Uma derrota que começou muito antes do golo | Portugal 0-1 Espanha

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Portugal caiu nos oitavos de final do Campeonato do Mundo de 2026, ao perder, por 0-1, diante da Espanha, num clássico ibérico decidido apenas aos 90+1 minutos, por Mikel Merino. A Seleção Nacional resistiu durante quase todo o encontro, teve momentos em que ameaçou discutir a eliminatória até ao prolongamento, mas acabou por sucumbir perante uma equipa espanhola que controlou grande parte da partida e encontrou o prémio já nos instantes finais. O desfecho ditou igualmente o fim da caminhada mundialista de Cristiano Ronaldo e encerrou o ciclo de Roberto Martínez à frente da equipa das quinas.

A eliminação de Portugal pertence a um contexto de uma equipa que jogou contra um adversário que foi melhor, mas também à ideia de que o futebol, por muito injusto que, por vezes, possa parecer, costuma castigar quem deixa de acreditar nas suas próprias ideias.

Neste sentido, a Espanha foi superior durante largos períodos, mostrou uma identidade de jogo reconhecível do primeiro ao último minuto e acabou por encontrar aquilo que procurou quase incessantemente. Portugal, em oposição, passou demasiado tempo à espera de que o relógio lhe resolvesse um problema que nunca quis enfrentar de frente.

Ora, perder diante daquela que me parecer ser a melhor equipa coletiva deste Mundial não constitui vergonha alguma. Ser eliminado por uma seleção que sabe exatamente o que quer fazer em cada momento do jogo não diminui ninguém. O problema está muito antes do resultado. Está na forma como Portugal chegou a este encontro, assim como na imagem deixada ao longo de cinco jogos e na sensação de que uma geração absolutamente extraordinária voltou a apresentar muito menos futebol do que aquele que o talento dos seus jogadores permite imaginar.

Roberto Martínez Portugal
Fonte: Edmilson Monteiro / Bola na Rede

Deste modo, a diferença entre as duas seleções nunca esteve apenas nos pés dos jogadores. Esteve sobretudo naquilo que cada uma representa enquanto coletivo. A Espanha entra em campo com princípios inegociáveis, no sentido em que quer a bola, quer mandar no jogo e quer empurrar o adversário para trás. E mesmo quando não consegue criar ocasiões claras, continua fiel à mesma ideia, convencida de que será essa insistência a abrir espaços mais cedo ou mais tarde. Portugal fez precisamente o contrário, uma vez que começou equilibrado, organizado e competitivo, mas à medida que os minutos passaram foi aceitando um papel que nunca deveria ser o seu, na medida em que abdicou da iniciativa, entregou o comando ao adversário e passou amplos períodos a sobreviver em vez de competir verdadeiramente pelo jogo.

É exatamente aqui que começa a análise ao trabalho de Roberto Martínez. O espanhol termina o ciclo com uma Liga das Nações conquistada e com números, no geral, interessantes, mas o futebol nunca vive apenas das estatísticas. Vive daquilo que as equipas demonstram quando encontram adversários do mesmo nível. E, nesses momentos, Portugal raramente convenceu. Frente às seleções de maior dimensão competitiva, voltou sempre a existir receio, excesso de prudência e uma incapacidade preocupante para impor aquilo que deveria ser a identidade de uma equipa recheada de jogadores de classe mundial.

Por conseguinte, este Mundial acabou por ser apenas a confirmação de um problema que se vinha arrastando há muito. Portugal nunca conseguiu ser superior à soma das suas individualidades. Muito pelo contrário, em demasiados momentos pareceu exatamente o oposto. Jogadores que brilham semanalmente nos maiores clubes europeus apareceram presos, desconfortáveis e incapazes de transportar para a seleção aquilo que fazem durante toda a época.

