Finalizada a jornada dupla de qualificação para o Europeu feminino de 2021 (adiado para 2022, devido à pandemia de Covid-19), fazemos um balanço do percurso da Seleção feminina de futebol nos últimos 10 anos.

Posição média anual de Portugal no Ranking FIFA de futebol feminino (com atualizações a cada trimestre, esta média resulta da combinação das quatro posições ao longo do ano)
Fonte: FIFA

Voltemos ao início da década, mas recuemos ainda um pouco mais – no final de 2003, ano em que a FIFA apresentou, pela primeira vez, o ranking oficial de seleções de futebol feminino, Portugal ocupava o 34.º lugar, numa lista liderada pela poderosa Alemanha. Percorrendo os anos, até 2012, os resultados de Portugal seguiram uma tendência negativa, chegando a ocupar, em 2007, o 47.º lugar, a posição mais baixa de sempre do futebol feminino português.

Entre 2007 e 2012, com Mónica Jorge à frente dos destinos da Seleção, Portugal viveu um período de ascensão até 2010, altura em que viria, novamente, a cair no ranking devido aos maus resultados. É apenas em 2012 que se dá o ponto de viragem no panorama do futebol feminino – Mónica Jorge assume o cargo de Diretora para o Futebol Feminino da FPF (cargo que não existira até então), e António Violante entra para a posição de Selecionador Nacional, dando início a um período muito positivo da Seleção. A aposta da Federação Portuguesa de Futebol (com o recém-eleito presidente Fernando Gomes) na vertente feminina era agora mais evidente do que nunca, colocando uma mulher na Direção do organismo, e responsável por uma pasta que, até então, não tinha sido sequer considerada.

Apesar de um bom rendimento das jogadoras comandadas por António Violante, é a entrada de Francisco Neto, em 2014, que mais impacto tem na Seleção feminina. Com apenas 32 anos, o técnico, que já tinha sido treinador de guarda-redes da equipa, regressa para assumir o lugar de Selecionador Nacional e, desde início, galvaniza as jogadoras e aponta como objetivo, a médio-prazo, ombrear com as melhores seleções do mundo.

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Apesar de ainda estarmos relativamente longe das melhores, pelo menos a nível de números e resultados, a verdade é que a Seleção feminina tem feito um percurso feliz, de clara ascensão.

Ao nível das convocatórias, é possível verificar uma grande mudança. Em 2011, por exemplo, era hábito serem convocadas jogadoras que não jogavam sequer futebol, mas futsal – caso de Sofia Vieira, internacional por 34 vezes, ao serviço da seleção de futebol feminino. Talvez pelo nível de competitividade mais elevado no futsal, onde existiam mais equipas e as condições eram melhores, muitas jogadoras preferiam a modalidade de pavilhão aos campos relvados. Porém, a realidade em 2020 não poderia ser mais diferente. Para além de todas as jogadoras presentes nas convocatórias da Seleção serem agora todas profissionais, ao contrário do que se verificava há 10 anos, é também quase impensável ver jogadoras de futsal no lote. O salto de qualidade das jogadoras portuguesas assim o ditou – exceção feita a Mélissa Antunes, que, desde 2011, se desdobrou entre as seleções femininas de futebol e futsal, chegando a estar presente em grandes competições de ambas as modalidades.

Logicamente, a evolução do futebol feminino em Portugal reflete-se na crescente qualidade de jogo da Seleção portuguesa. O aparecimento dos clubes profissionais, para além de trazer mais e melhores condições às jogadoras para se desenvolverem, veio também impulsionar a aposta dos restantes clubes – ninguém quer fica para trás – e são cada vez mais as jogadoras que têm um maior apoio para a prática da modalidade.

Facto é que a equipas das quinas tem melhorado a olhos vistos e os resultados são o espelho disso.  Em 2016, o ano de arranque das primeiras equipas profissionais de futebol feminino em Portugal, Andreia Norton iniciava também um período de ouro na Seleção – um golo no play-off de qualificação, no prolongamento frente à Roménia, garantiu o empate e valeu o passaporte para uma inédita fase final de um Europeu.

Para além do feito histórico de participar na fase de grupos do Europeu 2017, na Holanda, Portugal conseguiu ainda garantir uma vitória (2-1 sobre a Escócia) e esteve muito perto de se qualificar para a fase seguinte, com uma boa exibição frente a Inglaterra, uma das favoritas à vitória final. Na estreia em campeonatos europeus, e com o pior ranking entre as seleções participantes, Portugal deixou a imagem de uma equipa muito bem organizada e competente, sobretudo a nível defensivo.

Entre as jogadoras convocadas para o Europeu, o destaque vai para o núcleo duro que há muito acompanha este processo de crescimento: Patrícia Morais, Carole Costa, Sílvia Rebelo, Ana Borges, Dolores Silva e a capitã Cláudia Neto. Este é, atualmente, o lote de jogadoras mais experientes e internacionais por Portugal, e é à volta delas que a Seleção tem construído o seu onze inicial. Com exceção de Patrícia Morais, que se estreou pela Seleção em 2011, todas as outras levam já mais de dez anos a vestir a camisola das quinas.

Com os olhos no futuro, e até no sentido de promover, a médio-prazo, a renovação da Seleção, Francisco Neto tem estreado várias jovens jogadoras nas convocatórias regulares da Seleção. Andreia Faria, Andreia Jacinto e a ainda juvenil Alícia Correia são as mais recentes apostas, mas em dezembro de 2019, o selecionador nacional promoveu uma convocatória de 22 jogadoras com idades sub-23, na qual apenas duas eram internacionais pela seleção principal. A qualidade demonstrada pelas jogadoras levou mesmo Francisco Neto a afirmar que “o futuro do futebol feminino português será brilhante”.

Para já, é de assinalar a profundidade do plantel e qualidade das jogadoras à disposição da Seleção. Com Jéssica Silva, a maior cara do futebol feminino português, ainda a recuperar de lesão, também Inês Pereira, Ana Capeta, Telma Encarnação, Andreia Norton, Maria Negrão (recentemente chamada à Seleção, com apenas 16 anos) e muitas outras permitem ter confiança o futuro.

Em novembro, a Seleção retoma os trabalhos de preparação. O nível está mais elevado e a responsabilidade também é maior. O caminho para o Europeu 2021 é duro, mas a esperança de que Portugal pode marcar presença na fase final é grande.

 

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