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Os guarda-redes alcançam o devido reconhecimento… finalmente!

Começo com um ponto um pouco mais pessoal. Não tive uma grande experiência em termos temporais a jogar futebol, mas a que tive foi como guarda-redes. Talvez por isso seja sensível à ingrata tarefa que estes desempenham: quando sofrem um golo muitas vezes têm de assumir as culpas, mas quando defendem uma bola estão apenas a “fazer o seu trabalho”. O guarda-redes está geralmente condenado a um papel subalterno, mas a sua função é indispensável. É ele a última esperança dos adeptos e do treinador quando o resto da equipa falhou. No Mundial do Brasil ficou provado que ter um guardião seguro pode fazer realmente a diferença e ser a chave para o sucesso de uma equipa.

Concretamente, o alemão Neuer fez exibições de alto nível, sempre com uma elegância e segurança incríveis. Inovou com várias saídas destemidas da sua área, que mostraram não só uma enorme confiança em si próprio como uma excelente capacidade de leitura de jogo. O prémio Luva de Ouro é justíssimo, e mesmo a Bola de Ouro do Mundial talvez lhe assentasse melhor a ele do que a Messi… (não esquecendo, claro, que havia outros jogadores que mereciam ainda mais). Navas, da Costa Rica (sempre muito seguro e elástico), Ochoa, do México (fez algumas das defesas mais incríveis de que me lembro), e Howard, dos EUA (jogo enorme contra a Bélgica), foram outros dos guardiões em destaque. Todos eles realizaram defesas quase impossíveis, mostrando que a solidez de uma equipa começa lá atrás. Num desporto tão famoso pelos golos que se marcam, estes guarda-redes ficam para a História do Mundial 2014 pelos golos que evitaram. Merecido!

É urgente implementar o recurso a repetições

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Jogo inaugural do Mundial 2014. 70 minutos de jogo. O Brasil e a Croácia estão empatados a uma bola na Arena de São Paulo e os anfitriões revelam algumas dificuldades para lidar com um adversário que acredita cada vez mais num resultado positivo. Bola cruzada da direita, Fred domina de costas para a baliza e, perante a marcação de Lovren, atira-se para o chão de braços estendidos. O árbitro marca penálti, Neymar concretiza e o Brasil ganha. Os croatas seriam eliminados, mas a história talvez fosse diferente se chegassem ao jogo decisivo em igualdade pontual com o México.

Este é apenas o exemplo mais óbvio de que os erros dos árbitros podem adulterar o destino das equipas. Outro exemplo: no França-Nigéria dos oitavos-de-final, Matuidi arrumou Onazi e devia ter sido expulso, deixando a França a jogar com 10. Era o que teria acontecido caso a FIFA não fosse avessa ao progresso e seguisse o exemplo de modalidades como o basquetebol, o rugby, o ténis ou a natação e adoptasse o recurso às repetições. Como disse Carlos Queiroz após o Argentina-Irão, em que os asiáticos viram ser-lhes negado um penálti claro quando ainda havia 0-0, “não é normal ter 40 milhões de pessoas em casa a verem um penálti, ao contrário de quem está a arbitrar o jogo (…). [Os árbitros] precisam de ajuda para tomar as decisões certas”. Perante os olhos do mundo inteiro, este Mundial mostrou que é imperativo recorrer às imagens no futebol. Quando é que a FIFA dará finalmente o braço a torcer?

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Sempre destemido, Neuer implementou no Mundial as saídas da baliza que já fazia no Bayern, catapultando esta inovação no papel do guarda-redes para um nível planetário
Fonte: Fifa.com

3-5-2: o sistema do futuro?

Argentina, Holanda, Chile, Itália, México e Costa Rica. Umas com maior frequência e outras menos, mas todas estas selecções utilizaram um sistema táctico com três centrais durante o Mundial (o meio-campo e o ataque variaram entre 2 e 3 unidades, conforme as equipas). Se os argentinos não tardaram em mudar em definitivo para um 4-4-2, chilenos, mexicanos, costa-riquenhos e mesmo holandeses (Van Gaal previu dificuldades defensivas se a equipa mantivesse o 4-2-3-1 com que fez a qualificação) provavelmente não teriam conseguido chegar tão longe se não tivessem reforçado o seu eixo defensivo com um homem extra.