É, por exemplo, difícil compreender como um meio-campo onde coexistem Vitinha, João Neves e Bruno Fernandes consegue produzir tão pouco durante praticamente toda uma competição. Não aconteceu apenas contra a Espanha. Já tinha sucedido diante da República Democrática do Congo, da Colômbia e da Croácia. Quando tantos jogos consecutivos deixam exatamente a mesma sensação, deixa de ser um problema dos jogadores e passa, inevitavelmente, a ser um problema de quem os orienta.

Vitinha parecia constantemente afastado das zonas onde consegue acelerar o jogo. João Neves viu demasiadas vezes o seu raio de ação reduzido a tarefas de perseguição. Bruno Fernandes apareceu perdido entre corredores laterais, longe dos espaços onde verdadeiramente desequilibra. Em vez de potenciar três dos melhores médios da Europa, Roberto Martínez conseguiu torná-los praticamente invisíveis durante grande parte da competição. É um paradoxo difícil de explicar e ainda mais difícil de aceitar.

Enquanto isso, do outro lado, Rodri, Pedri, Dani Olmo e companhia ofereciam exatamente aquilo que um meio-campo deve proporcionar, isto é, mobilidade constante, aproximações curtas, permanentes trocas posicionais e capacidade para atrair adversários antes de acelerar, o que, diga-se, de passagem, não é nada de revolucionário. No fundo, são apenas jogadores colocados em funções que potenciam aquilo que fazem melhor, sendo que a diferença entre as duas equipas nunca esteve na qualidade individual. Esteve, acima de tudo, na organização coletiva que permitiu que essa qualidade aparecesse naturalmente.

Curiosamente, houve um jogador que conseguiu contrariar quase sozinho essa sensação de inferioridade coletiva. Diogo Costa realizou mais uma exibição monumental. Tal como frente à Colômbia e à Croácia, durante largos minutos, foi ele quem manteve Portugal vivo. Voltou a aparecer nos momentos decisivos, voltou a responder presente perante remates de enorme dificuldade e voltou a demonstrar que é, provavelmente, o melhor guarda-redes deste Campeonato do Mundo.

Desta forma, dizer que Portugal chegou aos ‘oitavos’ muito por culpa das suas intervenções não constitui qualquer exagero e, quem discordar, basta olhar para os cinco jogos realizados para perceber que a equipa viveu demasiadas vezes agarrada às mãos do seu guarda-redes. E quando o melhor jogador de uma seleção, repetidamente, é quem ocupa a baliza, isso diz quase tudo sobre a forma como essa equipa competiu.

De resto, também Nuno Mendes voltou a confirmar aquilo que este Mundial evidenciou desde o primeiro dia. Foi provavelmente o jogador português mais consistente da competição. Frente ao fenómeno chamado Lamine Yamal, voltou a ganhar praticamente todos os duelos até ser obrigado a abandonar o encontro por lesão. Não é coincidência que a Espanha tenha crescido claramente depois dessa saída, principalmente porque Portugal perdeu capacidade para controlar aquele corredor, perdendo, simultaneamente, uma das poucas armas capazes de transportar a equipa para a frente.

A reação de Roberto Martínez voltou a levantar muitas dúvidas. Não tanto pelas substituições em si, mas pelo efeito que tiveram na equipa. À medida que mexia no onze, Portugal ia perdendo referências, capacidade para ligar jogo e confiança para sair da pressão espanhola.

No papel, as alterações realizadas (além da entrada de Nélson Semedo para o lugar do lesionado Nuno Mendes, também foram a jogo Diogo Dalot, Rafael Leão, Bernardo Silva e Francisco Conceição) podiam fazer sentido, mas, dentro de campo, nenhuma delas alterou o rumo do encontro. Aliás, a equipa até foi recuando cada vez mais, entregando definitivamente a iniciativa à Espanha, quase como se aceitasse que o prolongamento era um objetivo suficientemente ambicioso.

É rigorosamente aí que aparece um dos maiores pecados deste ciclo. Portugal habituou-se a jogar em função do adversário. Em vez de obrigar os outros a adaptarem-se às suas qualidades, passou demasiado tempo preocupado em esconder os próprios defeitos. Uma seleção com esta quantidade de talento não pode viver permanentemente agarrada ao medo de sofrer. Tem qualidade para defender com bola, para controlar ritmos, para instalar-se no meio-campo contrário e obrigar os adversários a correr atrás dela.

