cab seleçao nacional portugal

Um lance, um jogo, uma qualificação. No momento em que João Moutinho parou a bola no peito, chamou a História ao jogo. “Ela” olhou para a Pedreira, em Braga, viu-o sentar dois adversários em simulações e atirar a contar para o fundo das redes de Kasper Schmeichel, marcando o único golo de um Portugal-Dinamarca que sentenciou a qualificação lusa para o Euro 2016, colocando ponto final em malapatas e contrariando o pessimismo do povo. Mas já lá vamos.

Para chegar ao lance do golo, foi preciso batalhar durante 67 minutos. Com a segurança de que o empate chegava para garantir os objectivos, é certo, mas sem a descontracção de quem se acomoda a um nulo no marcador. Fernando Santos avisou que era “vitória” que estava no menu, e os seus jogadores corresponderam bem, não se encolhendo perante uma Dinamarca menos atrevida do que aquilo que seria de esperar, embora também condicionada por um meio-campo bastante sólido e impermeável, e que não permitiu veleidades ao adversário.

Ilustração disso mesmo foi a primeira parte, que não teve lances de maior perigo junto à baliza de Rui Patrício, apesar da vulnerabilidade do flanco esquerdo da defesa (Coentrão menos bem a defender perante um Braithwaite motivado, a retribuir a confiança de Morten Olsen na sua surpreendente titularidade), e que contou, ainda que apenas no último quarto de hora, com uma equipa portuguesa bastante atrevida. Primeiro foi Moutinho a assediar a baliza de Kasper Schmeichel, rematando a rasar a trave, depois foi Nani a aproximar a bola do alvo, com ela a embater no ferro superior da baliza dinamarquesa. Entretanto, muitos mexericos entre os portugueses e bastante intranquilidade dinamarquesa, que ia suspirando pela ida para o balneário sem um golo sofrido. E assim aconteceu.

Talvez por ter o que desejara, a formação nórdica entrou cheia de vontade no segundo tempo, e obrigou Rui Patrício a esmerar-se, impondo-se a um cabeceamento de Bendtner, que também bateu no poste. Porém, cedo a serenidade portuguesa voltou a tomar conta das operações e, antes de estar contabilizado o primeiro quarto de hora do segundo tempo, avisou que estava de olho na vitória, com um remate fortíssimo de Cristiano Ronaldo a obrigar Schmeichel a defender por instinto, embora para a frente, onde Tiago estava e a quem também se impôs. Depois da ameaça, e de um domínio territorial patrocinado por um excelente meio-campo, lá veio o golpe, o golo de Moutinho, que deu a vantagem à selecção portuguesa, sossegando, ainda mais, uns corações lusos que, ao contrário de anos anteriores, já batiam com tranquilidade.

Portugal
A festa da Seleção Nacional
Fonte: Facebook ‘Seleções de Portugal’
Anúncio Publicitário

Voltaram a agitar-se em apenas dois momentos, até ao final: quando Bernardo Silva, partindo do flanco para o meio, irrompeu pela área dinamarquesa adentro, num assomo de genialidade, rematando a rasar o poste direito da baliza de Kasper Schmeichel e com a última investida dinamarquesa, com duas defesas, em lances consecutivos, de Rui Patrício, já nos descontos, a cabeceamentos de Bendtner e Agger.

Mas o apito final soou, e a alegria instalou-se. Estamos de volta a França, 32 anos depois de um Europeu perdido (nas meias-finais) no prolongamento para os homens da casa. Vamos a França, onde não estivemos há 17 anos, graças a um malvado chapéu de um tal Karel Poborsky. Jogaremos no terreno da selecção francesa, a mesma que nos eliminou do Euro 2000 e do Mundial 2006, com um factor comum: penalties de Zidane.

Parece que o passado recente nos condena? Nada disso! Porque, se a história jogava contra nós, ficou evidenciado que esta selecção está apostada em superar traumas, e a prova disso mesmo foi a vitória de hoje à noite: derrotou um adversário que há muito nos vem complicando as contas dos apuramentos, garantindo a qualificação para uma grande competição com tranquilidade, sem calculadora na mão, algo que já não acontecia desde 2006. E ainda aproveitou para deixar a dica: o que nasce torto, pode-se endireitar! A campanha rumo a França começou com uma derrota escandalosa diante da Albânia mas, daí para cá, só somámos vitórias.

Ganhar esteve sempre no menu. E a história, se for um trauma, é para ser superado, conforme se fez hoje.

Figura do jogo:

Danilo (Portugal) – Exibição gigantesca, a do médio defensivo do FC Porto. Foi uma das formigas operárias do meio-campo, que permitiu a superioridade lusa no jogo, contribuindo de forma bastante generosa, com várias recuperações de bola na zona de entrada do processo ofensivo dinamarquês, não se coibindo de, depois, lançar jogo.

Fernando Santos tê-lo-à colocado em campo para fazer frente ao poderio físico dinamarquês, mas Danilo deu uma contribuição ainda maior.

Fora-de-jogo:

Christian Eriksen (Dinamarca) – Dos grandes jogadores esperam-se sempre grandes exibições, e, quando assim não acontece, fica um sabor amargo aos adeptos de futebol. De Eriksen esperava-se a coordenação do jogo ofensivo dinamarquês com passes milimétricos, mas foi abafado pela supremacia do meio-campo luso, e aquele que era suposto ser o cérebro da Dinamarca viu-se restringido a ideias muito básicas quando tinha a bola nos pés.

É justo enaltecer o mérito português no apagão de Eriksen, mas o jogador do Tottenham também não esteve no melhor dos seus dias.

Foto de capa: Facebook Euro 2016

Comentários

Artigo anteriorJulen Lopetegui não se sabe vender
Próximo artigoO Benfica é nosso: e isso sempre chegou
Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.