Claro que o número de defesas pouco importa se depois não há organização, e todas estas formações tiveram o mérito de estar sempre bem posicionadas. Mas o 3-5-2 – assim como outras tácticas com 3 centrais – é um sistema que, por norma, equilibra bem a equipa, dando menos espaço ao ataque adversário. Os laterais podem desdobrar-se em tarefas mais ofensivas ou tornar-se autênticos defesas, conforme aquilo que o jogo lhes pedir. No caso de existir uma dupla ou um trio atacante bem oleado, os resultados poderão traduzir-se em sucessos impensáveis, como foi o caso da campanha da Costa Rica.

Acredito que, depois deste Mundial, vão existir mais treinadores a adoptar este sistema. Pessoalmente, falando do campeonato português, julgo que as equipas mais pequenas teriam a ganhar com a colocação de três centrais, pelo menos nos jogos mais complicados. É sabido que um Gil Vicente ou um Arouca, por exemplo, alcançam normalmente resultados irregulares. Este sistema táctico, desde que bem montado e trabalhado, poderia contribuir para mitigar essa tendência.

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Disposição táctica da Costa Rica no Mundial: 3 centrais, 2 laterais dinâmicos que tanto sobem mais no terreno como formam uma linha de 5 defesas, 2 médios que atacam e recuam e 3 elementos soltos para o contra-ataque. Haverá futuro para este sistema fora do Mundial?
Fonte: http://mundial2014enlos5continentes.blogspot.pt/

Temperaturas desumanas

No Brasil houve vários jogos disputados às 13h locais, com temperaturas superiores a 30°C. É caso para dizer que a FIFA pensou em tudo menos nos jogadores, porque é pouco sensato exigir a atletas profissionais, ainda para mais já desgastados depois de uma época fatigante, que estejam a correr durante 90 ou 120 minutos debaixo de um sol intenso. E a entidade máxima do futebol mundial ainda quer organizar o Campeonato do Mundo de 2022 no Qatar, onde já se chegaram a registar temperaturas perto dos 50ºC… Definitivamente, quando se coloca o dinheiro acima de tudo abre-se espaço a este tipo de decisões no mínimo caricatas.

A diferença entre a Europa e o resto do mundo é cada vez menor

É verdade que, pela primeira vez, uma equipa europeia conquistou o título mundial em solo americano. Contudo, as selecções de outros continentes começam a acordar. Já não há goleadas entre potências futebolísticas e países onde o futebol tem menos tradição (curiosamente, os resultados mais desajustados tiveram como vítimas conjuntos teoricamente fortes). Mesmo a Alemanha, campeã mundial com mérito, teve dificuldades em derrotar a Argélia, e o único jogo que a Mannschaft não venceu foi contra o Gana (2-2). Isto sucede porque os jogadores dos países africanos, americanos e asiáticos já jogam com frequência nas melhores ligas do mundo. Desta forma, estão sujeitos à mesma preparação física, táctica e mental dos europeus, e usufruem também das mesmas condições de treino.

Pela primeira vez houve duas selecções africanas (Nigéria e Argélia) a apurarem-se para os oitavos-de-final de um Mundial. O jornal I alertou, num trabalho recente, que a hegemonia europeia está em queda: das 13 equipas que, em 1938, disputaram os oitavos-de-final (o máximo alcançado, isto num Mundial com 16 integrantes), a Europa passou depois a ter 10 representantes entre 1982 e 2006 nessa fase da competição (excepção feita a 2002, em que foram 9). Nas duas últimas edições, esse número passou para 6. Este ano a América do Sul igualou o velho continente (6 equipas nos oitavos), algo que aconteceu apenas pela terceira vez em 20 Mundiais (as outras tinham sido em 1930 e 1950…). Para além de África, também a América do Norte conseguiu apurar pela primeira vez duas equipas (México e EUA) para a fase a eliminar.

