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Para que todas as caminhadas terminem de forma perfeita, é sempre preciso dar o último passo. Ao longo de dez jogos de qualificação, a seleção portuguesa sub-21 tomou sempre conta do seu próprio destino. Numa fase de apuramento absolutamente perfeita, a equipa de Rui Jorge somou dez vitórias em outros tantos jogos, fazendo no playoff contra a Holanda duas exibições tremendamente competentes e que lhe deram o apuramento que desde 2007 falhava para o Campeonato Europeu Sub 21. Numa equipa recheada de qualidade, com William, João Mário e Bernardo a serem os porta-estandartes do sonho português, qualquer sonho que não culminasse na vitória final na competição era pequeno demais para aquilo que se tinha visto ao longo da caminhada até à República Checa.

Nos jogos até à final desta terça feira, Portugal foi quase sempre justificando o seu estatuto de favorito. Mesmo sem nunca brilhar em termos exibicionais – com exceção à brilhante goleada frente à Alemanha – a seleção portuguesa foi fazendo da competência e maturidade tática a sua principal arma. Depois de eliminar aquele que seria a priori o opositor mais difícil da competição, a final frente à equipa sueca adivinhava-se como o final perfeito para um percurso tão perfeito da equipa de esperanças. Do outro lado, surgia uma Suécia que, contra todas as expetativas e probabilidades, chegava ao jogo decisivo. Quando a competição começou, poucos ou nenhuns seriam os que apostavam nesta equipa. Mesmo contando com alguns jogadores de muita qualidade, como Guidetti ou Thelin, a verdade é que, num grupo com Portugal, Itália e Inglaterra, o expectável é que os suecos passassem despercebidos na competição. A verdade é que, mesmo contra todas as previsões, a vitória frente aos italianos revelou-se decisiva para que os nórdicos, comandados pelo experiente Hakan Ericson, chegassem às quatro melhores equipas da competição. Na meia final, uma goleada surpreendente frente à rival Dinamarca levou os suecos ao jogo decisivo, onde reencontravam uma seleção com quem haviam empatado na fase de grupo a uma bola.

Para esta final, Rui Jorge e Ericson decidiram apostar no onze mais experimentado. Relativamente ao jogo frente à Alemanha, o técnico português fez uma alteração, recolocando Ilori junto a Paulo Oliveira, relegando Tobias Figueiredo para o banco de suplentes. De resto, nada foi diferente do que havia sido até ali, com a estratégia portuguesa a recair no 4x4x2 em losango, com Bernardo Silva a ser o elemento fulcral em termos táticos, funcionando como o principal dinamizador do jogo ofensivo português. Na equipa sueca, o 4x4x2 clássico foi a escolha de Ericson, deixando a Guidetti e a Thelin a função de aproveitarem a principal arma da estratégia sueca: o seu jogo em profundidade. Como seria previsível, os suecos procuravam dar o controlo da bola aos portugueses, recuando o bloco e agrupando defensivamente a equipa em duas linhas de quatro jogadores, que foram sempre conseguindo tapar os caminhos, pela zona central e pelas alas, da sua baliza.

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Bernardo Silva nunca conseguiu desequilibrar
Fonte: UEFA

Mesmo tendo Portugal entrado muito bem no jogo – Ricardo Pereira e Sérgio Oliveira, com um remate à trave, podiam ter aberto o marcador – a verdade é que a primeira parte acabou por ser o tónico daquilo que, em termos táticos, foi o jogo ao longo dos 120 minutos. Confrontando-se com um bloco tão baixo mas com uma estratégia tão bem definida, a equipa portuguesa nunca teve os espaços necessários e por isso não raras vezes a definição em termos ofensivos não foi a mais correta. Aliás, nos primeiros 45 minutos, com a exceção dos dois lances nos primeiros dez minutos, Portugal nunca conseguiu controlar o jogo e o adversário. De facto, foram sempre os suecos a estarem mais cómodos na partida, gerindo da melhor forma os ritmos da partida e aproveitando os espaços que o meio campo português ia dando nas suas costas.

Na segunda parte, o figurino ainda assim foi algo diferente. E tanto foi diferente em virtude de um dos principais erros desta noite: as substituições de Rui Jorge. Aos 54 minutos, o técnico português decidiu retirar do relvado o principal pensador – a par de William – do jogo português: Sérgio Oliveira. Sem razão aparente, Rui Jorge acabou por colocar Tozé, desposicionando completamente a equipa e colocando-a num perigo tático constante, em virtude do equilíbrio que se perdeu com a saída do médio do FC Porto. A partir daquele momento, Portugal não conseguiu mais sequer aquilo que teve no primeiro tempo: a bola. Mesmo não tendo sido sufocante, a verdade é que a primeira parte mostrava que, com maior paciência no último terço de terreno, Portugal podia acabar por ser feliz. Com a substituição de Sérgio por Tozé, Rui Jorge quis dar um caudal mais ofensivo à equipa, mas acabou por simplesmente descaraterizá-la. Por isso, não foi de estranhar que, à medida que o segundo tempo ia passando, a equipa sueca fosse ganhando cada vez mais confiança.

