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Marco Asensio e Dani Ceballos. Decorem estes nomes, porque vão ser duas estrelas do futebol mundial. A magia de ambos ajudou a Espanha a vencer pela sétima vez (em catorze edições) o Europeu de Sub-19, que se disputou na Grécia. Na final, La Rojita derrotou a Rússia por 2-0 e conquistou, de forma justa, mais um título nos escalões de formação. Sem a presença de Portugal, afastado pelos novos campeões europeus na Ronda de Elite, a competição perdeu interesse mediático no nosso país e a cobertura foi quase nula, apesar de estarem presentes alguns jogadores que podem vir a ser referências.

O título espanhol acaba por ser apenas a cereja no topo do bolo, já que o objectivo primordial de criar bases para que alguns destes jovens integrem futuramente a selecção principal foi totalmente atingido. Houve respeito por aquela que tem sido a identidade do futebol nacional na última década, e o perfil dos jogadores também ajudou a que isso acontecesse. Com defesas capazes de iniciar a construção de jogo, médios muito inteligentes tacticamente e jogadores dinâmicos e criativos no ataque tudo se torna mais fácil. Há muita qualidade individual nesta geração. Jesús Vallejo é um líder nato (tem apenas 18 anos e já é capitão do Saragoça) e um central que se destaca pela elegância com que aborda os lances, pela confiança com a bola nos pés e por uma leitura de jogo fora do normal. É justo afirmar que é um dos mais promissores do mundo na sua posição, não sendo surpreendente que seja cobiçado por todos os grandes do país vizinho. Formou uma excelente dupla com Jorge Meré, jogador do Sporting Gijón com características semelhantes. À frente da defesa, Rodrigo Hernández, do Villarreal, foi preponderante na manobra da equipa espanhola. Grande sentido posicional e uma tremenda segurança no passe. As comparações por vezes podem ser injustas e precipitadas, mas é inevitável recordarmo-nos de Sergio Busquets.

Ceballos foi o melhor da prova e vai estrear-se na liga espanhola pelo Bétis Fonte: marcadorint.com
Ceballos foi o melhor da prova e vai estrear-se na liga espanhola pelo Bétis
Fonte: marcadorint.com

Dani Ceballos é um diamante que vai brilhar na próxima liga espanhola. Ajudou o Bétis a conseguir a subida e terá oportunidade de se mostrar ao mundo na época que se aproxima. Está destinado aos grandes palcos e isso percebe-se em poucos minutos. Não sendo um “10” à antiga, até porque tem capacidade de pegar na bola em zonas recuadas e revela uma intensidade defensiva assinalável, é um médio ofensivo com argumentos de sobra (tecnicamente brilhante e com uma capacidade de decisão extraordinária) para chegar ao topo. Marco Asensio é outro craque, e não admira que o Real Madrid o tenha contratado ao Maiorca por 3,9 milhões de euros. O esquerdino foi um jogador decisivo no torneio e também tem potencial para ser uma das figuras do futebol espanhol. Com uma visão de jogo muito acima da média, foi um criador constante de desequilíbrios – seja através do drible ou do passe – a partir do lado direito. Borja Mayoral, também do Real Madrid, é um digno sucessor de Morata, tendo um estilo muito idêntico ao avançado da Juve. Matías Nahuel, extremo rapidíssimo do Villarreal, foi a arma secreta que saltava do banco e esteve igualmente em bom plano nesta competição.

