cab seleçao nacional portugal

Embora o leque de jogadores que serão seleccionados para o próximo Europeu esteja, exceptuando duas ou três unidades, practicamente decidido, ainda é tempo de limar arestas, principalmente as tácticas, e redobrar as estratégias possíveis, colocando-as em campo nesta fase experimental antes das partidas oficiais. Creio que o onze base da selecção andará muito perto daquele que hoje iniciou o jogo contra a Bulgária, não contando com a óbvia titularidade de Rui Patrício.

Ainda assim há algo que deve ser claro: desengane-se quem pensa que um seleccionador pode, em pouco tempo de preparação, fazer milagres tácticos. É pegando nesta ideia que entendo a aposta de Fernando Santos num meio-campo que se conhece bem e que é composto, possivelmente, pelos jogadores que neste momento melhor se encontram preparados para jogar na zona do terreno, estando habituados aos mesmos procedimentos táctico-defensivos (que numa equipa são sempre os mais difíceis de ritmar) desempenhados no Sporting. Compreendo igualmente a entrada de Rafa, que se encontra a fazer uma excelente época no Braga, já para não falar na catividade de Ronaldo e Nani. Antes de fazer apontamentos ao sector defensivo, é importante dizer que esta Bulgária, impotente no grupo de apuramento e longe de se equiparar à Bulgária genial da década de 80, está longe de ser uma equipa ao nível da Portuguesa – mas uma coisa é o plano teórico; outra coisa, muito diferente, é a realidade práctica. Aos dez minutos Portugal já contabilizava cinco remates à baliza, muito com Ronaldo em foco, conseguindo chegar a zonas de finalização com processos de transição rápida onde a lateralização do jogo se tornou prioritária. Ninguém diria, num começo de jogo dominado pela equipa portuguesa, que a Bulgária iria estrear o marcado num lance atípico. Podemos falar em ocasiões azarentas – sendo certa a sua existência-, mas a subjectividade da análise do lance pode ter o seu reverso, podendo ser anotada a ineficácia da actuação da defesa. Pepe não foi eficaz, e este género de lapso paga-se caro em jogos em que o experimentalismo já não conte. Ainda assim, creio que é no sector defensivo que não restam muitas dúvidas: Pepe e Bruno Alves serão quase certos no centro, enquanto que a aceitável época de Eliseu e o destaque de Vieirinha na Alemanha justificam a titularidade. É nas zonas mais altas que as principais questões se levantam.

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Cristiano Ronaldo esteve em dia não Fonte: Selecções de Portugal
Cristiano Ronaldo esteve em dia não
Fonte: Seleções de Portugal

Um jogo em que Portugal pôde dominar, embora tendo perdido, não é a circunstância ideal para retirar conclusões. O ideal, por seu turno, seria a confrontação com uma equipa cujo teor táctico obrigasse a repensar as soluções. Neste exemplo concreto – esta derrota com a Bulgária -, há algo mais primordial na análise que podemos fazer: a ineficácia de Ronaldo, cuja taxa foi anormalmente elevada, muito por culpa do guarda-redes Búlgaro. Portugal poderia ter vencido o jogo e, com sorte, ter inclusivamente goleado. Mas se pensarmos que esta ineficácia lusa poderá, mais tarde, verificar-se com uma equipa com mais argumentos, concluímos que Portugal poderá ter fragilidades que não são próprias para um candidato ao título.

Fazendo uma análise mais individualista, a ideia presente no começo do artigo volta a ganhar peso. Não creio que Danilo possa fazer melhor do que William Carvalho na contensão; não advogo a ideia de que João Mário não possa ser o responsável pela variação de processos; não vejo melhor solução do que Adrien, devido à inteligência táctica numa equipa que tanto poderá jogar num 4x4x2, num 4x4x3 ou num 4x2x3x1. Em paralelo, sou um admirador assumido do talento de Rafa, acreditando, portanto, que terá fortes hipóteses de lutar pela titularidade na equipa. As suas possibilidades desceriam caso existisse um avançado tremendo que libertasse Nani para a ala e que acompanhasse Ronaldo. Não havendo, volto a afirmar que Fernando Santos quis, hoje, apresentar um molde. Mas um molde concreto.

Como não acontecia há algum tempo, o horizonte da selecção pressupõe uma convocatória constituída por um considerável número de jogadores que pertencem ao mesmo núcleo competitivo e que estão na linha da frente pela luta pelos lugares do onze. Estamos numa fase experimental, mas, como todas as fases, terá o seu fim. É justo lançarmos o seguinte desafio: o que pensará Fernando Santos em França para o sector do meio-campo, por exemplo, quando tem a seu dispor três jogadores em excelente forma e que coabitaram durante a época inteira? Embora falemos de uma competição com poucos jogos, a exigência competitiva poderá convidar a alterações pontuais de um jogo para o outro. Convém ter um banco forte. Convém, também, ter jogadores que possam corresponder de diversas formas e que estejam preparados para outras dificuldade que, hoje, não estiveram dentro do estádio de Leiria. Seria imaginável que, no rescaldo, teríamos pouca análise táctica – o mesmo não se poderia dizer sobre qual seria o nosso maior obstáculo. Os testes de aferição não contam para a nota, mas há-que ganhá-los.

A Figura:

Stoyanov – O guarda-redes búlgaro teve uma noite de sonho e salvou a Bulgária em diversos lances. Exibição fantástica num duelo interessante com Ronaldo, ficando para a história, e para a sua história pessoal, o penálti que defendeu.

O Fora-de-Jogo:

Portugal – Uma selecção que quer ser candidata à vitória final em França não pode escorregar nos testes que antecedem a fase final do Europeu – muito menos perder com lances evitáveis.

Foto de Capa: Seleções de Portugal