cab costa do marfim mundial'2014

A poucos dias do apito inicial para o seu terceiro Mundial consecutivo, Les Éléphants vêem a edição de 2014 como a sua grande oportunidade para fazer história.

A Costa do Marfim apenas esteve presente em dois Mundiais até agora, precisamente os dois últimos: em 2006 na Alemanha e em 2010 na África do Sul. Curiosamente, em ambos os Campeonatos do Mundo que disputaram, a sorte não lhes foi favorável e o sorteio ditou que ficassem inseridos nos chamados “grupos da morte”: com Argentina, Holanda e Sérvia em 2006 e com Brasil, Portugal e Coreia do Norte em 2010. Em ambos os grupos não foram além do terceiro lugar, ficando sempre pelo caminho nas respectivas provas.

Porém, a história da selecção costa-marfinense não se faz apenas de desaires. Em 1992 venceu a CAN; em 2005 foi medalha de ouro nos Jogos da Francofonia; arrecadou o título da Taça CEDEAO (Campeonato jogado entre os países da África Ocidental) em 1983, 1987 e 1991; e venceu o prestigiado Torneio de Toulon em 2010. Apesar dos vários títulos, principalmente em torneios secundários (apenas uma CAN conquistada), os africanos querem mais e sonham com a melhor campanha africana de sempre em Campeonatos do Mundo.

Existem dois pontos que podem abonar a favor do sonho dos “Elefantes”: o grupo em que estão inseridos e a qualidade inegável do seu sector atacante. Depois de duas edições inseridos em grupos terrivelmente difíceis, no sorteio para 2014 a sorte sorriu aos africanos, ditando que partilhassem o grupo com Colômbia, Grécia e Japão. A Colômbia, a priori ganhará o grupo com mais ou menos dificuldade, embora vá sofrer mais do que o habitual para fazer golos, devido à dura ausência de Radamel Falcao. A Grécia é uma equipa que tem dificuldades contra selecções de menor craveira, tem dificuldades em assumir o jogo e quando é obrigada a isso é-lhe muito difícil vencer uma partida. No que toca ao Japão, não tenho dúvidas de que será o último classificado do grupo – nota-se uma falta de talento crescente, desde os tempos de Nakata.

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Posto isto, com jogadores de craveira internacional e qualidades indubitáveis como Drogba, Kalou, Gervinho e os irmãos Kolo e Yaya Touré, penso que está apenas nas mãos (ou nos pés) da Costa do Marfim, poder passar à fase a eliminar do Mundial 2014, disputando o segundo lugar com uma Grécia com poucos argumentos.

OS CONVOCADOS

Guarda-Redes – Boubacar Barry (Lokeren), Sayouba Mandé (Stabaek) e Sylvain Gbohouo (Sewé San Pedro).

Defesas – Kolo Touré (Liverpool), Arthur Boka (Estugarda), Jean-Daniel Akpa Akpro (Toulouse), Serge Aurier (Toulouse), Ousmane Viera Diarrassouba (Caykur Rizespor), Didier Zokora (Trabzonspor), Constant Djakpa (Eintracht Frankfurt) e Bamba Souleymane (Trabzonspor).

Médios – Ismaël Diomandé (Saint-Etienne), Max Gradel (Saint-Etienne), Yaya Touré (Manchester City), Ismaël Cheick Tioté (Newcastle United), Geoffroy Serey Dié (Basileia) e Didier Ya Konan (Hannover 96).

Avançados – Didier Drogba (Galatasaray), Gervinho (Roma), Salomon Kalou (Lille), Wilfried Bony (Swansea), Giovanni Sio (Basileia) e Mathis Bolly (Fortuna Dusseldorf).

Os grandes destaques nesta convocatória vão para a ausência de Lacina Traoré do Everton e principalmente para a ausência de Seydou Doumbia do CSKA de Moscovo.

Outra das surpresas foi a convocatória de Kolo Touré, do Liverpool. O irmão da estrela do Manchester City contraiu malária numa visita a Abidjan (a maior cidade da Costa do Marfim), o que o poderá deixar de fora durante alguns jogos. Mesmo assim, Sabri Lamouchi convocou-o e tem esperança de que este recupere, podendo vir a tomar conta da defesa africana o mais brevemente possível.

A ESTRELA

Didier Drogba Fonte: EuroSport.com
Didier Drogba
Fonte: EuroSport.com

Apesar da presença de Yaya Touré nesta selecção (um dos melhores do mundo na sua posição), o título de estrela terá obrigatoriamente de ir para Didier Drogba. Não vos vou falar das suas qualidades técnicas, pois já as conhecemos há muitos anos. Vou falar-vos de algo mais importante que futebol, algo que traz ainda mais valor a este senhor.

Em clima de guerra civil, que já durava há três anos na Costa do Marfim, Les Éléphants jogavam em 2005 o apuramento para o Mundial da Alemanha, frente ao Sudão. No fim dos 90 minutos, Drogba e companhia acabariam por vencer por 3-1 e garantir a primeira presença num Mundial em toda a sua história. Foi precisamente neste momento que Didier Drogba fez o mais importante discurso da história moderna marfinense. O na altura avançado do Chelsea, filmado por um canal de televisão marfinense, tirou o microfone ao repórter e, com os companheiros ao seu redor, em apenas 76 segundos mudou uma nação: “Cidadãos do Norte, do Sul, do Este e do Oeste: pedimo-vos de joelhos que se perdoem uns aos outros! Um grande país como o nosso não pode render-se ao caos! Abandonem as armas e organizem eleições livres!”. A guerra civil na Costa do Marfim terminou e Didier Drogba foi elevado a herói e salvador.