No entanto, a imagem que ficou foi notoriamente a oposta. Contra a Espanha, como já tinha acontecido frente à Colômbia, a equipa foi baixando linhas, oferecendo metros e acreditando que resistir seria suficiente. Nunca é, sobretudo diante de uma seleção que vive justamente da paciência, da circulação e da inteligência posicional.

Assim sendo, a jogada do golo resume quase tudo aquilo que aconteceu ao longo destes quatro anos. Não foi um lance caótico, nem um ressalto infeliz, nem um golpe de sorte. Foi uma jogada preparada, pensada e executada por uma equipa que continuou a acreditar na sua identidade até ao último segundo.

De facto, a Espanha bateu rapidamente um livre curto, aproveitou a desorganização portuguesa, explorou um movimento que já tinha repetido várias vezes durante o encontro e encontrou Merino a aparecer vindo de trás, exatamente no espaço criado pelos movimentos dos homens da frente.

Vitinha Portugal Roberto Martínez
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Esse lance desmonta também a teoria tantas vezes repetida por Roberto Martínez de que o futebol vive apenas de detalhes ou de momentos de sorte. Claro que o futebol tem uma componente imprevisível e sempre terá, mas reduzir esta eliminação a um simples acaso é ignorar tudo aquilo que os 90 minutos mostraram.

Repare-se que a Espanha procurou constantemente aquele tipo de movimentos entre linhas, aquelas diagonais dos homens que vinham de trás e aquelas combinações rápidas em espaços curtos. Portugal, por seu lado, limitou-se a reagir durante quase todo o encontro, pelo que, quando uma equipa insiste sucessivamente na mesma ideia e acaba por ser premiada através dela, dificilmente se pode falar apenas em sorte.

Também por isso custa aceitar algumas das explicações dadas ao longo deste Mundial. Houve uma enorme diferença entre aquilo que todos viam dentro de campo e aquilo que o selecionador nacional descrevia nas conferências de imprensa. A realidade parecia quase paralela. Enquanto o rendimento coletivo levantava dúvidas evidentes, o discurso insistia numa seleção comprometida, em crescimento constante e próxima da excelência. O problema é que esse crescimento nunca apareceu quando realmente importava. Nem frente à Colômbia, nem frente à Croácia durante extensos períodos, nem agora frente à Espanha.

Há ainda uma questão impossível de contornar: Cristiano Ronaldo. Seria profundamente injusto reduzir a carreira mais extraordinária da história do futebol português a este Mundial ou até aos últimos anos. Ronaldo continua, como é óbvio, a ocupar um lugar que ninguém alguma vez lhe retirará. Mudou para sempre a dimensão internacional de Portugal, conquistou títulos que pareciam impossíveis e elevou a exigência competitiva da seleção para patamares nunca antes imaginados, por isso nada do que aconteceu no continente norte-americano altera esse legado.

Mas principalmente por respeito a essa carreira, torna-se impossível ignorar a realidade competitiva. Aos 41 anos, Ronaldo voltou a ser praticamente intocável. Jogou praticamente todos os minutos dos cinco encontros disputados. Terminou a competição com números que ajudam a perceber a dimensão do problema.

Nos últimos quinze jogos em fases finais de grandes competições, marcou apenas quatro golos, sendo dois deles de penálti e outros dois diante do Uzbequistão. Apesar de, mesmo no auge, nunca terem sido os seus principais atributos, a influência sem bola diminuiu, a capacidade para pressionar deixou de ser a mesma e o contributo para o funcionamento coletivo tornou-se cada vez mais reduzido. A verdade é que o problema nunca foi Cristiano Ronaldo querer continuar a jogar, até porque isso é algo natural da sua essência, do “animal competitivo” que é. O problema foi, antes, ninguém ter tido coragem para tomar decisões difíceis quando elas se tornaram necessárias.

