A edição 46 desta Copa América tem tido momentos brilhantes, contrariando os estranhos jogos dos quartos-de-final, em que, dos quatro disputados, três (!) culminaram sem o âmago do futebol: o golo.

O triunfo da Argentina por 2-0 diante dos venezuelanos confirmou subida de rendimento da Seleção das Pampas, que já tinha ficado latente no último e decisivo jogo da fase de grupos com o Qatar. A estreia ficara ensombrada pela derrota aos pés da Colômbia de Queiroz, mas, pior do que os dois golos sem resposta, fora mesmo a conexão (ou falta dela) patenteada pela equipa, algo que se manifestara de forma acentuada na 2.ª jornada, frente ao Paraguai. Setores desligados, organização defensiva muito vulnerável, equipa sem ideias…

Fonte: CONMEBOL

Como foi supracitado, diante do Qatar os ventos da mudança chegaram, tendo, assim, vindo para ficar no confronto com a Venezuela. E não se pense que a Seleção asiática fora o adversário ideal para o (re)lançamento argentino nesta competição. Os campeões asiáticos, que varreram autenticamente todos os adversários na Taça do seu continente no primeiro mês do ano (sete vitórias em sete jogos), evidenciaram qualidade de jogo superior, ainda que, na mesma medida, ingenuidade. O primeiro golo sofrido diante da Argentina fora exemplo disso (erro colossal na saída de bola, oferecendo de bandeja liderança no marcador aos Albiceleste).

É uma Seleção jovem, pouco experiente, mas que está a crescer a olhos vistos, sob a batuta do espanhol Félix Sánchez. Excelentes princípios, à espanhola, e jogadores que prometem dar que falar no futuro (como são os casos de Akram Afif, Almoez, Madibo, Al Haydos e Abdelkarim). O ponto mais fraco reside, sem dúvida, na baliza. Problema que terá de ser urgentemente resolvido pelos responsáveis do país que organizará o próximo Campeonato do Mundo. Veremos como se apresentarão os qataris na 47.ª edição da Copa América, no próximo ano, com a certeza de que voltarão como convidados.

O grupo de argentinos, qataris e paraguaios foi liderado pela única Seleção com pleno de triunfos na fase de grupos: a Colômbia, orientada pelo português Carlos Queiroz. Exibições consistentes e seguras (em sentido literal) bem à imagem do timoneiro luso, com uma organização defensiva irrepreensível e com poder de fogo q.b no ataque, algo que levou a um saldo também q.b, de quatro golos marcados e nenhum sofrido.
Fonte: CONMEBOL

Nos «quartos», outro galo, porém, cantou. O Chile, dotado de um fortíssimo coletivo, que se conhece de olhos fechados, jogou bem mais do que Los Cafeteros e apenas por infelicidade não garantiu o carimbo das meias-finais no tempo regulamentar. Nas grandes penalidades, contudo, os chilenos fizeram jus ao grande jogo que efetuaram, só por essa via conseguindo jogar para fora da maior competição das Américas uma Seleção que culminou com um registo imaculado no que a golos consentidos diz respeito.

La Roja, por seu turno, confirmou o que já evidenciara na fase de grupos e nas… pretéritas edições, nas quais saiu vencedora. A geração de ouro chilena poderá, perfeitamente, fazer o «tri», fazendo valer a qualidade individual dos seus intérpretes (Aléxis, Vidal, Isla, Medel, Aránguiz, Vargas,…) a uma força coletiva brutal. Na semifinal, a Seleção do Chile é, indubitavelmente, a principal favorita, diante de um Peru que vai escapando pelos pingos da chuva.

Os Blanquirrojos não conseguiram, nestes quartos-de-final, impedir domínio urugaio (apenas estancá-lo) e, como resultado disso, conseguiu levar o jogo para as grandes penalidades. As oportunidades criadas, essas, foram escassas, tendo a Rojiblanca conseguido defender como pôde o resultado e, mesmo, fechar os penáltis com um pleno, que lhe permitiu a passagem. Certo é que o pouco que vai carburando é graças ao «velhinho» Paolo Guerrero e a Christian Cueva. Não deixa, também, de ser curioso que os peruanos apenas tenham anotado golos num só jogo (no triunfo por 3-1, diante da Bolívia). Um registo e uma evidência pobres demais para um possível finalista. Mas… que las hay, las hay.

