo Guedes parecia destinado a conquistar o futebol europeu sem grandes obstáculos. Jovem, explosivo, decisivo e com uma maturidade competitiva invulgar para a idade, saiu cedo do Benfica rumo ao PSG com 20 anos recém-cumpridos no mercado de inverno da época 2016/17, numa transferência que prometia lançar definitivamente a sua carreira para outro patamar.

Mas o futebol raramente segue linhas retas. A ida para Paris revelou-se prematura, tal como já havia sido a de Renato Sanches para os alemães do Bayern Munique. Num contexto altamente competitivo e com poucas oportunidades para crescer de forma sustentada, Gonçalo Guedes viu a sua evolução travada, obrigando-o a reencontrar-se longe dos grandes holofotes.

Foi em Espanha, ao serviço do Valência, que voltou a mostrar sinais do jogador que prometia vir a ser, sendo absolutamente decisivo para a conquista da Taça do Rei pela equipa valenciana, numa final ganha ao Barcelona de Leo Messi.

Esse grande fim de época em 2019, valeu-lhe a convocatória para a final four da primeira edição da Liga das Nações. Se na meia-final contra a Suíça, o herói do jogo foi o inevitável Cristiano Ronaldo (com um hat-trick mágico), na final, foi Gonçalo Guedes que protagonizou um dos momentos mais marcantes da sua carreira. 

Gonçalo Guedes Bernardo Silva
Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede

Num jogo equilibrado frente aos Países Baixos, foi Gonçalo Guedes quem assumiu o momento. Uma condução forte, um remate seco e certeiro de fora da área, após um passe brilhante de Bernardo Silva, e um país inteiro em celebração. O golo que deu a Portugal o seu primeiro título na prova e que parecia confirmar aquilo que muitos acreditavam: Guedes tinha tudo para ser protagonista durante anos na Seleção Nacional.

Mas, mais uma vez, a consistência não acompanhou o talento. Lesões, irregularidade e mudanças de contexto (incluindo uma passagem discreta pelo Benfica há um par de anos num regresso a casa muito aquém das expectativas), impediram uma afirmação contínua, afastando-o gradualmente das escolhas mais regulares da Seleção. Até agora.

Nesta época, Gonçalo Guedes reaparece como uma das grandes figuras da Real Sociedad, num regresso que não se explica apenas pelos números, embora estes sejam, por si só, bastante expressivos.

Com nove golos e oito assistências, o internacional português tem sido uma peça central na recuperação da equipa basca na tabela da La Liga, além de desempenhar um papel determinante na caminhada até à final da Taça do Rei, que irá disputar dentro de menos de um mês contra o Atlético Madrid.

Gonçalo Guedes, Real Sociedad
Fonte: Real Sociedad

Mais do que os números, é a forma como joga que impressiona. Titular indiscutível numa das equipas que melhor futebol pratica em Espanha, Guedes apresenta hoje uma versão mais completa, mais inteligente e mais influente. Participa ativamente na construção, desequilibra no último terço e oferece soluções constantes à equipa, seja em condução, em ruptura ou em combinação.

A sua convocatória para a Seleção surge num contexto particular. Com a perda trágica do malogrado Diogo Jota, Portugal perde (para além da sua importância no balneário), um jogador com características muito específicas: mobilidade, inteligência entre linhas, capacidade de finalização e pressão constante. E é precisamente aqui que o nome de Gonçalo Guedes ganha ainda mais força e faz mais sentido.

Sem ser um ponta de lança puro, Guedes oferece algo diferente: pode partir da esquerda, atuar como segundo avançado, explorar espaços interiores, e atacar a profundidade com dinâmica.

É um jogador que movimenta o jogo, que cria ligações e que desorganiza defesas através da sua leitura e capacidade de aceleração. Ao contrário de outros nomes que surgem em listas de convocados por momentos pontuais, o regresso de Gonçalo Guedes à Seleção tem um peso diferente,  com vista à participação num Mundial no qual Portugal parte como um dos grandes candidatos à conquista de um título inédito, mas tão desejado por todo o país.

António Silva Gonçalo Guedes
Fonte: Portugal

Não é apenas um prémio pela forma atual. É o reconhecimento de um jogador que soube reinventar-se. Depois de uma saída precoce, de um percurso irregular e de anos longe do protagonismo internacional, Guedes regressa como uma solução válida, credível e, acima de tudo, útil.

E talvez seja precisamente isso que torna este regresso de Gonçalo Guedes, um momento tão especial. Porque mais do que um regresso, isto é um renascimento.

Tiago Campos
Tiago Campos
O Tiago Campos tem um mestrado em Comunicação Estratégica mas sempre foi um grande apaixonado pelo jornalismo desportivo, estando a perseguir agora esse sonho. Fã acérrimo do "Joga Bonito".

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