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A Taça das Nações Africanas terminou, aguardando-se rapidamente pela próxima. E não, não é com a pressa de voltar a ver em acção estas selecções, é com o desejo de que esta prova seja apenas um percalço na magia do futebol africano. Quem aprecia este peculiar contexto futebolístico ficou claramente desiludido com a falta de ousadia e ambição dos seus participantes. Houve mais vontade de as equipas quererem mostrar competência a nível táctico-posicional do que em criar equipas capazes de construir oportunidades de golo.

Subscreve-se o que já se havia escrito: “os treinadores tiveram um papel importante” na descaracterização da competição. Acredita-se que a sua orientação resultadista tenha aparecido como um elemento castrador de toda a cultura do jogador africano. O jogador africano é diferente do jogador europeu e sul-americano e deverá ser tratado segundo essa especificidade.

Continuaram ausentes os “momentos “mágicos” a que o futebol (e o jogador) africano nos tem habituado: “cortes de pontapé de bicicleta na grande área; fintas de videojogos; golos acrobáticos; festejos originais; rituais de bruxaria. Já nada parece ser como dantes…”. É verdade que esses momentos nem sempre são sinónimo de qualidade, mas pelo menos era hábito assistirmos a espectáculo quando víamos um jogo da CAN.

Infelizmente, este ano poucos foram os jogos que nos entusiasmaram. O lado estratégico das equipas foi sempre muito conservador, sólido e criativamente pobre. Mesmo nos momentos em que as equipas já não tinham nada a perder, verificou-se muita falta de ambição em alterar o rumo dos acontecimentos. Talvez por as equipas estarem de tal maneira formatadas que não conseguem soltar-se dessas amarras estratégicas, deixando vir à tona o lado irreverente, rebelde e criativo do jogador africano.

Também por isso não foi fácil escolher o Melhor XI desta CAN’2015, e infelizmente pelas piores razões. O nível individual manifestado pelas estrelas africanas foi reduzido, abaixo das expectativas criadas, tanto com os jogadores mais consagrados como com as novas estrelas emergentes. Contudo, acredita-se que se estes jogadores jogassem juntos – egos à parte – eram fortes candidatos à conquista de qualquer título no mundo!

A tristeza de André Ayew depois de mais uma final perdida Fonte: Facebook da CAF
A tristeza de André Ayew depois de mais uma final perdida
Fonte: Facebook da CAF

11 ideal:

GR: Muteba Kidiaba (RDC) – Os guarda-redes africanos não são muito conhecidos pela sua competência. Antes pela sua excentricidade e exuberância de comportamentos, dentro e fora dos postes. De todos os guarda-redes do torneio, não houve nenhum que se mostrasse a um nível superior, pelo que a escolha recaiu antes como uma espécie de “prémio carreira” a este guarda-redes – e bailarino – congolês de 39 anos.

DE: Faouzi Ghoulam (ARG) – O defesa-esquerdo argelino mostrou ser um jogador de grande qualidade. Ghoulam nem sempre foi compensado posicionalmente nas transições defensivas da sua equipa, mas as suas subidas no terreno causaram sempre desequilíbrios aos seus adversários.

DC: Madjid Bougherra (ARG) – Não começou o torneio como titular, mas o capitão argelino foi um dos melhores defesas desta prova. Não é muito requintado em termos técnicos, e a sua agilidade e aceleração começam a ficar comprometidas com os seus 32 anos, mas a sua paixão pelo jogo e pelo seu país fazem dele um central extremamente eficaz. A sua concentração, determinação e sentido posicional permitem-lhe resolver muitos problemas que lhe aparecem. E se aliarmos isso a uma capacidade de liderança fantástica – ele que capitaneou uma das equipas mais emocionalmente voláteis da prova –, pode mesmo ser considerado o capitão desta pequena selecção.

DC: Kolo Touré (CdM) – Embora jogue numa equipa que muitas vezes se dispõe em campo com três defesas-centrais, não foi fácil ter o papel de liderar uma defesa a três na selecção campeã africana. Os seus companheiros são ainda muito jovens e inexperientes – Bailly tem 20 anos e Kanon, 21 –, o que lhe complicou mais a tarefa de organizar a sua linha defensiva. Nem sempre se mostrou assertivo, mas a verdade é que poucos foram os adversários que passaram pelo mais velho dos Tourés!

DD: Serge Aurier (CdM) – Um dos melhores jogadores desta competição. Não tem o espaço desejado no seu clube, mas aproveita os jogos pelos Elephants para mostrar toda a sua categoria. No plano individual é extremamente competente a defender, sendo ágil e forte no desarme. No plano colectivo revela algumas debilidades a fechar os espaços interiores, valendo-lhe a velocidade para recuperar posições perdidas.

MDF: Serey Dié (CdM) – Peça fundamental em qualquer equipa, também o foi no miolo da sua Costa do Marfim. Não tem o requinte técnico que se gostaria de ver, mas a sua entrega, disponibilidade e determinação fazem dele um jogador muito importante, especialmente a defender. Foi um verdadeiro ladrão de bolas aos seus adversários, tanto nos duelos individuais como na intercepção de passes através de um exímio posicionamento. Para alcançar patamares ainda mais competitivos, faz-lhe falta, principalmente, melhorar a sua qualidade de passe.