O finalista vencido confirmou que o título de sub-17 em 2013 não foi obra do acaso. Numa altura em que se pode falar numa crise de talentos no futebol local (ou talvez seja apenas uma consequência da falta de aposta nos jovens), a Rússia, com muitos jogadores que faziam parte dessa equipa, deixou uma bela imagem neste torneio, apresentando um conjunto extremamente bem organizado e que fugiu ao excessivo conservadorismo que ficou patente nas últimas participações. Vale a pena dar espaço para que esta geração recheada de qualidade em todos os sectores possa crescer. Começando pelo dono da baliza, Anton Mitryushkin, guardião do Spartak que foi considerado o melhor jogador do Euro Sub-17 de 2013 e que voltou a provar que tem características técnicas e mentais para ser uma referência na sua posição. Nikita Chernov, que já é internacional AA, foi o patrão da defesa, tendo ao seu lado o promissor Dzhamaldin Khodzhaniyazov, central esquerdino com uma excelente capacidade de antecipação, forte nos duelos e extremamente competente na saída de bola. Foram indubitavelmente uma das melhores duplas da prova. Não menos importante foi a dupla de meio campo composta por Dmitri Barinov e Aleksandr Golovin, que teve um papel fundamental no sucesso da equipa. No ataque, para além do irrequieto Ayaz Guliev, desequilibrador sobre os flancos, foram dois jogadores do Zenit a brilhar: Aleksei Gasilin, extremo muito objectivo e um óptimo finalizador, e o avançado Ramil Sheydaev, móvel, com instinto e capacidade no 1×1.

Vallejo e Mitryushkin são dois nomes que podem chegar ao topo do futebol europeu Fonte: uefa.com
Vallejo e Mitryushkin são dois nomes que podem chegar ao topo do futebol europeu
Fonte: uefa.com
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A França, que caiu nas meias-finais perante a Espanha, esteve longe de deslumbrar futebolisticamente. Para não variar, os gauleses apresentaram uma geração impressionante do ponto de vista físico e individualidades acima da média, mas isso não chega quando não há dinâmica colectiva. Faltou qualidade ao ataque, já que ao sector defensivo nada se pode apontar. Mouctar Diakhaby e Abdou Diallo têm o perfil habitual nos centrais franceses (dois “monstros”) e os laterais Angelo Fulgini e Lucas Hernández, jogador à imagem de Digne, foram dos melhores da prova. Olivier Kemen, médio defensivo que revelou grande capacidade de passe, controlou o meio campo, onde Samed Kilic, criativo e com qualidade técnica, também mostrou potencial. Kingsley Coman era provavelmente o jogador mais cotado da competição e está claramente noutro patamar, mas nunca foi a referência de que a equipa precisava. Gnaly Cornet, explosivo e com facilidade na criação de desequilíbrios, e o possante avançado Moussa Dembelé, que fez a diferença saltando do banco, tiveram maior preponderância na equipa do que o craque da Juve.

Os anfitriões, apesar de terem chegado à fase a eliminar, foram provavelmente a selecção que menos qualidade mostrou nesta prova. A equipa grega nunca demonstrou capacidade de jogar em ataque continuado e passou a maior parte dos jogos a defender, apostando depois no futebol directo ou em saídas rápidas. O lateral-esquerdo Kostas Tsimikas, que revelou facilidade em fazer todo o flanco, foi um dos jogadores em evidência e mostrou potencial para fazer parte do futuro da selecção helénica, que atravessa um período bastante negativo. Ainda no sector defensivo, o central Albert Roussos, polivalente da Juventus que também pode jogar no meio campo, destacou-se pela maturidade e pela inteligência na leitura de jogo. Não houve condições para que os jogadores ofensivos pudessem brilhar, tendo em conta a forma de actuar dos gregos. O ponta-de-lança Nikolas Vergos, que já se estreou na Liga dos Campeões pelo Olympiacos, foi obrigado a jogar muito sozinho na frente e deu boa conta de si, provando que é um dos mais talentosos desta geração, bem como o extremo Panagiotis Kynigopoulos, por vezes demasiado individualista mas capaz de criar desequilíbrios.

