cab seleçao nacional portugal

Hoje é um dia histórico para o futebol português. Com um merecido triunfo e uma exibição de grande personalidade, a selecção portuguesa de sub-21 completou o pleno na fase de qualificação – com dez vitórias em dez jogos, é a primeira selecção portuguesa de sub-21 a manter um registo 100% favorável – e apurou-se para um Campeonato da Europa deste escalão oito anos depois. A caminhada imaculada de Portugal até aqui cria grandes expectativas em relação à fase final, a disputar na República Checa em 2015, e é um motivo de esperança para uma selecção AA que se quer “renovada”.

A Mata Real, em Paços de Ferreira, acolheu o jogo de todas as decisões e viu um dos seus grandes talentos, o médio Sérgio Oliveira, capitanear a turma de Rui Jorge nesta segunda mão do play-off. Com apenas uma alteração em relação ao onze da primeira mão (Tozé no lugar do castigado Rafa), Portugal enfrentou uma Holanda que, de forma tão desorganizada quanto afoita, procurou o golo desde o primeiro minuto. Vamos à história do jogo.

Depois de alguns instantes de reconhecimento mútuo, o festival de golos começou. O relógio marcava 13’ e Ruben Vezo fez mexer a contagem pela primeira vez – livre de Tozé, desvio do central do Valência, 1-0. A resposta não tardou – dois minutos mais tarde, o gigante Weghorst (1,97m) bateu José Sá com um cabeceamento bem medido. Aos 20’ foi a vez de Ruben Neves corresponder da melhor forma a um canto cobrado pelo endiabrado Tozé.

O "benjamim" Ruben Neves, de apenas 17 anos, marcou o segundo de Portugal  Fonte: zerozero.pt
O “benjamim” Ruben Neves, de apenas 17 anos, marcou o segundo de Portugal
Fonte: zerozero.pt

Por esta altura, já se percebia que iríamos ter jogo com um ritmo frenético e de transições rápidas – o esquema ultra-ofensivo da Holanda, com três homens mais recuados e cinco unidades claramente vocacionadas para o ataque, causou muitos calafrios a Rui Jorge. Incapaz de travar o adversário pelo ar, a defensiva portuguesa foi muito permeável em bolas metidas em profundidade pelos holandeses à procura dos seus elementos mais rápidos na frente. No entanto, o volume ofensivo dos visitantes abriu brechas na sua própria defesa e Portugal conseguiu ir resolvendo a maior parte dos problemas, atacando com um futebol maduro, apoiado e envolvente.

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Momentos antes do apito para os balneários, o possante Kongolo voltou a repor a igualdade no encontro com uma cabeçada fulminante: 2-2 ao intervalo. No reatar da partida, sem Ivan Cavaleiro e com Carlos Mané em campo, o domínio da selecção portuguesa intensificou-se. Mesmo sem conceder grandes espaços na retaguarda e trocando a bola com mais fluidez do que no primeiro tempo, Portugal acabou por se ver a perder pela primeira e única vez no jogo: Nathan Aké fez o 2-3.

A seguir, veio a contraofensiva – três golos e pelo menos o dobro dos falhanços escandalosos por parte de todos os elementos do ataque. Ricardo Pereira, que apontou dois golos de belíssimo efeito, e Bernardo Silva, que “matou o jogo” com um trabalho individual fabuloso, viraram o resultado para 5-3. Mas também Carlos Mané, Iuri Medeiros e Ricardo Horta – todos vindos do banco – agitaram a defesa neerlandesa e estiveram muito perto de levar a contagem para valores surreais.

Bernardo Silva foi provavelmente o melhor jogador no conjunto das eliminatórias  Fonte: EPA / telegraaf.nl
Bernardo Silva foi provavelmente o melhor jogador no conjunto das duas mãos
Fonte: EPA / telegraaf.nl

Aos 89’, o último fôlego de uma laranja muito pouco mecânica – Nathan Aké aproveitou uma grande penalidade cometida por Ruben Vezo para bisar e pôr fim às mudanças no placard, que acabou a exibir um 5-4 esclarecedor.

Esta selecção, jogando sempre de forma muito organizada e concentrada, mostrou em toda a qualificação que há muito talento em Portugal. Esta geração de sub-21, bem como aquela que foi à final do Euro Sub-19, tem condições para servir de base à chamada “renovação” da selecção AA. Agora resta-nos esperar que estes jogadores continuem a ter um espaço de afirmação nos respectivos clubes e aguardar ansiosamente pelo Euro 2015. Seja como for, hoje já foi escrita história.

A Figura

Ricardo Pereira – podia salientar a simplicidade de processos, a cultura táctica, a qualidade técnica e as duas assistências de Tozé, que se afirmou como o elemento em maior evidência no primeiro tempo. Mas a escolha de Ricardo Pereira é inevitável – os dois golos que marcou com grande classe e sangue frio, e que catapultaram Portugal para a vitória final, falam por si. Sempre muito trabalhador e inteligente dentro de campo, e muito habilidoso com a bola nos pés, Ricardo tem também o raro dom de tomar quase sempre a decisão certa. A extremo (como habitualmente), a segundo avançado (como hoje), a lateral-direito (como é utilizado no FC Porto) ou onde quer que seja, Ricardo será sempre uma mais-valia. Grande desempenho!

O Fora-de-Jogo

Permeabilidade Defensiva – a exibição ofensiva de Portugal foi tão extraordinária que não há como não sublinhar pela negativa os quatro golos encaixados. A defesa portuguesa sentiu algumas dificuldades perante a velocidade, o poder de choque e a capacidade aérea do ataque holandês – especialmente na primeira parte – e concedeu um número de golos ao adversário que podia ter sido o suficiente para comprometer a passagem à fase final.