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Islândia – Nada acontece por acaso

André Eusébio · 3 min

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A Islândia é uma nação com pouca expressão no que diz respeito ao futebol. Sem qualquer participação em grandes competições, o país nórdico está a viver o melhor período da sua história, conseguindo uma inédita qualificação para o playoff de acesso ao Mundial. O empate obtido na Noruega (1-1) chegou para o apuramento, já que a Eslovénia, concorrente directa pela vaga, perdeu na deslocação à Suíça. Para se perceber a dimensão deste feito, convém salientar que a Islândia é um país com apenas 320 mil habitantes, que tem condições climatéricas muito adversas (os campos estão constantemente alagados, e durante os 365 dias de um ano o período nocturno é superior ao diurno) e onde o futebol nem sequer é o desporto rei. Este resultado é, por isso, a melhor maneira de premiar a Federação pelo excepcional trabalho desenvolvido, bem como a “geração de ouro” do futebol islandês, que evoluiu de forma tremenda nos últimos anos.

Não se pense que a Islândia chegou até aqui por acaso. O principal motor deste crescimento foi um projecto nacional lançado pela Federação há mais de 10 anos, com o objectivo de incentivar o gosto pela modalidade e apostar na formação de novos jogadores, de forma a aproveitar ao máximo os escassos recursos existentes. Para ultrapassar as questões climatéricas e permitir que as equipas se mantenham em competição, implementaram-se campos sintéticos indoor e outdoor, o que veio melhorar significativamente as condições de treino e a qualidade dos jogos (embora a liga nacional seja ainda bastante fraca). Todo este processo de desenvolvimento levou a que os jogadores surgissem nas equipas principais cada vez mais cedo, dando depois o salto para campeonatos mais competitivos, como o dinamarquês, o holandês (Sightorsson, Finnbogason e Gudmundsson) e até o inglês (Sigurdsson e Gunnarsson).

 Festa islandesa na Noruega / Fonte: pt.uefa.com
Festa islandesa na Noruega / Fonte: pt.uefa.com

Juntando todos estes factores, já é possível perceber como a Islândia se tornou numa equipa tão competitiva. Num conjunto que tem por base a geração que marcou presença no Europeu de Sub-21 em 2011, Eidur Gudjohnsen, avançado com passagens por Barcelona e Chelsea, é ainda hoje a grande referência. Já com 35 anos, certamente terminará a carreira em breve, dando lugar a elementos mais jovens. Gylfi Sigurdsson, médio ofensivo do Tottenham, tem feito excelentes exibições (marcou 4 golos na qualificação) e deverá assumir o estatuto de estrela da equipa. O jogador de 24 anos tem sido bastante utilizado por André Villas-Boas nos Spurs, destacando-se pela sua capacidade de aparecer em zonas de finalização. A finalização é mesmo o menor dos problemas da Islândia, que conta com dois excelentes avançados: Kolbeinn Sightorsson (também marcou 4 golos), titular do Ajax, e Alfred Finnbogasson, que joga no Heerenveen e é actualmente o melhor marcador da liga holandesa. Gunnarsson, médio do Cardiff City, e Gudmundsson, extremo do AZ Alkmaar, são outros elementos importantes na equipa, que tem claramente na defesa o sector mais débil. Por último, mas não menos importante, o timoneiro que conduziu o país a um feito histórico: Lars Lagerback, experiente seleccionador sueco com cinco presenças consecutivas em grandes competições. Mais uma aposta acertada da Federação Islandesa.

Para o playoff, não tendo o estatuto de cabeça de série, a Islândia poderá ter pela frente a Grécia, Croácia, Ucrânia ou… Portugal (não se esqueçam, nada acontece por acaso). Quem chegou até aqui tem todo o direito de sonhar, mas, mesmo que não se apure para o Mundial, disputar o playoff já supera todas as expectativas. E, sabendo que no Euro 2016 vão marcar presença 24 equipas, é bem provável que a Islândia seja uma delas. Por enquanto, é aproveitar o momento. Nunca se sabe quando se repete.

André Eusébio

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