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E pronto. Aconteceu. Aquilo que eu mais temia, até. O Brasil nem sequer se apurou para as meias-finais da Copa América, perdendo com o Paraguai nas grandes penalidades, num jogo em que a equipe Canarinha acabou por sofrer mais um golo. O resultado final foi 1-1. É incrível como o Escrete conseguiu obter uma média exata de um golo sofrido por cada partida efetuada nesta edição da Copa América 2015, jogada no Chile. Enfim, mais do que culpas defensivas, o Brasil já não é o mesmo. Há largos anos, aliás. Está a perder terreno, arriscando-se também a ficar de fora da locomotiva vencedora dos próximos tempos. Vamos a fatores que contribuíram para tal.

Primeiramente, depois de 2002, o Brasil, como sempre acontece em países latinos – e incluo no leque dos latinos os países das Américas mas também os da Europa do Sul (portugueses, espanhóis, italianos e também gregos) – partiu para mais um tempo de convencimento. A que chamo eu de convencimento? A altivez? O orgulho? Talvez uma mistura de um e outro atributo… Isso tinha acontecido com o Brasil pós-1962, em que depois de se tornar Bi-campeão do mundo, pensou que não teria de fazer mais nada. Copa sim, Copa não, os títulos iam aparecendo por si só, como a ordem natural das coisas. Enganou-se. O Mundial de 1966 acabou por demonstrar uma terrível lição; que foi muito bem compreendida quatro anos depois. E atente, caro leitor, que quando falo no Brasil não falo obviamente no país inteiro, claro. Falo a quem de direito. CBF, dirigentes e demais autoridades desportivo-futebolísticas. Enfim, o mundo não está parado. As coisas avançam.

Os ideais humanos avançaram. Os direitos avançaram (embora hoje em dia se verifique um claro retrocesso, infelizmente; mas que só poderá levar a uma nova revolução nessa matéria, esperemos). A mentalidade muda. A vida é mutável, portanto. Tal acontece com o futebol, sendo uma pequena fração dessa miríade. Voltando ao ponto de partida deste parágrafo, podemos dizer que o Brasil já não está na linha da frente do futebol. Sei que muitas vezes defendi nesta casa que sim. Mas agora tenho de me render às evidências. Não dá para defender o indefensável. O Brasil está a perder o comboio. Aquilo que os técnicos brasileiros tinham de melhor – e de facto, até certo ponto, eram os melhores do mundo – foi o facto de terem trazido a teoria das modalidades de pavilhão – sempre povoadas pelos professores de Educação Física – para os relvados de futebol. O que fazia que as equipas brasileiras estivessem melhor preparadas que as outras, treinadas por malta da bola antiga e futeboleiros, que faziam as coisas de forma empírica, só porque sim; só porque no “meu tempo também era assim”. Curioso verificar que é isso que está a acontecer com o futebol Brasileiro a nível de clubes e a nível de seleção.

Os brasileiros anseiam por títulos Fonte: blogsalaojuazeiro.com.br
Os brasileiros anseiam por títulos
Fonte: blogsalaojuazeiro.com.br

Todavia , não foi por o Brasil ter perdido com o Paraguai que me fez escrever este artigo. Já vem muito de trás. Não nos podemos esquecer de que o Brasil esteve cinco Copas sem sequer ir a uma final. Entre 1974 e 1990, o Brasil não logrou o título, voltando a vencê-lo em 1994; curiosamente numa seleção que muitos autóctones abominaram, pelo suposto futebol defensivo. Mas o que interessa é que ganhou. Essa foi uma lição aprendida pelos brasileiros, sobretudo depois de 1982: “Ai é? Nós damos espetáculo e vocês é que ganham? Esperem lá que nós também sabemos jogar assim.” E assim foi. Entre 1994 e 2002, o Escrete chegou sempre à final e venceu por duas ocasiões. Uma excelente média. Nem vale a pena falar de gerações e da qualidade de cada uma. Claro que há sempre umas que marcam mais que outras. Mas Brasil é Brasil. A qualidade está (sempre) lá.

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Outro fator que me chama a atenção é o crescente mediatismo e quase necessidade vital por um craque. Exaspera-se pela figura de um mágico que salve o futebol no Brasil. Agora é o coitado de Neymar (que não tem culpa nenhuma da mediatização). Há uns anos foi Kaká. Daqui a outros vamos ver quem será… e a seleção não sai disto. A meu ver, esta crescente necessidade existencial pela figura do “craque”, primeiro, está a matar o futebol brasileiro; e segundo, foi-nos trazida pela crescente globalização da sociedade americana, que, com o seu capitalismo selvagem, faz sempre exportar a imagem de que é preciso sempre alguém ser o melhor. Quando na verdade não existe “o melhor” sem primeiro haver um coletivo que o molde e lhe dê forma. Ah, e claro, não esquecer o papel pernicioso dos empresários do meio disto tudo: impondo jogadores e fazendo concessões de poder. Mais uma parte obscura do futebol, trazida pelo capitalismo.

Pegando nas palavras do sábio jogador alemão Paul Breitner (campeão do mundo em 1974), o Brasil tem que mudar. Isso aconteceu com a Alemanha, depois do Euro 1996. “Nós pensávamos que não tínhamos que fazer mais nada. Errámos. Tivemos de nos adaptar e voltar a desenvolver”. Essa mudança só vai ocorrer a médio e longo prazo. Uma mudança nas mentalidades dos mais jovens. Talvez não aqueles que joguem o próximo Mundial, nem o seguinte, mas uma coisa pensada com tempo. Coisa que nos países latinos – não apenas no Brasil e nas Américas, claro, mas voltando a referir a Europa do Sul – é muito difícil de acontecer. Até porque se o Brasil tivesse um terço da organização da Alemanha, até hoje não teria vencido cinco Campeonatos do Mundo. No mínimo, teria ganhado uns dez, à vontade.

Tirando só uma nota de humor, como fiz no meu último artigo, os brasileiros não precisam de ficar tristes: vai ser a primeira vez que não jogam a Taça das Confederações desde a sua criação, em meados dos anos 90 do século passado. A tal competição maldita. Nunca o vencedor da mesma se tornou no triunfador no Mundial do ano seguinte. Talvez o problema do Brasil desde 2002 seja mesmo esse: vencer as Copas das Confederações. Ou então a vida é apenas um conjunto de superstições.