MC: Yaya Touré (CdM) – Mesmo sem a intensidade de jogo a que nos habituou nas últimas épocas, Yaya Touré continua a ser um dos melhores médios do mundo. Extremamente completo, a defender e a atacar, o jogador enche o campo com a sua passada larga e a sua qualidade táctico-técnica.  Nem sempre teve o papel ofensivo que gostaria, e por aí poderia ter-se mostrado condicionado, mas foi muito influente em toda a estratégia marfinense.

MO: André Ayew (GAN) – Jogou na extrema esquerda do ataque ganês, mas parece ser a médio ofensivo que melhor joga este belo jogador. Falhou no comportamento ofensivo sem bola, procurando-a pouco, não conseguindo explorar melhor os espaços para conseguir receber e jogar. Mas, quando a bola lhe chegava, ela ficava contente de tão bem ser tratada nos seus pés. O jogador é ainda importante no moral da equipa, contagiando os seus colegas com os seus comportamentos de liderança.

EE: Javier Balboa (GEQ) – Talvez seja injusto não aparecer aqui o nome de Emilio Nsue, um verdadeiro globetrotter dos papéis e tarefas da equipa guinéu-equatoriana. Mas foi Balboa que apareceu nos momentos mais importantes e os concretizou. A tendência caseira das arbitragens não é desculpa para os resultados positivos dos Nzalang, que tiveram em Balboa um dos seus principais jogadores. O extremo não vacilou em momentos importantíssimos e contribuiu activamente para a sua equipa chegar às meias-finais da CAN’2015.

ED: Christian Atsu (GAN) – Ganhou o prémio de Melhor Jogador e de marcador do Melhor Golo da CAN’2015. Fez uma excelente competição, e curiosamente foi bem mais referência do que Ayew ou Asamoah nos comportamentos ofensivos das Black Stars. Por vezes, luta “contra o mundo” em campo, resolvendo os problemas de uma forma muito individual, mas a sua velocidade e o seu drible desconcertante levam a que tente fazer isso. Para além disso, o jogador tem um remate fácil, “mais em jeito do que em força”, conseguindo a marcação de dois golos no torneio.

AV: Wilfried Bony (CdM) – Recentemente contratado pelo Manchester City, Bony está-se a tornar um caso sério em África. À data será mesmo dos melhores avançados africanos, conseguindo aliar o lado táctico-físico ao lado táctico-técnico do jogo. A seu favor tem ainda o facto de ser um goleador nato, tendo tudo para vir marcar uma era no futebol da Costa do Marfim e de África.

Atsu foi o melhor jogador da CAN Fonte: Facebook da CAF
Atsu foi o melhor jogador da CAN
Fonte: Facebook da CAF

Para além destes nomes existem outros que ficaram na retina e que poderão alcançar um nível internacional já nas próximas épocas:

Eric Bailly (CdM) – Ainda meio tenrinho, este defesa-central de 20 anos surpreendeu devido à sua qualidade com a bola. As suas progressões em campo com a bola controlada provocaram muitos desequilíbrios aos seus adversários. O facto de jogar numa linha defensiva a três permitiu-lhe realizar esse comportamento sem grande risco, causando inclusive um golo numa dessas subidas no terreno (1×0 frente à Argélia). A defender, o jogador ainda revela algumas lacunas, abordando os lances de uma forma algo inocente e intranquila. Contudo, competindo na Liga Espanhola – agora no Villarreal, antes no Espanyol – poderá crescer bastante como jogador, esperando-se que consiga a alcançar o nível do seu companheiro Kolo Touré.

Acquah Afriyie (GAN) – Inconstante na sua carreira, o médio-defensivo de 23 anos poderá estar a atravessar um momento importante na afirmação das suas competências como jogador. Passou muitas vezes despercebido do jogo, mas no bom sentido. Foi sempre muito sóbrio e eficaz no meio-campo ganês, conseguindo chamar a atenção dos prospectores da Sampdoria, que o contrataram ao Parma. Tem o upgrade táctico-estratégico do Calcio, faltando-lhe alguma dinâmica e ousadia quando tem a bola na sua posse.

Iban Salvador (GEQ) – É verdade que existem centenas de extremos agitadores no mundo do futebol. Mas nem todos parecem gostar tanto de futebol como este pequeno Salvador. Vindo da escola espanhola, o jogador é muito dotado tecnicamente, e muito intenso e dinâmico nas suas jogadas. É, no entanto, pertinente verificar que o jogador precisa de aprender a jogar em ritmos mais baixos do jogo, já que parece estar sempre pronto para jogar a mil à hora quando o jogo pede outro tipo de velocidades.

Para finalizar, é importante deixar uma nota importante à organização. Nota, obviamente, negativa. Hotéis sem condições mínimas para as equipas se instalarem; arbitragens, em certos momentos, vergonhosamente caseiras; incidentes lamentáveis nas bancadas; fraquíssima qualidade de alguns relvados. Ou seja, acontecimentos que mancham e denigrem o futebol africano e a sua ambição de se superar e atingir categorias mais elevadas.

Foto de Capa: Facebook da CAF

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