Contas feitas, será que poderemos como campeão do mundo um país “sem história” a nível futebolístico? A médio prazo, tudo indica que sim: depois das idas aos quartos-de-final dos Camarões em 1990, do Senegal em 2002, do Gana em 2010, do 3º lugar da Turquia em 2002, do 4º lugar da Coreia do Sul (2002) e de Portugal (2006) e ainda da chegada aos quartos-de-final da Colômbia, da Bélgica e da Costa Rica nesta última edição, diria que é uma questão de tempo até que uma selecção “menor” consiga ultrapassar os derradeiros obstáculos e sagrar-se campeã do mundo. As diferenças a nível futebolístico, pelo menos no que diz respeito aos melhores jogadores de cada país, são cada vez menores e dão alguma força a esta ideia.

A Argélia de Slimani, Halliche e Ghilas foi, a par da Nigéria, a melhor selecção africana da prova. Pela primeira vez, duas equipas desse continente chegaram aos oitavos
Fonte: Fifa.com

Que futuro para o Brasil?

A maior potência de futebol de selecções está doente. Muitos já tinham torcido o nariz à qualidade da selecção brasileira antes da “Copa”, tanto a nível individual como exibicional, mas ninguém adivinharia tamanha humilhação. Beneficiando de algumas ajudas da arbitragem (jogo com a Croácia) e também de alguma sorte (vitória nos penáltis com o Chile), o escrete foi cumprindo os serviços mínimos e os seus adeptos iam continuando a sonhar com a conquista do título em casa. Porém, no jogo com a Alemanha, a realidade caiu em cima dos brasileiros com uma força brutal. Mas, ainda que ninguém pudesse prever este desastre, já havia vários indícios de que o Brasil dificilmente seria campeão. A meu ver, estes são os principais:

– o mesmo Scolari que, em 2004, levou a “espinha dorsal” do Porto campeão europeu para o Euro e que soube reformular a equipa após a primeira derrota, deixou agora de fora jogadores determinantes e em grande forma do Atlético de Madrid campeão espanhol: Miranda e Felipe Luis. Uma equipa com um futebol pouco vistosopouco rigorosa tacticamente e demasiado dependente de Neymar viu-se perdida em campo quando este se lesionou. Scolari teve azar com a “fuga” de Diego Costa, mas Fred e Jô na frente era manifestamente pouco… e nunca se notou um plano B;

– falei em Miranda porque não entendi a sua ausência do Mundial. Não o incluir no 11 titular já seria estranho, afastá-lo dos 23 convocados roça o escandaloso. David Luiz, pelo contrário, continua a beneficiar de um estado de graça que se prolonga desde que jogava em Portugal e que nem o período menos exuberante no Chelsea conseguiu apagar. O central mais caro de sempre (50M€! Algo está mal no futebol, mas isso seria tema para outro texto…) marcou um golão à Colômbia, mas está em pelo menos 4 dos 7 golos alemães e voltou a falhar contra a Holanda. Um central não pode jogar melhor a atacar do que a defender. O marketing, a simpatia e um visual pouco comum não fazem de ninguém um futebolista de eleição. David Luiz é um bom central, mas nunca um dos melhores do planeta. E personifica, quanto a mim, este novo Brasil: atletas sobrevalorizados, com muito nome mas pouco “sumo”.

– o escrete tem, actualmente, vários outros jogadores que gozam de uma reputação que não corresponde à realidade: Hulk, Bernard, Fred, Paulinho, Fernandinho ou Luiz Gustavo, por exemplo, dificilmente jogariam na selecção brasileira de outros tempos. Marcelo é um bom futebolista, mas continua uma sombra daquilo que já foi. Óscar, por último, ainda pode evoluir, mas a verdade é que foi perdendo gás e não soube ser protagonista quando Neymar se lesionou.

– em jeito de reflexão, deixo este vídeo do alemão Paul Breitner. Entrevistado por uma televisão brasileira em 2013, o ex-médio pôs o dedo na ferida dizendo que o futebol daquele país estava preso ao passado e que os brasileiros teriam de repensar o seu futebol para depois colher os frutos, tal como a Alemanha fizera nos últimos anos. Ainda que não mencione um pormenor essencial, que tem a ver com os recursos materiais à disposição dos alemães para esse efeito (os brasileiros, obviamente, estarão mais limitados), penso que é um vídeo cuja visualização é indispensável por todos os que se interessem por esta temática:

Independentemente de tudo, foi um Mundial emocionante, imprevisível e que deu prazer acompanhar. Um belo mês futebolístico, em que esta modalidade subiu ainda mais lugares nas prioridades diárias de tanta gente. Até 2018!