O intitulado desde então “Elefante da Paz” viria a ser distinguido pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo por ter liderado o processo de reconciliação no seu país. Hoje a Costa do Marfim vive em paz e Drogba é um exemplo para todos, dentro e fora de campo.

O TREINADOR

Sabri Lamouchi Fonte: Naij.com
Sabri Lamouchi
Fonte: Naij.com

Sabri Lamouchi é um treinador e ex-jogador franco-tunisino de 42 anos.

Quem acompanha futebol há alguns anos decerto se lembra deste nome. Jogou em clubes de renome como o Auxerre, Mónaco, Parma, Inter de Milão ou Marselha. Acabaria por terminar a carreira de futebolista em 2009 no Qatar, rendendo-se, assim como muitos outros futebolistas da era moderna, aos “petrodólares” dessa região.

No que toca a competições internacionais – porque é disso que falamos neste artigo – Lamouchi fez parte da convocatória de França para o Campeonato da Europa de 1996, em Inglaterra, no qual a Alemanha saiu vencedora. A maior desilusão da sua carreira acabaria por ser também ao serviço dos bleus: Fez parte do lote dos 28 pré-convocados para o Mundial de 98 em França, acabando por ser um dos preteridos da convocatória final. Esteve, portanto, a um passo de fazer parte da maior selecção e da maior conquista francesa de todos os tempos.

Terminada a sua carreira, esteve afastado das lides futebolísticas durante três anos, assumindo em 2012 o seu primeiro papel enquanto técnico, precisamente como seleccionador nacional da Costa do Marfim. Há dois anos no comando dos “Elefantes”, levou os marfinenses a disputar a CAN 2013, ultrapassando sem dificuldades a fase de grupos no primeiro posto, batendo o Togo, a Tunísia e a Argélia. Nos quartos-de-final da competição acabaria por ser arredado da prova pela Nigéria, que viria a ser campeã africana, ao bater o Burquina Faso na final.

Apontado como um treinador que dá primazia ao futebol rápido e ofensivo, Lamouchi não teve dificuldades em levar a sua selecção a qualificar-se para o Mundial do Brasil, ficando em primeiro lugar no grupo C – juntamente com Marrocos, Tanzânia e Gâmbia – com 4 vitórias, 2 empates e 0 derrotas; 15 golos marcados e 5 sofridos.

Depois de uma fase de qualificação brilhante, e com uma selecção recheada das maiores estrelas africanas, a jogar em grandes clubes europeus, Lamouchi tem uma oportunidade de ouro para elevar as cores africanas como jamais foram elevadas na fase final de um Campeonato do Mundo.

O ESQUEMA TÁTICO

11 costa do marfim

O PONTO FORTE

O ponto forte desta selecção é sem dúvida os quatro jogadores mais avançados no terreno. Yaya Touré, com as suas arrancadas desconcertantes, no apoio a um tridente composto por Kalou, Drogba e Gervinho, promete causar o pânico nos relvados brasileiros.

Yaya Touré, uma das maiores estrelas do campeão Manchester City, entra para este Mundial no auge da sua carreira. É sem dúvida um dos melhores jogadores do mundo na sua posição. A sua “força bruta”, aliada a uma técnica rara num jogador deste porte, assim como a uma visão de jogo rara no típico jogador africano, pode ser o maior trunfo dos “Elefantes”.

Salomon Kalou foi um dos melhores na fase de qualificação, tendo sido inclusive o melhor marcador com 5 golos. Já Gervinho fez uma época de alta qualidade na Roma, no regresso de Totti e companhia à Champions. Estes dois jogadores, cada um na sua ala, são garantia de alta velocidade e de mil e um cruzamentos para a estrela nacional, Didier Drogba, que com toda a sua força, técnica, faro de golo e experiência dificilmente deixará escapar uma oportunidade de brilhar em Terras de Vera Cruz.

O PONTO FRACO

O ponto fraco da selecção marfinense acaba por ser o oposto do ponto forte: o sector defensivo, incluindo o próprio guarda-redes.

O guarda-redes Barry, dos belgas do Lokeren, é apontado por muitos peritos como um guardião pouco ou nada seguro. É, no entanto, uma situação impossível de resolver, visto que, apesar das suas debilidades, continua a ser o melhor guarda-redes marfinense.

Outra questão, que decerto preocupa Lamouchi, é o sector defensivo dos “Elefantes”. Os laterais são bastante ofensivos, executando as tarefas defensivas com pouca qualidade e eficácia. Não foram definitivamente talhados para defender…

No que toca aos defesas-centrais, Kolo Touré à parte, encontramos defensores muito permeáveis e um pouco desconcentrados. Todas estas dificuldades no sector mais recuado, aliadas ao estado de saúde de Touré, darão, porventura, algumas dores de cabeça ao seleccionador.

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