Quando a gratidão passa a ocupar o lugar do mérito desportivo, o futebol deixa, inevitavelmente, de premiar quem mais qualidade tem para jogar naquele momento. Essa lógica raramente produz bons resultados. Acontece no futebol, como acontece em muitas outras áreas da vida. O passado merece respeito, claro. Nunca deve, porém, condicionar o presente. E, de facto, Portugal pareceu demasiadas vezes preso às memórias, aos estatutos e às hierarquias, esquecendo que um Campeonato do Mundo se ganha com rendimento atual e não com aquilo que cada jogador representou há cinco ou dez anos.

E, se houve alguém que simbolizou na perfeição essa incapacidade para romper com o passado, esse alguém foi Gonçalo Ramos. É difícil encontrar uma gestão mais contraditória do que aquela que o avançado viveu durante este ciclo. Foi decisivo quando Portugal mais precisou dele. Tinha sido o herói frente à Suíça, nos oitavos de final do Mundial de 2022. Foi titular diante de Marrocos e, como todos os outros, teve um jogo menos conseguido.

Depois, no EURO 2024, em cinco jogos realizados pela equipa das quinas, é utilizado em apenas um, frente à Geórgia, na terceira e última jornada da fase de grupos, altura em que Portugal até já estava apurado para a fase seguinte, jogando, ainda por cima, apenas 25 minutos (entrou aos 65’) nessa partida.

Agora, voltou a aparecer neste Mundial diante da Croácia, marcando o golo que colocou Portugal nos oitavos de final. Quatro dias depois, no jogo mais importante da competição, ficou 90 minutos sentado no banco. Assim, no balanço do seu contributo pessoal nesta edição do Campeonato do Mundo, jogou pouco mais de 35 minutos regulamentares, distribuídos por dois jogos (sete minutos contra a RD Congo e 28 contra Croácia), sendo que, nesta contagem, não está incluído o tempo de compensação jogado nas duas partidas. Andará, por isso, ali próximo dos 60’, no total, até porque os descontos frente aos croatas foram muito largos.

Frente à Espanha, a decisão torna-se ainda mais difícil de compreender quando se olha para aquilo que o jogo estava a pedir. O avançado recentemente transferido do PSG para o AC Milan, que oferece mobilidade, capacidade de pressão, profundidade e presença constante na área, permaneceu, contudo, como mero espetador.

Também João Félix acaba por representar outra das incoerências deste Portugal. Diante da Espanha, voltou a ser um dos jogadores mais disponíveis para o trabalho defensivo, baixou no terreno, ajudou Nuno Mendes a controlar Yamal, procurou ligar jogo e foi dos poucos capazes de encontrar espaços entre linhas quando Portugal conseguia sair da pressão. No entanto, continuou inserido num contexto onde quase ninguém parecia beneficiar das suas características. Roberto Martínez foi capaz de alterar funções de médios, retirar protagonismo a Bruno Fernandes e condicionar João Neves apenas para criar conforto posicional a Félix, mas nunca encontrou forma de potenciar verdadeiramente aquilo que o jogador oferece quando tem liberdade para aparecer entre setores. Acabou, portanto, por ser mais um talento encaixado numa estrutura que nunca o valorizou verdadeiramente.

Aliás, talvez esta seja a principal marca deste Mundial português. Nunca existiu verdadeira sintonia entre os setores da equipa. O meio-campo pareceu desligado do ataque e os homens da frente raramente receberam bolas em condições favoráveis. Cristiano Ronaldo baixava demasiadas vezes sem critério para tentar participar na construção, deixando vazia pontualmente a zona onde ainda podia fazer diferença. Bruno Fernandes aparecia sucessivamente em corredores laterais à procura da bola porque não a encontrava nas zonas centrais. Pedro Neto procurava acelerar transições quase sempre sozinho, sem apoios próximos. Rafael Leão entrou para oferecer velocidade, mas também encontrou uma equipa demasiado distante para potenciar essa arma. O resultado foi um ataque previsível, sem profundidade consistente e incapaz de criar desequilíbrios continuados contra seleções bem organizadas.

