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O comodismo está na génese de muitos problemas do mundo. Encrava o desenvolvimento, tanto pessoal como colectivo. Seja a nível físico, pelos dias e noites que se possam passar em frente a um ecrã de computador ou de uma televisão, ou intelectual, pelo facto de se falar sempre com as mesmas pessoas, da mesma maneira, nos mesmos lugares. A nível colectivo, civilizações e estados menos desenvolvidos não crescem, e a riqueza que uma economia produz escorre quase em absoluto para barões e ditadores que têm como braço direito um povo que não muda porque não conheceu outra coisa desde que se conhece. Caso conhecessem, talvez quisessem mudar, talvez não se conformassem como acontece em alguns países desenvolvidos, mas o comodismo de quem os (des)governa é o que dita leis, e assim se prolongam problemas (acesso a comida, educação e higiene básica) que deviam ser do século passado pelo galopante “encolhimento” do mundo que as TIC (e o acesso a elas) têm patrocinado.

O comodismo, porém, pode não ser uma coisa má. É, até, algo necessário ao ser humano que precisa de uma identidade para se distinguir dos demais e, por isso, de uma zona onde se sinta mais do que querido – amado e respeitado incondicionalmente. No fundo, um lugar ao qual possa chamar “casa”, seja ele físico (partilhado com os seus entes mais queridos) ou fictício (as bases da sua educação, os valores). Essa “casa” física, porém, não nasce com a compra de um apartamento ou a chegada a um novo cargo. Vai-se construindo através do “ir ficando”, das rotinas estabelecidas, dos mesmos sorrisos, dos comportamentos gradualmente previsíveis… enfim, do comodismo.

Porém, até o “excesso de justiça faz injustiça”, pelo que o comodismo deverá ser algo bem regrado. Se alguém não sair de uma “casa” onde foi feliz e bem sucedido, nunca saberá se foi só a força das circunstâncias externas que o provocou ou se as causas do sucesso se devem às suas qualidades. Sem se sair dessa zona de conforto, ficará sempre essa prova por dar – ao mundo e, sobretudo, a si mesmo.

Ronaldo já saiu da zona de conforto e tem, agora, menos provas a dar Fonte: Facebook do Real Madrid
Ronaldo já saiu da zona de conforto e tem, agora, menos provas a dar
Fonte: Facebook do Real Madrid

O futebol conhece casos destes. Leo Messi, actualmente, é o mais flagrante. O talento nasceu com ele, a formação foi feita em Barcelona. É um dos melhores jogadores de sempre, mas só actuou num clube, profissionalmente, ao longo da sua carreira. Cristiano Ronaldo, espécie de “inimigo mortal” do argentino, pode gabar-se de já ter conquistado troféus em vários ”casas” e de ter sido considerado o melhor jogador do mundo nelas (Real Madrid e Manchester United). No seu caso, ficou provado que foram as qualidades do jogador que fizeram o sucesso e não a força das circunstâncias, as rotinas estabelecidas, o conhecimento da casa e das infraestruturas, o sistema táctico ou a posição que ocupou. Neste momento, Cristiano Ronaldo tem menos a provar a si mesmo, e não se esperaria outra coisa de um animal competitivo como ele é.

A fuga da zona de conforto deve ser algo que Messi deve estar a considerar e algo que muitos jogadores por esse mundo fora já pensaram e… executaram. Sobretudo este ano. Bastian Schweinsteiger (do Bayern Munique para o Manchester United) e Iker Casillas (do Real Madrid para o FC Porto) são os casos mais mediáticos. Ganharam coragem e deixaram o conforto de “casa” para interromper ligações de 17 e 25 anos, respectivamente, com os clubes onde nasceram para o futebol.

Agora podem provar que a sua qualidade não depende do clube que representavam. Principalmente o guarda-redes espanhol, muitíssimo criticado por adeptos e analistas de futebol que foram colocando sobre ele um manto de incerteza acerca da sua competência entre os postes, apontando o clube que representava como a principal razão para ser considerado um dos melhores do mundo.

Em 2015/2016 essa dúvida ficará desfeita. Casillas vai sair da zona de conforto.

Pedro Machado
Pedro Machado
Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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