Fonte: CONMEBOL

O pior jogo dos peruanos foi diante dos canarinhos, na última ronda do Grupo A, quando foram cilindrados pelo Brasil por claros 5-0. Os anfitriões, não obstante, mostraram que ofensivamente ainda têm de fazer muito para almejarem vencer na pátria mãe (a comprovar, os nulos registados diante da Venezuela, na fase de grupos, e Paraguai, nos «quartos»). O imperial registo defensivo (até ao momento, imaculado) tem, assim, contrastado com uma certa prisão de movimentos (não) evidenciado pelos homens da frente. Falta aquela magia, aquele toque de midas na hora certa (e mais necessária), a criatividade tão tipicamente brasileira…

Como foi anteriormente referido, os brasileiros chutaram para fora da competição o débil Paraguai, que beneficiou de uma conjuntura algo caricata para atingir os quartos-de-final (inacreditáveis 2 pontos foram suficientes para tal). Os Guaranis precisam nitidamente de renovar-se em qualidade, tendo o único foco de luz sido o jogador do Newcastle United Miguel Almirón.
Fonte: CONMEBOL
A outra Seleção convidada a par do Qatar, o Japão, protagonizou excelente campanha. Isto apesar de… não ter saído da fase de grupos. Excelente qualidade de jogo apresentada pelos nipónicos, que produziram demais para o que fizeram no momento de finalizar. Muitos golos falhados (especialmente pelo jovem avançado Ueda), mas com a certeza de que a boa campanha mundialista, no pretérito ano, não ficou «esquecida».

Diante do Chile, números mentirosos na pesada derrota sofrida (4-0), num jogo em que os asiáticos por muitas vezes equilibraram, tendo claramente o último ato falhado sempre nas alturas mais importantes. Excelente resposta diante do Uruguai (empate a duas bolas) e outro jogo ainda de maior qualidade no decisivo confronto com o Equador. Oportunidades não concretizadas a rodos impediram os japoneses de procurarem a história (nenhuma, até hoje, na condição de convidada, conseguiu conquistar a Sudamerica). O ex-Portimonense Nakajima foi o motor da equipa. Jogou tanto na mesma proporção que fez jogar.

O Equador, esse, mostrou pouco, muito pouco. Os equatorianos não exibiram grandes predicados, ainda que, por exemplo contra o Japão, tenham tido alturas de algum brilhantismo, tendo, como tal, «arriscado» passagem à fase seguinte. Um ponto foi o que ficou para a história, algo que acabou por ser condizente com o seu desempenho global no Grupo C, vencido pelo Uruguai. A Seleção Celeste, com sete tentos anotados e apenas dois sofridos, chegou a fazer crer que podia, pela 16.ª vez, levar o «caneco» para casa, mas o desperdício atroz diante do Peru, nestes quartos-de-final, deitaram tudo a perder, confirmado pelo infeliz penálti batido por Suárez, uma das grandes estrelas da companhia. Merecia maior fortuna a equipa orientada pelo lendário Óscar Tabárez, mas o futebol tem razões que a própria razão desconhece…

Por fim, em duas latitudes diferentes, a Venezuela e a Bolívia. Os bolivianos, sem surpresa, foram a pior Seleção da prova. Zero pontos, nove golos sofridos e dois marcados. Uma crise que se arrasta há já muitos anos, num país que tem sido incapaz de gerar talento.

A Venezuela, por seu turno, tem feito o seu caminho e esse bom trabalho vai sendo visível nos grandes jogos, com especial incidência para a excelente organização defensiva apresentada, tendo mesmo ficado invicta na fase de grupos (destacando-se o empate no duelo com os anfitriões), só caindo perante uma Argentina de grande nível na primeira ronda a eliminar.

 

Texto da autoria de André Rodrigues

Foto de Capa: CONMEBOL

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