Há, entre outras, uma imagem que ficará provavelmente como a fotografia mais fiel deste encontro. Durante largos períodos da segunda parte, Portugal parecia confortável por ver o relógio avançar. Cada minuto sem sofrer aproximava a equipa do prolongamento. O problema é que a Espanha nunca demonstrou essa preocupação. Continuou a circular, continuou a procurar espaços e continuou, acima de tudo, a acreditar que o golo apareceria. Existe uma diferença enorme entre resistir porque o adversário obriga a isso e resistir porque se acredita que sobreviver já é suficiente. Portugal entrou perigosamente na segunda categoria e foi, consequentemente, castigado exatamente por essa escolha.

No fim do jogo, Bruno Fernandes acabou por o admitir de forma muito mais lúcida do que qualquer discurso oficial. A equipa baixou demasiado as linhas, entregou o jogo à Espanha e passou a fazer tudo aquilo que não deveria ter feito. É difícil encontrar melhor resumo para os últimos 30 minutos da Seleção Nacional, visto que, quando uma equipa abdica voluntariamente da bola perante um adversário cuja maior virtude é precisamente saber utilizá-la, está praticamente a aceitar jogar nas condições preferidas do rival. E a Espanha, sem precisar de acelerar constantemente, foi acumulando aproximações, desgastando física e mentalmente Portugal até encontrar o momento decisivo.

Refira-se ainda que, também fora das quatro linhas, houve demasiados sinais preocupantes ao longo deste Mundial. Isoladamente, muitos deles poderiam parecer irrelevantes. No conjunto, ajudam a explicar uma cultura competitiva que dificilmente se compatibiliza com a ambição de conquistar um Campeonato do Mundo.

A preparação levantou dúvidas desde o início. Portugal optou por permanecer em território nacional praticamente até ao arranque da competição, chegando aos Estados Unidos já com o torneio em andamento. Poucos dias depois, surgiam imagens dos jogadores na praia. O problema nunca foi a adaptação ao calor, a tal descontração e o descanso, já que qualquer equipa precisa dele. Muita gente não percebeu, mas a questão esteve sempre apenas e só na perceção transmitida. Se havia tempo para momentos de relaxamento, talvez tivesse sido mais inteligente chegar mais cedo, adaptar-se às condições locais e só depois permitir esses momentos. A gestão da imagem também faz parte do alto rendimento.

Ao longo da competição, houve ainda episódios difíceis de compreender. Algumas conferências de imprensa, por parte de certos jogadores, transmitiram uma confiança excessiva quando o rendimento em campo dizia precisamente o contrário. Existiram declarações que passaram uma sensação de arrogância completamente desnecessária. Houve tentativas de construir determinadas narrativas públicas que dificilmente resistiram ao confronto com a realidade desportiva. E tudo isso foi alimentando uma distância crescente entre aquilo que a equipa dizia ser e aquilo que verdadeiramente demonstrava dentro das quatro linhas. Só se iludiu quem ignorou os sinais que se acumulavam desde muito antes do apito inicial deste Mundial e até no decorrer do mesmo.

A sensação com que a maioria das pessoas fica é a de uma oportunidade desperdiçada. Não apenas pela eliminação nos oitavos de final, mas porque dificilmente Portugal voltará a encontrar, nos próximos anos, um conjunto de jogadores com esta combinação de qualidade, maturidade e experiência. Para além de Ronaldo ter feito o último Mundial, Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Rúben Dias e João Cancelo, por exemplo, chegarão a 2030 com uma idade muito diferente, pelo que custa tanto olhar para trás e perceber que a melhor oportunidade dos últimos tempos terminou sem que a equipa tivesse conseguido mostrar o melhor de si.

