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No último duelo da fase de grupos desta edição da Copa América, o Brasil e a Venezuela mediram forças em Santiago do Chile para decidir os tira-teimas do grupo C, que pouco tempo antes havia visto um empate a zero entre Colômbia e Peru, resultado que colocava a seleção peruana nos quartos-de-final e os cafeteros de olhos postos neste encontro. Sabendo que um empate sem golos servia a ambas as equipas, foi o Brasil que mais cedo deu mostras de pretender o rumo da vitória e que no fim teve a sorte a sorrir para si, ao conseguir um importante triunfo (2-1) para as contas da turma de Dunga.

O Brasil chegava a esta partida após derrota ante a Colômbia, com exibição sofrida na qual não conseguiu demonstrar o seu futebol e onde se viu privado da maior estrela, Neymar, provavelmente até ao término da competição, um autêntico revés nas hostes dos vencedores da prova em 2007. A seleção brasileira voltou a apostar num ataque móvel, sem referência ofensiva na área (Roberto Firmino foi o avançado de serviço; Robinho entrou para o lugar de Neymar). Tática que, de certo modo, desperdiça a qualidade de cruzamento dos laterais Dani Alves e Filipe Luís, mas que é a solução mais acertada a adotar num futuro próximo, tendo em conta a escassez que atravessa o escrete no que a matadores de nível elevado diz respeito.

Sem Neymar, foi Thiago Silva que virou herói. Ainda nos minutos iniciais do jogo, o central brasileiro do PSG assinou um golo de formidável categoria, uma autêntica bomba de pé direito, em resposta a belo pontapé de canto do renascido Robinho, que fez balançar a baliza dos Vino Tinto e inaugurou o marcador. Thiago Silva, que esteve também imperial no que ao capítulo defensivo diz respeito, mostrou os seus dotes dentro da área e faz, decerto, todos questionarem a escolha de Dunga em deixá-lo fora do primeiro jogo ante o Peru.

Thiago Silva marcou o primeiro golo do jogo Fonte: Site Oficial da Copa América'2015
Thiago Silva marcou o primeiro golo do jogo
Fonte: Site Oficial da Copa América’2015

O primeiro tempo viu a seleção brasileira revelar toda a sua superioridade face a uma Venezuela com menores soluções. A turma canarinha, embora com os jogadores a complicarem por vezes tarefas fáceis, esteve confortável em campo, a esboçar uma rápida e eficaz reação à perda de bola, a controlar o ritmo de jogo e impor a sua circulação de bola no meio campo de um adversário que não conseguia demonstrar toada ofensiva e remetia-se a passes longos como tentativa de criação de perigo e de penetrar no “muro” defensivo brasileiro.

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A segunda parte começou como a primeira havia terminado, com o Brasil por cima e com o inevitável Thiago Silva a voltar a criar perigo. A confortabilidade na vantagem chegou por volta do minuto 51, lance que fez lembrar a beleza do conhecido futebol do escrete. A jogada teve de tudo: o passe longo de Robinho para Filipe Luís, com a bola em circulação e passe de abertura para Willian, que, ao seu estilo, desequilibrou pela linha, através de tremenda mudança de velocidade e assistiu com categoria (de trivela!) Roberto Firmino (não costuma ser referência mais ofensiva, mas aparece bem na zona de finalização), que concretizou à ponta de lança e encostou a bola para o fundo das redes.

Com o triunfo nas mãos, pronto a ser gerido pela qualidade de passe do ataque do Brasil, certamente que o que se seguiria não passaria pela mente da larga maioria dos aficionados. A meio do segundo tempo, o selecionador brasileiro Dunga, já muito contestado frente à Colômbia, voltou a fazer das suas e decidiu juntar mais dois defesas-centro à festa (David Luiz e Marquinhos), fazendo ainda entrar Tardelli para referência no ataque, que de pouco serviu, tendo em conta que, com as saídas de Coutinho, Firmino e Robinho, não via a bola chegar a terrenos mais avançados. Dunga quis defender, tremeu e com isto também a equipa tremeu. Tanto que a Venezuela logrou reduzir a desvantagem, na sequência de um excelente pontapé de livre direto por Arango, ao qual Jefferson respondeu com defesa que levou a bola ao poste da baliza, e o venezuelano Miku não desperdiçou a oportunidade que lhe surgiu para introduzir a bola na baliza brasileira. Daí então, a Venezuela acreditou na reviravolta e foram minutos de puro sofrimento para os canarinhos, que aguentaram a magra vantagem até ao final e garantiram o primeiro lugar no grupo.

De assinalar que o Brasil precisava desta vitória. Não só para triunfar no grupo e passar à fase seguinte da competição, como também para animar o espírito da equipa, que se viu abatido e posto em causa no jogo com a Colômbia, no qual a passividade dos brasileiros e uma fraca qualidade de jogo estiveram bem vincadas. É certo que o tão desejado triunfo foi concretizado. Porém, Dunga e as suas más decisões introduziram um ponto de interrogação num triunfo que poderia ter sido bem mais confortável para as hostes canarinhas.

Não obstante ter ganhado, ver o Brasil a terminar um duelo face à Venezuela com quatro centrais (Miranda, Thiago Silva, David Luiz e Marquinhos), dois trincos/médios-centro (Fernandinho e Elias), dois laterais (Dani Alves e Filipe Luís) e apenas um mágico Willian e Diego Tardelli a nível ofensivo é algo que até há pouco tempo seria impensável e impossível de acontecer. O futebol brasileiro é conhecido pela magia dos seus atacantes, pelo brilho que transmitem ao jogo com o perfume do seu futebol, e a verdade é que, de momento, tem jogadores para isso (Neymar, embora não tenha jogado; Willian; Firmino; Coutinho; Douglas Costa), mas com esta mentalidade de Dunga tal não acontecerá. Vencer uma grande competição, algo bem vincado na mente do povo brasileiro, a jogar desta forma não se afigura, certamente, tarefa fácil.

Com este resultado, o grupo C viu Brasil, Peru e Colômbia avançarem na competição, ao invés da Venezuela, que com o último lugar no grupo viu a prova terminar para si. Ao Brasil segue-se, agora, o Paraguai, partida a contar para os quartos-de-final desta Copa América 2015.

A Figura:

Willian e Thiago Silva – Embora sem exibirem todo o seu potencial, foram os jogadores brasileiros mais em destaque e com enorme contributo para a vitória final. Thiago Silva foi, bem ao seu estilo, um autêntico ‘muro’ a defender e a ajuda que deu no ataque com o primeiro golo foi fundamental, revelando ainda outros apontamentos no que ao capítulo ofensivo diz respeito. Willian foi o ‘motor’ ofensivo canarinho. Sempre com bola no pé, a manter a circulação de jogo, desequilibrou quando possível, ainda que com algumas perdas de bola.

O Fora-de-Jogo:

Dunga – Uma equipa como o Brasil terminar um jogo, que tem bem controlado, no qual está a vencer por duas bolas a zero, com quatro centrais, dois trincos/médios, dois laterais e apenas dois elementos com características ofensivas não se compreende para uma seleção com o poderio e o estilo de jogo do ‘escrete’. Dunga vacilou na hora das decisões e, com isso, também o seu Brasil o fez.

Foto de Capa: Site Oficial da Copa América’2015