A partir do momento em que Portugal perdeu o meio campo, os comandados de Ericson acabaram por subir linhas, levando Lewicki e Hiljemark a tomar conta das rédeas do jogo, aproveitando sempre a profundidade dada pela dupla ofensiva constituída por Guidetti e Thelin. No segundo tempo, as melhores oportunidades acabaram por pertencer aos suecos, com o avançado do Celtic a desperdiçar duas boas chances para fazer o golo, sendo que, nesse período, apenas Iuri Medeiros fez perigar a baliza de Carlgren.

Portugal estava perdido em campo e só em iniciativas individuais é que se conseguia aproximar do último terço do terreno. Ainda assim, para que isso tenha acontecido, há que destacar a estratégia sueca, que nunca deixou que a seleção portuguesa jogasse como mais gosta. Nesse aspeto, a ausência da criatividade de Bernardo ao longo da final foi por demais evidente e que em muito se deveu à forte marcação que o jogador do Mónaco foi sempre sujeito. Mesmo com as entradas de Iuri e Gonçalo, para os lugares de Ricardo e Ivan Cavaleiro, a seleção de Rui Jorge não melhorou, fazendo com que o espectro do prolongamento fosse a única solução para que os jogadores se pudessem refazer de uma segunda parte tão insuficiente quando comparado com o jogo sueco.

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Os suecos fizeram história em Praga
Fonte: UEFA

Ainda assim, e em virtude do cansaço físico de ambas as equipas, os 30 minutos adicionais acabaram por não trazer nada ao jogo. Aliás, durante esse tempo, a única coisa que se viu foi Portugal e Suécia a arrastarem-se pelo relvado do Estádio Eden. As grandes penalidades acabaram mesmo por surgir e, como em tantas outras ocasiões – basta relembrar o mundial sub 20 deste ano – Portugal acabou por não ser competente na sua marcação. Do lado lusitano, Ricardo Esgaio foi o primeiro a falhar, com o sueco Khalili no remate seguinte a colocar tudo na forma inicial. O problema veio a seguir, quando Lindelof fez o golo para os suecos e William Carvalho acabou por ver Carlgren defender o seu remate, dando a vitória à equipa de Ericson no campeonato da Europa de sub 21.

Ao olhar para o percurso português e para aquilo que a equipa de Rui Jorge fez, acredito que a esmagadora maioria dos portugueses dirá que sente orgulho desta seleção. Eu não serei exceção neste ponto. Tendo em conta os recursos humanos que esta equipa tem, penso que Portugal fez um excelente percurso e acabou por dignificar bastante uma camada que tantas vezes foi esquecida ao longo das últimas décadas no futebol português. Ainda assim, e apesar de engrandecer aquilo que os portugueses fizeram, não posso deixar de referir que acredito que é muito por culpa nossa que não estamos neste momento eufóricos com a conquista do Europeu.

Num jogo tão decisivo como este, penso que Rui Jorge e os jogadores deveriam ter tido um outro comportamento. No que aos jogadores diz respeito, foi por demais evidente o cansaço e a falta de frescura física que estes evidenciaram ao longo da final. No que diz respeito a Rui Jorge, e apesar de o ver como um treinador com imenso futuro, não posso deixar de referir que creio que este cometeu demasiados erros esta noite em Praga. Numa segunda parte que estava taticamente tão amarrada, o treinador português não podia simplesmente retirar um dos principais elementos da equipa e da estratégia para o jogo. Ao longo de todo o percurso, o capitão Sérgio Oliveira foi sempre um dos principais faróis da seleção e hoje, quando o retiraram de campo, cedo se percebeu a dimensão da sua importância. É verdade que nos penaltis tudo podia acontecer e que, no caso de uma vitória, possivelmente eu não estaria a acusar Rui Jorge de nada. Apesar disso, creio que é evidente que o técnico português jogou demasiado arriscado quando o jogo não o pedia.

Vinte e um anos depois da final perdida para a Itália, a seleção de sub 21 voltou a ficar à porta de uma conquista que seria totalmente justa. Fica, para a história, a conquista sueca e um percurso que não pode ser esquecido de uma das melhores gerações jovens portuguesas. Mas, para a história deste jogo e desta final, ficam também erros básicos que custaram imenso à equipa. Foi quase como jogar à roleta russa, sem nenhumas garantias de sucesso. E quem o faz, arrisca-se sempre a confiar no destino. E hoje, ele voltou a não querer nada connosco.

A Figura:

Estratégia sueca – Ericson foi verdadeiramente um estratega na preparação desta final. Percebeu os pontos fortes portugueses – sobretudo a criatividade de Bernardo Silva – e simplesmente conseguiu bloqueá-los, levando Portugal para terrenos desconfortáveis. Nos penaltis, os seus jogadores foram mais felizes e, tendo em conta o jogo, não se pode dizer que o resultado tenha sido verdadeiramente injusto.

O Fora-de-Jogo:

Substituições de Rui Jorge – O treinador português foi indiscutivelmente um dos principais responsáveis pelo excelente percurso desta seleção. Ainda assim, a sua escolha em retirar Sérgio Oliveira para colocar Tozé foi um verdadeiro tiro no pé das aspirações da seleção. A equipa perdeu o controlo do jogo, perdeu equilíbrio e nunca mais deu sinais de que poderia chegar ao golo. A derrota nos penaltis acabou por ser o desfecho final de toda uma estratégia que não correu bem ao treinador português.

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