Além disso, o mais frustrante é que esta geração nunca deu a sensação de ter atingido o teto do seu potencial. Pelo contrário, ficou sempre a ideia de que existia muito mais para explorar.

Em síntese, a Seleção Nacional nunca foi superior à soma das suas individualidades. Raramente conseguiu sequer igualá-la. Viveu demasiado tempo dependente da inspiração pontual de um ou outro jogador, sem criar um coletivo suficientemente forte para suportar as inevitáveis dificuldades que surgem num Campeonato do Mundo.

É justamente nesse contexto que termina também o ciclo de Roberto Martínez. O espanhol chegou com simpatia, com um discurso agregador e com resultados muito positivos nos primeiros meses. Falava português quase sem sotaque, conquistou rapidamente a confiança de muitos adeptos e parecia reunir condições para aproveitar uma geração excecional.

Contudo, o entusiasmo inicial foi desaparecendo à medida que os grandes desafios surgiam. Nos momentos decisivos, a equipa revelou quase sempre as mesmas limitações. Houve uma cultura de mínimos que se foi instalando silenciosamente. Bastava ganhar, mesmo sem convencer. Bastava passar, mesmo jogando pouco. Bastava esperar que o talento individual resolvesse aquilo que o coletivo não conseguia construir.

Essa filosofia acaba, inexoravelmente, por cobrar a sua fatura. Contra adversários inferiores, muitas vezes chega. Contra seleções como Espanha, França ou Argentina, normalmente não chega. O futebol de elite exige coragem, personalidade e capacidade para assumir riscos e a realidade é que Portugal teve quase sempre receio de os correr.

Ruben Dias Vitinha João Neves Portugail
Fonte: FIFA

Enfim, agora começa outro caminho. Um caminho que terá obrigatoriamente de abandonar receios antigos, estatutos inquestionáveis e ideias gastas. Portugal continua a possuir uma das melhores gerações da sua história. Isso não desapareceu com uma derrota. O talento continua lá. Vitinha continua a ser um dos melhores médios da Europa. João Neves continuará a crescer. Bruno Fernandes mantém qualidade para decidir jogos. Gonçalo Ramos deve ter, finalmente, um papel compatível com aquilo que oferece. Diogo Costa e Nuno Mendes podem perfeitamente tornar-se as novas referências da equipa. Há matéria-prima mais do que suficiente para voltar a acreditar.

Efetivamente, o problema nunca foi a qualidade dos jogadores. Foi aquilo que se fez, ou melhor, aquilo que não se fez com eles.

Perder frente à Espanha pode acontecer. A seleção espanhola foi melhor, teve uma identidade coletiva muito mais consolidada e acabou merecidamente apurada. O que não pode voltar a acontecer é Portugal apresentar-se sucessivamente perante as grandes seleções como quem já parte convencido de que terá de sofrer durante 90 minutos para sobreviver. Enquanto existir essa desconfiança perante os melhores, Portugal continuará a ser tratado como uma seleção de segundo plano, independentemente da qualidade extraordinária dos futebolistas que tiver à disposição.

Este Mundial termina, por isso, com uma certeza difícil de ignorar. Não foi o azar que eliminou Portugal. Não foram apenas os detalhes. Não foi um simples lance aos 90+1’. Foi um conjunto de opções, de decisões, de mensagens e de escolhas acumuladas durante demasiado tempo. A Espanha limitou-se a confirmar em campo aquilo que a competição inteira já vinha a anunciar.

O sonho acabou no Texas. Oxalá a lição permaneça muito para lá dele, porque o verdadeiro fracasso não é perder um jogo de futebol, mas, neste caso, possuir uma geração capaz de conquistar o mundo e, pelas mais variadas razões, nunca lhe dar verdadeiramente a oportunidade de a tentar.

Raul Saraiva
Raul Saraiva
O Raúl tem 19 anos e está a tirar a Licenciatura em Ciências da Comunicação. Pretende seguir Jornalismo, de preferência desportivo. Acredita que se aprende diariamente e que, por isso, o desporto pode ser melhor.

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