Com a passagem da Grécia, dois conjuntos de grande valia ficaram pelo caminho. A Áustria não conseguiu vencer nenhum jogo mas apresentou mais uma geração recheada de jogadores que podem chegar brevemente à selecção principal, que tem o apuramento para o Europeu do próximo ano muito bem encaminhado e que tem demonstrado que o futebol do país está numa fase muito positiva. Mesmo sem dois dos maiores projectos do futebol nacional, Valentino Lazaro (o Salzburgo não abdicou dele) e Sinan Bytiqi (por lesão), os austríacos deixaram bons sinais para o futuro. O baixinho Sascha Horvath, que abdicou de participar no Mundial Sub-20 para se concentrar nesta prova, é claramente um dos maiores talentos a despontar e foi a figura da equipa. Com apenas 18 anos e já com uma participação em dois Europeus de Sub-19, é um médio ofensivo que não deve ficar muito tempo no Sturm Graz, tendo em conta o seu potencial. Jogando no apoio directo ao avançado ou sobre os corredores laterais, é um jogador veloz a pensar e a executar, com qualidade técnica e facilidade na criação de desequilíbrios. O reforço do Estugarda Stefan Peric, central forte na saída de bola e com uma excelente capacidade de antecipação, Xaver Schlager, um dos mais jovens da prova (apenas 17 anos), e o avançado Marko Kvasina, gigante de 1,94m com sentido de baliza e uma agilidade interessante para um jogador da sua envergadura, também aproveitaram a competição para despertar atenções.

Sascha Horvath é um dos nomes da nova geração austríaca Fonte: uefa.com
Sascha Horvath é um dos nomes da nova geração austríaca
Fonte: uefa.com

A Ucrânia contou com vários jogadores que brilharam recentemente no Mundial Sub-20, mas a presença de nomes como Viktor Kovalenko, craque que passou ao lado deste Europeu, Valeri Luchkevych ou Artem Biesiedin não fez a diferença nesta equipa de sub-19. As principais figuras desta selecção são produtos das escolas de formação do Shakhtar Donestsk, que realizou uma campanha notável na última UEFA Youth League, onde perdeu na final com o Chelsea. Olexandr Zinchenko, pivot defensivo com bom sentido posicional e uma capacidade de passe notável, Beka Vachiberadze, médio com um pé esquerdo fantástico, e o avançado Olexandr Zubkov, móvel, potente e forte tecnicamente, deram nas vistas e, tendo espaço para isso, têm qualidade de sobra para se afirmarem no futebol sénior.

A Alemanha foi a principal desilusão no grupo da morte e teve um ano para esquecer em termos de futebol jovem (só a presença na final do Euro Sub-17 limpa a má imagem deixada). Os germânicos, que já tinham falhado no Mundial Sub-20 e no Euro Sub-21, apresentaram um futebol previsível e não houve individualidades para resolver o que o colectivo não conseguiu. Timo Werner ainda deu um ar de sua graça, percebendo-se que é um avançado de grande qualidade, mas Leroy Sané, produto mais recente das escolas do Schalke, não foi capaz de marcar a diferença. Numa geração que não deve ter muito impacto no futuro, Jonathan Tah, central que faz lembrar Boateng, acabou por ser o jogador que mais se valorizou nesta prova, de tal forma que levou o Bayer Leverkusen a contratá-lo ao Hamburgo por 10 milhões de euros.

A Holanda não fez muito melhor do que a Alemanha, mas a ausência de alguns dos jogadores mais importantes, como Donny Van de Beek, Riechedly Bazoer ou Jairo Riedewald, todos concentrados na pré-temporada do Ajax, atenua um pouco a má prestação. Bilal Ould-Chikh, recentemente contratado pelo Benfica, não esteve à altura das expectativas e ainda tem de evoluir bastante se quiser confirmar o rótulo de “novo Robben”. Pedia-se mais a uma das figuras desta equipa. Abdelhak Nouri, outro dos craques, teve menos protagonismo do que Frenkie de Jong, médio muito requintado tecnicamente que não vai demorar a dar o salto para um dos principais emblemas holandeses (joga no Willem II). Destaque também para o ponta-de-lança Pelle van Amersfoort, típico avançado de área, corpulento e muito forte no jogo aéreo.

11 ideal:

GR – Anton Mitryushkin (Rússia)

LD – Angelo Fulgini (França)

DC – Jesús Vallejo (Espanha)

DC – Nikita Chernov (Rússia)

LE – Lucas Hernández (França)

MDef – Rodrigo Hernández (Espanha)

MDef- Olivier Kemen (França)

MO – Dani Ceballos (Espanha)

ED – Marco Asensio (Espanha)

AV – Ramil Sheydaev (Rússia)

AV – Borja Mayoral (Espanha)

Melhor jogador: Dani Ceballos (Espanha)

Foto de Capa: uefa.com

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